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Lembranças
da Rua 15
Eu
sempre digo aos meus conhecidos (não calçadenses)
que o fato de ser filho de Calçado é mais que um
privilégio, é uma responsabilidade, das grandes.
Nós tivemos a oportunidade de receber
criação, cuja base sempre foi o "ser"
e nunca o "ter". Daí, o fato de que todo calçadense
tem essa diferença.
O calçadense é pessoa que valoriza
a família, a amizade, o amor incondicional à terrinha.
E, porque somos assim, podemos sempre repetir o que um calçadense
(desculpem-me, mas não me lembro quem) disse: Sou calçadense
e isso basta!
Eu sou nascido e criado na Rua Manoel Ferreira
Marques, n° 10, depois n° 52, mais conhecida como Rua
15 e hoje, recordando-me dos tempos de criança, lembrei-me
de um caso interessante.
Era verão, década de 70, estávamos
em merecidas férias escolares.
A molecada toda no maior agito. Piques, peladas, jogos de duplas
na porta do cinema, banho de rio no quintal do Sr. Alcênio,
no Areão da D. Eta ou na casa do Sr. Bianor, picolé
de biscoito no bar do Tiãozinho. Era uma delícia
aquele picolé!
Para segurar tanta energia da molecada, meu
pai (o querido e saudoso Companheiro Carioca) resolveu colocar
em prática um plano e realizar um antigo sonho.
Vamos construir um campo de bocha! - Disse ele.
- Mas como? - O que é bocha meu pai ?
Curiosos, indagamos meu irmão Cláudio e eu.
Atencioso como sempre, o "Seu Carioca" nos
explicou que bocha era um jogo tipicamente italiano e que os imigrantes
jogavam aqui no Brasil em terreiros de secagem de café,
sem demarcações. Que era composto de dois jogos
de 04 bolas grandes cada e uma menor, carinhosamente chamada de
"burrinho" e nos falou de suas regras, em um breve resumo.
Sem muitas exigências e com os olhos brilhantes de entusiasmo
topamos a parada.
Agora faltava arranjar uma turma para o batente,
já que o local estava definido. Seria no lugar que chamávamos
de "debaixo do assoalho de casa".
A turma? Fácil, fácil de arranjar. De
prontidão estavam: Pedrinho do Seu Pedro Glória,
Tadeu do Wantinho, Paulinho do Seu Jair Mello, Claudinho Carioca
e eu (Joel). Não bastava, pois meu pai queria muito que
tivéssemos a colaboração e uma visão
feminina para o projeto. Mais precisamente de uma princesa dos
Cachinhos de Ouro. Essa preferida dele era a nossa querida Debrinha.
E com direito à música: "Cabelo louro vai lá
em casa passear, vai, vai..." (folclore nacional).
Começamos, enfim a construção
do "Estádio". O campo era bem extenso e tinha
pouca largura.
Assim, munidos de pás, enxadas, peneiras e
outras começamos a tarefa, que na maioria das vezes era
mais engraçada do que estafante. Umas das ferramentas mais
cobiçadas era um soquete, cujo nome estranho "quinta-feira"
não entendíamos bem, porém com o passar das
horas descobriríamos. Nas vezes em que utilizávamos
o soquete, meu pai cantava:
"Moro na beira d'água, mas não
sou jacaré.
O tatu subiu no pau, é mentira da Zezé.
A Zezé 'tava doente, com uma doença
sem graça,
Mandou comprar remédio, eu errei comprei
cachaça.
Quem quiser saber meu nome, pergunta na quinta-feira,
Sou o mestre Carioca, da família dos
Teixeira."
Essa era uma maneira alegre e descontraída
que ele achara. Fazíamos rodízio para não
cansar muito e, vez ou outra, uma paradinha para tomar uma limonada,
comer um bom pedaço de broinha, bananas, laranjas. O bom
é pensar que todas essas frutas estavam ali, ao alcance
de todos, nos quintais da Rua 15.
Também era costume parar por outros motivos.
Um desses, que me recordo com grande alegria, era a maneira com
que o "Seu Jair Mello" usava para se comunicar com seus
filhos. Assim dizia, em sua difusora: "Bom dia senhoras e
senhores! Hoje sensacional baile no Montanha Clube com o Fabuloso
Cassino de Sevilla! Alô Paulinho!!! Sua mãe precisa
de fubá para o almoço. Pegue a caderneta e vá
ao Seu Adelbio buscar!! Você vai perder? Não acreditoooo!"
E dava seqüência ao texto.
Em pouco tempo conseguimos concluir os trabalhos.
Nossa obra estava perfeita. Campo de terra socada, aveludada,
dizia meu pai, por uma fina camada de areia. Bancos fixos nas
laterais. Placar e tudo mais...
A inauguração foi simples, mas
cheia de sentimento de realização, do prazer de
fazer as coisas com alegria.
Meu pai confeccionou alguns cartazes de incentivo
ao esporte, ele era fascinado pelo mundo esportivo, acreditava
que todo esporte era veículo para formação
de um bom caráter. Lembro-me bem de um que dizia "faça
esporte por esporte que o esporte te fará forte".
Treinamos bastante para não fazer feio
e jogamos muito. Com o passar do tempo o campo de bocha funcionava
todas as noites e por lá passaram muitos craques, cujos
passes hoje, se cotados, seriam verdadeiras fortunas, de causar
inveja ao fenômeno Ronaldinho.
Hoje minha casa já não existe mais, assim como muita
gente de nossa rua já se foi.
Contudo, a Rua 15 continua sendo a primeira
rua. Iluminada em meus pensamentos e cheia de recordações
agradáveis. De sua gente com cadeiras na calçada;
daqueles papos gostosos nas noites de verão; das estórias
de assombração; dos biscoitos de chuva comidos na
janela, para apreciar melhor a enxurrada; dos vizinhos sempre
atenciosos e amáveis.
Calçado era e continua assim, proporcionando-nos
momentos felizes, lembranças que não se apagam com
o tempo.
Joel Raggi
02/06/2003

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