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A
história é a do "Juquinha", que num
lugar sem médicos, praticava o curandeirismo e, auxiliado
por outro, mantinha doentes mentais em cárcere privado
e tratados a poder de pancadas.Condenado a uma pena de reclusão,
visitei-o na cadeia pública e lhe perguntei - a ele
que lidava com ervas - se saberia cuidar de uma horta. Disse-me
que era a sua maior vontade. Nessa época, morava eu
numa casa com enorme terreno ao lado. 0 mato que o cobria
indicava ser terra boa. Primeiro Juquinha cuidou da cerca,
feita de bambu. Depois, enquanto ele preparava a adubação
e os canteiros, providenciei as sementes de diversas hortaliças.
0 certo é que, em pouco tempo, estávamos com
uma bela horta, a fornecer verduras e legumes - a renda era
dele - ao único ponto de refeições da
cidade. Antes, só se comia carne, arroz, feijão
e farinha. Angu, às vezes, pois na alimentação
local predominava a cozinha baiana sobre a mineira.
Todos que passavam pela rua, admiravam-se da nossa horta e
falavam, uns com os outros, que o juiz havia dado um exemplo
aos habitantes da cidade, na sua grande maioria gente da roça.
Em verdade, até então, ninguém tinha
horta. E brigava-se por quintal.
Foi a partir daí que começou a minha experiência
de reeducar o homem delinqüente através do trabalho
útil e produtivo. Juquinha - agora vou mencionar-lhe
o nome completo: José Martins de Melo Júnior
- constituiu o primeiro caso bem sucedido. E teve uma recuperação
total. Saí de Ecoporanga, deixando-lhe a horta, cujos
pés de couve, por exemplo, eram quase da altura do
promotor (Waldir Vitral fora ser diretor da Penitenciária),
a esse tempo o bom baiano capixaba José Mathias de
Almeida Netto, que gostava de passear, às tardes, pelos
canteiros, extasiado de tanto verde, ele que é da região
seca de Canudos, hoje Euclides da Cunha.
Mais tarde, eu já na comarca de São Mateus,
também norte do estado (onde, àquela época,
era tudo longe), soube que Juquinha, obtido o seu livramento
condicional, queria ir a pé, em sinal de penitência,
visitar-me. Mandei-lhe recado que não precisava - que
se considerasse mais uma vez liberado e eu pago da satisfação
que me proporcionara.
De curandeiro e torturador a horticultor. Um exemplo do quanto
pode a redenção humana.
Juquinha, onde estiver, o meu muito obrigado!
Outra
história de Ecoporanga no meu tempo, em fragmento de
memórias.
Foi o caso que, dentre os muitos processos paralisados na
comarca, ao lhe assumir o exercício, um, de modo especial,
despertou-me a curiosidade. Era o que se ínstaurara,
havia anos, contra dois indivíduos, um deles Major
da Polícia Militar do Estado de Minas Gerais. Ficara
na denúncia, recebida, sem a citação
do militar."Este pau tem formiga", murmurei comigo,
a lembrar-me de Tácito Carneiro da Cunha, então
meu colega de Barra de São Francisco, o qual certa
vez me contou que um juiz nordestino, em situação
semelhante, usara tal expressão determinando que o
processo retornasse ao arquivo, isto é, permanecesse
intocável. A expressão significa "aqui
há algo de suspeito"; ou, segundo acrescenta Jaime
Sisnando, "Sertão bravio", "abra os
olhos, senão...”
Com efeito, antes de agir, procurei ínformar-me, extra-autos,
sobre o crime, suas circunstâncias e, principalmente,
se ainda haveria alguém, na comarca, capaz de pôr
em perigo a vida do Major, quando viesse para o interrogatório.
Por coincidência, a primeira pessoa a quem abordei,foi
o cidadão José da Cruz, a essa altura um ex-pistoleiro
já regenerado e marido da serventuária D.Orlandina.
Respondeu-me, com lealdade (a qual, em sua memória,
ora deixo consignada), que era exatamente dele o receio do
militar; e me contou, a propósito, uma longa história
do passado de ambos. Apesar disso, assegurou-me, podia eu
tranqüilizar-me, que nada mais aconteceria.Demonstrou,
inclusive, o desejo de rever o Major.
Por outro lado, do setor policial mais confiável da
região, na pessoa do Capitão Argeu Furtado de
Almeida (aliás, um bom calçadense que muito
colaborou comigo naquelas duras paragens capixabas da época),
obtivi logo a cobertura que se tornasse necessária
ao êxito da missão a que me propunha.
De posse desses elementos, além de outras medidas de
precaução adotadas, animei-me a fazer citar
o Major,com dia e hora previamente designados para o seu interrogatório.
Ainda assim, recebi pedido de adiamento,pelo Comandante da
Polícia Militar de Minas, sob a justificativa de que
a apresentação do Major, em Ecoporanga,ao que
lhe constava, resultaria na sua morte; e aguardava,pois, as
devidas providências ao meu alcance.
Atendendo ao solicitado, resolvi assumir, pessoalmente, todo
o risco que por ventura inda existisse e informei que o citado
militar teria, na minha comarca, amplas garantias de vida.
No dia e horário aprazados, comparece o Major com a
mais aparatosa escolta, nem só a trazida de Minas mas,
de sua vez, a que lhe juntou o Capitão Argeu, de passagem
por Barra de São Francisco, vindo por Mantena,numa
viatura assoalhada de metralhadoras. Dispensei tudo e saí,
rua afora com o Major, convidando José da Cruz a acompanhar-nos.
Quando lhe pronunciei o nome e José da Cruz se aproximou,
o Major assustou-se. Coloquei-o entre mim e o José;
sem demora, descontraindo-se, passaram a conversar. Não
me esqueço de certo trecho do diálogo,demonstrativo
do quanto eles se conheciam. José da Cruz perguntou
ao Major se se recordava de uma vez que fora à fazenda
do Bimbim, para prendê-lo e o Major disse que não
o encontrara, ao que José esclareceu: pois é,Major,naquele
dia esteve pertinho de mim e só não atirei no
Sr porque não quis (José da Cruz tinha sido
genro e capanga do mal afamado fazendeiro de Minas).
Antes de chegarmos ao Fórum, houve um fato pitoresco.É
que um zeloso funcionário da justiça, o porteiro
Geraldo,havia feito, por sua própria conta, uma muralha
de tijolos pela parte de fora da parede, no espaço
em que ficava a cadeira do juiz, na intenção
de proteger-me as costas face à eventualidade de um
atentado contra o acusado,hipótese em que, alegou Geraldo,
eu seria também atingido.Agradeci e ainda cumulei o
amigo do trabalho de retirar,dali, os tijolos.
Interrogado o Major, entreguei-o à escolta que o reconduziu,são
e salvo, à Capital Mineira e à sua Corporação.
Foi assim que, futuro lavrador, comecei a extinguir formingueiros..
Agosto de 1987.
Pedro Borges de Rezende.*

*Dr.
Pedro Borges de Rezende é Juiz de Direito aposentado.Nasceu
e mora na Fazenda Velha.

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