"No meio do caminho
tinha uma pedra
tinha uma pedra no
meio do caminho
tinha uma pedra
no meio do caminho
tinha unia pedra.”
(Carlos
Drummond de
Andrade,em Alguma Poesia)
À
memória do Desembargador amigo Eurípedes Queiroz
do Vale (Beneventino).
Logo
ao assumir a comarca de Muniz Freire, em meados de 1961, verifiquei
que uma boa camada da população local era dada
ao uso excessivo da cachaça, ao ponto de perturbar a
ordem pública. Com a mania pedagógica que sempre
tive, embora como e quando professor (já disse que não
era a minha vocação), não gostasse dessa
maneira sistemática de ensinar (prefiro a maneira difusa
ou assistemática), procurei despertar no povo, inclusive
pela via intimidativa-- valendo-me até das sentenças--,
o amor à temperança, na profilaxia dos delitos.
Notei que o alcoolismo constituía meio ou causa de muitos
deles ocorridos, então, naquela insulada comunidade capixaba
(no tempo de chuva, que era quase o ano todo, não se
entrava ou saía dela). Muniz Freire, aliás, por
certas características locais, foi a minha primeira experiência
de magistrado do interior, sob o aspecto da função
social que é própria do cargo. Daí haver
criado escola, biblioteca etc., junto à respectiva Delegacia
de Polícia. Contei isso em "Minha Vida e Minhas
Lutas Por Um Ideal Jurídico".
Pedra maior ainda, porém, antepôs-se no meu caminho.
Um preso, na cadeia pública, representava sério
problema. E não demorou que, contra ele, começassem
de chegar-me as reclamações dos responsáveis,
desde o Delegado, pelo presídio e dos seus mesmos companheiros
de cela. Chamava-se José e era mais conhecido por José
"Soldado", policial que fora e expulso da corporação.
Era um poço de revolta. Cumpria pena por condenação
em diversos crimes e processos. Já havia, inclusive,
desacatado o eminente colega que me antecedera na comarca, hoje
juiz federal Romário Rangel.
Certo dia, andando pela cidade, verifiquei que somente a sua
praça, principal e única, mais um bosque do que
ajardinada, possuía calçamento a paralelepípedo.
Procurei saber do Prefeito José Maurício por que
não levava o calçamento também às
ruas, de resto poucas e curtas. Ele me respondeu que era por
dificuldade de mão-de-obra, pois pedra havia muita--eram
montanhas perto da cidade. Foi aí que, inspirado no poeta
João Cabral de Melo Neto ("A educação
pela pedra"), uma idéia extraí do veio pedagógico
da pedra. Precisava de "quebrar" as energias represadas
de José "Soldado", que, além do mais,
se sentia humilhado porque, no cárcere, ficava na dependência
do sogro para manter-lhe a família, com mulher e filhos,
os quais nem podiam visitá-lo na cadeia, tamanha a sua
exasperação ao vê-los. Dir-se-ia um capítulo
para a psicologia judiciária.
José tinha fama de perigoso. Inobstante isso, resolvi
tentar recuperá-lo através do trabalho útil
e produtivo, em regime de semiliberdade. Propus-lhe quebrar
pedras para a Prefeitura, mediante paga. Ele aceitou, ao mesmo
tempo que me indagando:-- Escoltado? Disse-lhe que não,
que ia abrir-lhe um crédito de confiança.
E José foi para a pedreira, na maior animação,
a labutar durante o dia, à noite recolhendo-se à
prisão. Nunca mais me preocupou, tal a sua disciplina
e o bom comportamento, que passou a ter. Visitava a família
e dava-lhe assistência de marido e pai. Era outro José.
Saí de Muniz Freire, promovido para a 2ª entrância,
comarca de Baixo Guandu.
Anos depois, de passagem por Vitória, indo à residência
de um colega, mal sabia eu que iria reencontrar-me com José.
Chegando ao prédio, na portaria um senhor me recebeu
visivelmente emocionado e apresentou-me ao síndico do
edifício (ele era o zelador)-- como o juiz que havia
feito dele um homem.
José! Você, com o seu gesto e as suas palavras,
cumulou-me de alegrias que compensaram--e ainda perduram-- o
sofrimento de uma vida, na carreira que encerrei para continuar
a luta pelos ideais no meu atual posto de simples fazendavelhense,
de regresso à terra-mãe e, também, buscando
a felicidade pela literatura. A realizar-me, enfim, em exercício
de aprendiz de escritor, frustrado que era, até certo
ponto, dentro do contexto de um ideal maior, pelo gosto da palavra
e no trato das idéias. Eis aí, à semelhança
do poeta, a lição da pedra.

Fazenda Velha
Pedro Borges de Rezende