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MARY, MINHA QUERIDA MARY!

    Foi há muitos anos. Parece-me que, talvez, há um ou dois anos antes da inauguração do cinema. Refiro-me ao nosso querido Cine Teatro São José, inaugurado no dia 7 de setembro de 1949.
   Nessa época, eu ainda morava na Fazenda Velha. A notícia se espalhou e correu esperta, deixando muita gente alvoroçada: estava chegando um circo na cidade, e a estréia ia ser no próximo sábado.
Pelas minhas contas, na minha memória, foi o primeiro circo que passou por Calçado.
   Na verdade, eu ainda não conhecia um circo direito. Tinha então uma lembrança, mais ou menos vaga, de um grande espetáculo que assistira numa Festa de Agosto, em Bom Jesus. O Circo dos Irmãos Temperanos: enorme, com globo da morte, muitos trapezistas, e com emocionante espetáculo de domadores de leões e tigres. Foi nesta ocasião que vi pela primeira vez os terríveis animais que comiam gente (leões, leopardos, ursos, onças) e outros bichos extravagantes (hienas, girafas, elefantes, zebras, macacos). O Circo dos Irmãos Temperanos possuía um verdadeiro zoológico ambulante, disso me lembro.
   Devemos recordar que, nesse tempo, o Rio de Janeiro era um local muito distante, quase inacessível para a maioria das pessoas de Calçado. As notícias do mundo nos chegavam através de duas fontes principais, do jornal dos Diários Associados, "O Jornal", com dois dias de atraso e pelo Reporter-Esso, da Rádio Nacional, apresentado por Heron Domingues, uma voz super familiar, que era anunciada por um acorde característico, que soava como um alerta.
   Se não me engano, o "Reporter-Esso" era às oito e meia, logo após a Novela da Rádio Nacional (que sucesso as irmãs Amélia e Izis de Oliveira, o Paulo Gracindo, o Mário Lago, os irmãos Roberto e Floriano Faissol, Domício Costa, Daisy Lúcidi e muitos outros talentos!).
Uma viagem ao Rio, para conhecer as maravilhas da civilização, era quase um sonho. Sabíamos de bondes elétricos, de grandes edifícios, muito movimento, e também dos ladrões, batedores de carteiras.
   Tal viagem, em geral, transformava-se numa grande aventura, com muitas coisas para contar. Tomava-se o ônibus para Bom Jesus, pela estrada antiga. Uma boa hora e meia de voltas e curvas, descendo a Volta Fria, serpenteando o morro, e dormindo em Bom Jesus, para pegar o trem cedinho, até Itabapoana.
   Este trem, de propriedade particular, pertencia a um homem muito rico, chamado João Soares. Sua saída e chegada a Bom Jesus do Norte era uma atração para a criançada. A locomotiva enorme, soltando fumaça, apitando, sacolejando e fazendo toda sorte de barulho, com aqueles grandes braços mecânicos em vai e vem, parecia uma caranguejeira de ferro, gigante, um monstro estranho.
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