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ENTARDECER
EM SÃO JOSÉ DO CALÇADO
Recordo-me
que, no início da década de 60, tive a oportunidade
de viver um ano em são José do Calçado. Naquela
época cursava o 3º ano ginasial no famoso e bem conceituado
Ginásio de Calçado.
A cidade mantinha uma vida urbana bem
ligada às atividades rurais. Os pequenos e médios
proprietários, por sua vez, conviviam com a tranqüilidade
de montanhês, o que lhe era peculiar naquela época,
sem poluição de espécie alguma, salvo a sonora
provocada pelos bucólicos carros de boi que contrastavam
com o silêncio absoluto e a melodia gritante deste transporte
medieval.
O fato mais marcante da propagação
desse som acontecia quando a cidade fazia sua "SESTA"
cotidiana de suas tardes calorentas de verão. Os carros
desciam e subiam as ladeiras, guiados pelos carreiros armados
de suas varas-ferrão, mantendo uma postura de profissional
dedicado ao comprimento de suas tarefas, regadas com cachaça
entre uma parada e outra, para tornar menos pesada a estrada da
vida. As juntas de bois bem aparelhadas faziam uma coreografia
atendendo ao toque chocalho e obedecendo ao grito do careiro,
com se fosse um trilho de locomotiva, mantendo as rodas do destino
por ele traçado.
O som provocado pelo carvão nos
eixos parecia que chorava lágrimas de saudade de um época
que estava preste a desaparecer. Ficando a lembrança nostálgica
da melodia do entardecer, acoplada à voz da Ave Maria do
alto-falante do Jair Melo, que naquele momento de reflexão
da vida, sentíamos a presença onipotente de Deus
em nossos corações. O sol vai se pondo devagarinho,
deixando o entardecer prateado pela tímida chagada da lua.
Neste momento presenciamos, junto ao som do alto-falante, a noite
cortinando o dia uma vez mais, e nossos espíritos aos poucos
vão se adaptando à escuridão da noite, por
ter clara certeza de que a luz divina sempre iluminará
a escuridão das trevas de nossa eternidade.
O som do carro de boi naquela hora pertence
ao passado, entretanto a Ave Maria continuará conosco através
do futuro, nos dando a sensação de bem estar por
mais um dia vivido nesta saudosa cidade.
Ave
Maria Cheia de Graça...
Vitória,
14 de maio de 1955
Raulino Pereira.

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