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DOIS CAIPIRAS NA CAPITAL

   Por conta deste livro que você, amigo leitor, está lendo, a Débora e eu empreendemos uma aventura em Vitória a fim de conseguir o patrocínio.
   Fomos o motorista e eu, buscá-la , às 6h, em sua casa, num recanto bucólico. Lá estava ela: exuberante em seu vestido preto, óculos escuros e adereços extravagantes bem a gosto da saudosa D. Bendeca. Creio que ela quisesse impressionar o nosso patrocinador. Assim, partimos nós rumo à capital - entusiasmados e sem um endereço sequer.
   Mal chegamos, fomos procurar um local que encadernasse os originais do livro. A Débora - muito "conhecedora" do centro de Vitória - nos leva a um lugar que faria a encadernação, todavia eles não possuíam a guilhotina para acertar o tamanho das folhas, já que umas eram maiores que as outras. "Levem na Xerox City que fica a 200 metros daqui. É perto da Ótica do Waldir." "Tá" - respondeu a Débora com segurança. Assim que ganhamos a rua, perguntei-lhe se conhecia a Ótica do Waldir. "Não" - respondeu-me displicentemente. Você pensa que aqui é igual a Calçado, em que se pergunta onde é o bar do João Pôncio e todo mundo conhece? - disse-lhe ironicamente. "Deixa, comigo!"
   Andamos alguns metros, ela vira à esquerda. Ei, temos que andar 200 metros - falei-lhe. "Mas ela falou que seria em linha reta? - recrutou ela. Sem paciência puxei-lhe pelo braço e atravessamos a rua, andando em linha reta até completar a distância exata. "200 metros na cidade é muita coisa, Edson". Não falei nada, apenas continuei andando. De repente, ela grita: "Olha a Ótica do Waldir! Estamos perto! Viu como eu conheço Vitória?"
   Depois caminhamos em direção ao prédio da Secretaria da Fazenda. Aí, sim começou nossa saga. Débora saiu na frente, dizendo que já trabalhou no referido prédio. Na portaria, pediram-lhe documento. "Ih moço! Deixei lá no Aquashow. Eu não ando com documentos." Eu intervim: Desculpe-me, tenho os documentos e lhe peço perdão pela minha amiga, que é da roça. Entramos no elevador. "5º andar!" Como você sabe? - indaguei-lhe. " Já trabalhei aqui e este prédio só tem cinco andares." Olhei os números e consegui contar 10 andares. Chegamos ao 5º andar e na recepção falei com formalidade que gostaríamos de estar com o Dr. Jamir. Gentilmente, ela nos disse que é no 7º andar. "Ué! Tem 7º andar?" - perguntou a ex-funcionária daquele prédio. A recepcionista nos sugeriu ir pela escada.
   Supostamente conhecedora do prédio, a minha companheira desta aventura com desventura, entrou no primeiro corredor que viu e saímos no banheiro. Sem perder a classe, disse-me: "Eu queria ir ao banheiro, mas desisti." Entramos em vários corredores até acharmos a escada.
   No 7º andar, a confusão foi maior: não fomos à recepcão, passamos por muitas salas e não encontramos o nosso benfeitor. Chegamos a passar mais de um vez em algumas salas. Até que, providencialmente, encontramos o Dr. Jefferson, irmão do Dr. Jamir. "O que vocês estão fazendo aqui?" - perguntou-nos afavelmente. Com categoria, a "Sabe-Tudo" disse: "Estávamos à sua procura." Fomos bem recebidos por ele e confessei-lhe que não conseguíamos achar o seu irmão. "É aqui ao lado - informou-nos. Que alívio!
   Finalmente, de frente com o patrocinador de nosso livro. A Débora empertigou-se toda e falou: "Estamos dentro do horário marcado!" Eram 11h20min e ele havia marcado para as 9h.
   Conversa vai, conversa vem, foi abordado o assunto do prefácio que seria feito pelo magnânimo escritor Dr. João Batista Herkenhoff. "Temos que ir à casa dele, levar os originais" - disse a madame. Você sabe onde ele mora? - perguntei-lhe já adivinhando a resposta. "Não!" Você tem pelo menos o telefone dele? - insisti. "Não!" As pessoas que estavam presentes se entreolharam... Constrangido tentei cutucar-lhe a perna, debaixo da mesa, já que ela estava de frente para min. Acerto a perna de um "Bigodudo" de terno.
   Depois de tanto desencontro, estávamos dentro do carro oficial, com motorista, ar-condicionado, estofamento de couro... Olho para o banco de trás e a vejo retocar o batom, pernas cruzadas... Observa o luxo do carro e diz deslumbrada: "Só falta falar!" Antes que o motorista notasse o que a caipira-mor falara, emendei: Realmente, com antibióticos, o seu filho vai voltar a falar. Que crise feia de garganta ele teve, hein?
   Na gráfica, ela reclama a falta de café, a recepcionista, gentilmente, nos indica uma sala onde poderíamos nos servir. Débora se apossa da garrafa de café e levanta o bico da garrafa. "Edson, como eu tiro café deste 'cahimbo'?" Deixe de ser jeca - falei com autoridade. O que ela não sabia era que eu não tinha noção de como funcionava a garrafa. Tome água que está muito quente - disse na tentativa de encerrar o assunto. Sem perder a pose, ela enfiou o "cachimbo" na xícara e derramou café até o pires.
   Na Segunda vez, quando lá voltamos a fim de saber se os disquetes estavam ok, fomos informados de que o disquete da Débora não abrira, somente o meu. Ela me sai com a seguinte pérola: - "Por que o meu troço não abriu?" foi demais essa viagem...
   Dois caipiras na capital fazem uma tremenda confusão, mas conseguem se safar. O pior foi a volta, quando a Débora, cordialmente, me pergunta: "Será que eles perceberam que estávamos perdidos?"

Extraído do livro Rosa e Azul de Débora Brasil e Edson Lobo

 

 

 

 


 

 

 

 

 

 

 

 

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