H I S T Ó R I A S  E  C R Ô N I C A S
Vizinhos


Bairro é o lugar do conhecimento mútuo: cada qual é conhecido por pessoas que não são necessariamente nem parentes, nem amigos – os vizinhos.

A proximidade espacial cria um conhecimento, devido à aproximação e, quem não é conhecido, parece intruso. Na verdade, há mais do que um conhecimento mútuo: há um contexto social. Cada morador do bairro tira algum proveito dessa vizinhança e recebe pequenas gratificações dos outros: sorrisos, saudações...

Todavia, recebe também alguns aborrecimentos: vidraças quebradas, carro riscado, xixi de cachorro no pneu de seu carro, música funk bem alta pela manhã, no churrasco de domingo, quando você na verdade, queria ficar dormindo até mais tarde, etc, etc, etc...

Fato curioso sobre vizinhança ocorreu com meu cunhado, Maurílio Fonseca Castro de Rezende.

Maurílio é dessas pessoas que se não existissem, o mundo seria triste. É amigo, conselheiro e herdou do pai o jeito jocoso de ser. Em qualquer reunião sua presença é sempre motivo de alegria e sua ausência é reclamada por todos.
Em São Mateus, encontrou sua alma gêmea, Évila Daher, e da feliz união tiveram dois lindos filhos: Flávio e Danielle.

A família é toda alegria. Évila é “expert” na arte de receber, portanto são sempre agradáveis as reuniões de Maurílio e Évila. E numa dessas reuniões, uma confusão atroz ocorreu.

Tendo trocado de residência, fomos todos ao lar do casal. Apenas pretexto para outra reunião. Ficaríamos até mais tarde, pois o Botafogo disputaria a final com o Mengão. Chegamos em comboio. A vizinhança notou que algo diferente estava ocorrendo por ali, na residência dos novos vizinhos.

Como o Botafogo há muito tempo nenhum título conseguia ganhar, a expectativa dos botafoguenses era enorme. E com a maioria da família Juquita Barroso e Iná o fato não era diferente, uma vez que a “estrela solitária” jogando, fazia com que as intempéries da vida fossem deixadas de lado.
Começou o jogo. Nervosismo geral. Gol do Mengão! Os irmãos estavam tensos, ainda mais que sempre tem Flamenguista na área, o cunhado Domingos, torcedor fanático. E prosseguiu o jogo. Com o intuito de dissipar a ansiedade do esposo e dos demais torcedores, Évila servia uns deliciosos quitutes e uma cerveja geladíssima. Foguetes, foguetes, foguetes... o Mengão balançou a rede do Fogão novamente. Desânimo geral. Silêncio profundo na residência de Maurílio (coitado daquele que se atrevesse esboçar um sorriso!) O cunhado, que nessa hora já não era tão querido, havia descido para agregar-se aos manifestantes, posto que a vizinhança comemorava a vitória do Mengão. As bandeiras rubro-negras tomavam conta das janelas. Mas eis que o destino é cruel. A alegria dos flamenguistas durou pouco. Golaço do Bota. Dois a um...

O desânimo era tanto que nem houve comemoração. Mais uma cervejinha para “acalmar os nervos”. De repente, outro gol do Botafogo, e para surpresa geral, o terceiro gol foi rápido. Três a dois. O Botafogo havia virado o jogo. Era o campeão!

Maurílio com alegria incomensurável festejava e festejava!!!

A vizinhança estava muda. Ele, naquela alegria contagiante da janela gritava:
- FOOOOGOOOOOOO!!!!!!!!!! FOOOOGOOOOOO!!!!!!!!!!

Não saía mais nada a não ser FOOOOGOOO!!!! E acenava da janela para a vizinhança que agora estava calada. Continuava a gritar sem cessar:
- FOOOGOOO!!! FOOOGOOO!!! FOOOGOOO!!!! FOOOGOOO!!!

E naquela euforia geral, chegamos a pensar que os foguetes haviam atingido uma pobre senhora que era carregada apressadamente para fora do prédio. Formou-se um tumulto imenso. Gritos, muitos gritos. Resolvemos não descer para verificar o acontecido porque Maurílio e os irmãos poderiam achar que não estávamos solidários com eles. Eis que junto aos gritos e comemorações ouvimos um barulho de sirene que veio aumentando, aumentando... Eram os bombeiros. O carro de bombeiros chegou e os homens desceram apressadamente, colocando escada, mangueira, pedindo a todos que desocupassem o prédio. Incêndio!

- Incêndio?! Que pena! dizia Maurílio. Logo agora que ele queria comemorar a vitória do FOGÃO “em cima do Flamengo”. Virada histórica, dizia nosso amigo. Até que bateram à porta e apressados chegaram os bombeiros. Saiam! Saiam Todos! Onde é o fogo?
_ Fogo, moço? Que Fogo? Perguntou Maurílio
_ Não é aqui que está em chamas? Perguntou o bombeiro
_ Chamas? Fogo?
_ Recebemos um comunicado dos vizinhos que o apartamento do Sr. Está pegando fogo.
_ Ora moço, isso só pode ser vingança de flamenguista. Aqui não está pegando fogo coisa nenhuma. Eu gritei fogo, comemorando a vitória do meu Fogão!!!

E os bombeiros com cara de poucos amigos retornaram.

Alarme falso, fogo falso, vizinhos falsos, mas Fogo! Fogo! Fogo! Verdadeiro Campeão!!!

E assim, Maurílio ficou conhecidíssimo na vizinhança.

Maria Dolores Pimentel de Rezende
dolorespimentel@hotmail.com