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"Se
toda a medicina não está na bondade, menos vale
dela separada."
(Miguel Couto, citado em Galo das Trevas, de Pedro Nava).
Houve
um tempo, no Brasil, em que eram poucas as opções
de carreira. Quase se resumiam em Direito, Engenharia e Medicina.
Por isso, muito mais fácil escolher, dentre elas, a
que se quisesse seguir. No meu caso, bem antes de terminar
o ginásio, em cinco anos, já me havia decidido
pelo Direito.
Mas o prestígio maior inda era o da Medicina. "Doutor",
para os mais antigos, reservava-se ao médico. Pobre
de mim que, desde cedo, fui excluído de tal privilégio,
através do vaticínio de uma parenta idosa: "Esse
aí” - dizia - "não tem cabecinha
de doutor; é ginástica pura" (isto pelos
trejeitos que eu fazia, ao dela aproximar-me). Não
me achava com seriedade bastante para exercer a arte de curar.
Optando, vocacionalmente, pelo curso jurídico, nem
assim deixei de me ligar à medicina, com a qual sempre
mantive um certo namoro (a cadeira de Medicina Legal constituiu
uma de minhas predileções). E tudo começou
pela bondade dos médicos que me assistiram nas doenças
da infância. Em Calçado, então, lembro-me
de Álvaro Duque Estrada, Aluyzio Pinto da Luz e Irerê
de Souza, Martins. Dois deles eram naturais do Rio de Janeiro,
ou seja, cariocas: Dr. Duque Estrada, homem boníssimo,
cuja fisionomia foi a que melhor gravei; e Dr. Pinto da Luz,
do qual guardo a impressão de haver sido um homem caladão,
de longas barbas e excelente pessoa.
Quando estudante em Niterói, um dia deu-me vontade
de rever o Dr. Duque, já velhinho, que retornara à
sua cidade natal; e fui visitá-lo na chácara
em que morava, no Engenho de Dentro. Recebeu-me com a maior
alegria. De inicio, perguntou-me por todos da família
e se era mesmo o "Mindina", como eu próprio
gostava que me chamassem e ele, carinhosamente, passara a
tratar-me. Sabia lidar com crianças.
De referência ao Dr. Irerê, piauiense de nascimento,
por sua veia política, foi o que mais se afinou com
meu pai. Estão juntos em quase todas as fotografias
de reuniões ou festividades cívicas da época.
Prefeito Municipal eleito antes de 1930, afastado do cargo
pela revolução.
Como médico e amigo, mesmo depois de morto, continuou
a prestar-nos serviços, nos momentos difíceis.
Assim aconteceu por ocasião em que papai esteve gravemente
enfermo de uma doença sintomatizada por fortes dores
na região lombar. Recursos já esgotados. Dr.
Aristides Rezende, seu sobrinho, recém-formado, assumira
o lugar de médico da família, dentro da tradição
de confiança a que se refere mestre Gilberto Freyre
em sua "Sociologia da Medicina". Narro o fato, que
é verídico, sem lhe dar nenhuma conotação
religiosa, científica ou filosófica.
Papai era sonâmbulo. Uma noite, sonhando, teve longa
conversa com alguém, em voz alta e ria muito. Até
que minha mãe resolveu despertá-lo, quando ouviu
dele a revelação de que falava com o Dr. Irerê,
o qual lhe receitara um produto cujo nome ignorava: Iodo-suma.
Dia seguinte, pela manhã, Aristides veio à Fazenda
Velha para a sua visita habitual ao doente, e papai lhe participou
o ocorrido, conforme recomendação do próprio
Dr. Irerê. Aristides, com aquela humildade que lhe era
peculiar,de logo providenciou o remédio, reconhecendo-o
indicado para o caso, e, em poucos dias, papai estava curado.
Curioso notar que tal medicamento, tão desconhecido,era
fabricado próximo daqui, na mineira cidade de Muriaé.
De outra feita, mamãe doente, de novo o Dr.Irerê
se comunica com papai a fim de tranqüilizá-lo,
dizendo-lhe que o caso de "Mulatinha”(apelido pelo
qual minha mãe era mais conhecida) não deveria
ser motivo para preocupações, à falta
de qualquer gravidade. Da última vez,repete-se o fenômeno
(isto em 1968), porém a conversa-- mantida, sob certa
reserva, pelo papai--foi no sentido de preparar-lhe o espírito
para o irremediável, que seria a perda da esposa exemplar,
acometida, então, de uma doença fatal.
Como se vê, bondade na vida e na morte.
Obrigado, médicos da minha infância!
Setembro de 1987.
Pedro Borges de Rezende.*

*Dr.
Pedro Borges de Rezende é Juiz de Direito aposentado.Nasceu
e mora na Fazenda Velha.

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