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Cartas de piriquito

Pompano Beach, FL 27 de junho de 2003

Meu "perdoado, anônimo, leonino e apagado" amigo Caçapa:

   São precisamente 00:17 da madrugada do dia 28 de junho, mas como não dormi ainda, continua sendo dia 27 ( muito interessante isso ) , eu em mais um ato perdoativo resolvi te dar mais um perdãozinho hoje ( ou será que já é amanhã ? ).
   Mas como as coisas não andaram muito boas aí pelas bandas de Calçado, devido a entreveiros concomitantes á democracia seu perdão está mais uma vez atrasado. Como já foi tudo resolvido na paz ( e na base do Lexotan 6 mg, pena que não exista de 12) seu perdão está sendo encaminhado.
   Mas não se amofine (o que que é isso ????). Resolvi, depois de muita relutância, pedidos e a bem do serviço público adiar seu perdão do Telequeti Montilla. Essa atitude migratória de perdões se deve ao fato de não inflamar novamente os ânimos o qual estava criando até atitudes drásticas ( mas correta ) da redação do Broinha, em não aceitar mensagens anônimas. "Polcos" são os que fazem isso. Escrevi "polcos" pois o dito cujo anônimo escreveu "paucos", que pelo meu fraco português ele queria escrever "palco". Então como estamos em uma democracia, estou exercendo meus direitos. Mas vamos deixar isso de lado pois o quadrúpede pode se sentir ofendido. Para aqueles que não sabem, talvez até voçê meu perdoado amigo, fazem parte dos quadrúpedes: a mula, o burro, o jegue, o asno e até a "tolpeira".
Então vamos ao que interessa de fato: seu perdão. Hoje será aquela ruindade que você fazia quando brincavamos de Forte Apache. Voçê lembra, né? Toda vez a mesma sacanagem, o mesmo ato de autoritarismo. Eu falava para voçê: Carlinhos, que era seu apelido na época, hoje vamos brincar de Forte Apache. Aí voçê virava e falava : Tá bom Piriquito, vamos reunir a turma. A de sempre: Gilberto, Zé Antonio, Carlos, Edson, Renato, Homerinho, Bruno, Imbirézinho, Ricardo e Rogério ( filhos do Dr. Jofre), Cosminho e ia por aí afora. Um verdadeiro Exército Confederado.
   Nisso chegava a hora de escolher quem ia ser quem. Ninguém queria ser indio. O Gilberto era sempre "motorista de carroça". Já tinha sido de ambulânçia, então tinha prática. O Renato era quem tomava conta dos canhões. Fazia por mereçer pela quantidade de peidos que soltava.
Eu fazia sempre o papel ridículo do Cabo Rusty, aquele soldadinho "xexelento" com a cara sardenta. E voçê , meu amigo Caçapa, sempre queria o papel principal. Brigava, esperneava, xingava. Mas voçê conseguia. Voçê sempre era o RIN TIN TIN. Até por que na época voçê pareçia mesmo com o tal astro canino. Meio aloirado, fedorento e tinha uns piolhos. Se bem que o "Rintin" ( nome de guerra ) tinha carrapatos. Tudo igual. A única coisa diferente era que voçê era um cachorro muito desobediente, pirraçento. Era quando realmente começavam sua maldades comigo. Na hora de te treinar. Mais uma vez eu tinha que ir na venda do Tibô pegar trança de cebola para fazer rabo para o cachorro. Tinha que ir no Jair Melo pedir a coleira do Thor emprestada para colocar no seu pescoço. Que sacrificio, que maldade.
Aconteçe que eu nunca tinha te treinado antes, perdão, nunca tinha treinado um cachorro antes. Então eu pedia conselhos para meu avô Djalma:
   -Vô, cumé qui a gente treina cachorro?
   -Olha meu neto, se o bicho for bravo e desobediente só tem um remédio: tem que comer o danado na pancada. Mas não dê folga. Agiu errado, come na porrada. Nisso ele me dava um cipó caboclo dormido no azeite ( aqueles que não quebram, só envergam ) e lá ia eu, muito a contra gosto, treinar o danado do Caçapa, mais uma vez perdão, o RIN TIN TIN. Tudo, tudo de ruim sobrava para eu fazer. Tudo por sua culpa. Sempre querendo ser o artista principal. Mas o treinamento era rápido, muito rápido. Depois de umas 6 horas de cipózadas no lombo o Rintin já estava afiado. Sabia deitar, sentar, rolar e o mais importante: pegar. Era só falar "pega" e o danado do cachorro obedecia na hora.
   Então chegava a grande hora. A hora da tropa partir. Sempre saíamos do Grupo Escolar. Aquela algarraza de moleques e os latidos e grunhidos do Rintin. E lá íamos nós. Eu te puxando na frente e a soldadada atrás. Cada um rindo mais do que o outro. De vez em quando tinha que te dar mais umas cipózadas pois voçê não podia ver um poste que queria fazer xixi.
    Nisso chegava o "batedor", que era o Almir Lobo( só servia pra isso ), e falava: Olha gente, os indios estão reunidos em frente a venda do Tunico, do outro lado da rua. Nisso a coisa pegava fogo. Correria de moleques, digo soldados, pra todo lado. Ficavamos eu e o Rintin sózinhos na frente. Mas com um cachorro desses quem tinha mêdo de indio? E pela situação que estavamos vendo os indios estavam fazendo reunião de guerra.
   Era indio pra ninguém botar defeito. Tinha pele-vermelha, pele-marrom, pele-preta, pele- branca até demais. Enfim, indios de todas as tribos. Eu e o Rintin ficamos apavorados quando vimos todos aqueles chefes reunidos: Touro-Agachado ( Tunico, meu pai ), Cabrito Em Pé ( Tião Machado), Cambaxirra Saltitante ( Carioca ), Garnizé Pescoço Pelado ( Alcênio ), Urubu Depenado ( Padre Amando, que fazia parte da tribo Pele-Branca Até Demais - leiam PS no final ), Veado Desconjuntado ( não posso citar o nome pois posso ser processado ) e muitos outros. - Peraí gente, pois me deu ataque de risos, já volto............
Voltei. Nisso quando estavamos vigiando os selvagens o tal indio Cabrito Em Pé grita: Ô Piriquitinho!!!! Que afronta, que afronta. Nunca um Cabo do 7º Regimento de Cavalaria tinha sofrido tanto insulto. A guerra estava declarada. Não tinha outra alternativa a não ser mandar o cão atacar. Aí eu falava : pega Rintin, pega Rintin. E nada. Lá estava a peste do cachorro olhando pra minha cara, com dois palmos de lingua pra fora, babando e tremendo.
   E eu perguntava: que foi Rintin?
    O cachorro : Eu não posso pegar aquele indio não Piriquito, êle é meu tio.
   Eu : Olha aqui cara de pau, primeiro que cachorro não fala e segundo cachorro não tem parente. Ainda mais indio. Se não pegar agora vai entrar na porrada.Porrada. Essa era a palavra mágica. Eu odiava ter que fazer isso com voçê, mas voçê sempre me obrigava. Ia me atentando até eu perder a paciênçia. Tudo por ruindade.
   Então voçê partiu ferozmente atrás do tirador de escalpos. Latindo sem parar, rosnando como uma fera do apocalipse. Coisa de doido. Quando voçê chegou pra pegar a canela do selvagem ele deu um pulo de uns dois metros de altura e te deu um pontapé na bunda que voçê ficou descadeirado.
   - Sai pra lá cachorro do diabo. Vai morder osso lá no matadouro cachorro vagabundo, sardento, filho do Crissaff !!!! Quantos adjetivos para meu cão.
   Fora a chuva de cascudos que voçê levava dos outros indios e as porradas que voçê levava dos soldados por ter fugido sem conseguir morder a canela do indio. Mas voçê era o herói. Sempre o herói.
Então vinha voçê todo encascudado, manco, estropiado e chorando: caim, caim, caim!!!!Hoje sei por que voçê chama seu filho de Caim. Tá vendo como apesar de suas maldades eu sempre fazia o bem para voçê?    Tá vendo salafrário?
Aí acontecia sempre o previsível : lá íamos nós levar o canino escadeirado e encascudado pra fármacia do Seu Cruz. A mesma lenga-lenga de toda semana. Mas voçê sempre era o herói. Sempre o maçhão. Tudo pra me sacanear. Mas eu te perdôo.
Então meu "canino" amigo Rintin, ou melhor Caçapa, vou terminar seu perdão por aqui pois como voçê sabe não posso ocupar todo o Broinha .
   Um abraço Apache para voçê
   Do seu "confederado-yankee"amigo

Piriquito

   PS: Padre Amando, eu não poderia me furtar de dar uma futucadinha no Sr. também. Tudo com muito respeito. Quanto ao Sr. ser o indio Urubu Depenado se deve ao fato do Sr. ter usado durante quase toda sua vida a sua famosa batina preta. Não o fato de que o Sr. não tomava banho conforme as más linguas sempre falaram. Nunca acreditei nisso. Nunca. Então Padre Amando, espero que o Sr. me perdoe e não me dê uma penitência pós-mortem, pois a última que o Sr. me deu estou pagando até hoje: 859 Pai-Nosso, 562 Ave-Maria, 384 Salve-Rainha e 195 Terços completos sem pular uma pelotinha. Tudo isso só por que na hora da missa de domingo pela manhã "catei" um cigarrinho Capri do Sr. lá na sacristia. Foi só pra dar umas pitadinhas Padre Amando. O Sr. sabe disso. Ainda bem que a Dona Conceição e a Vânia do Seu Onório me ensinaram a rezar.

 

 


 

 


 

 

 

 

 

 

 

 

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