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MARY, MINHA QUERIDA MARY! - parte 2

    Em Itabapoana, quando não havia atraso, mais ou menos às oito horas da manhã, pegava-se o Expresso, que vinha de Cachoeiro, também cuspindo fumaça, e viajava o dia inteiro, chegando ao Rio lá pelas onze da noite, quando não, madrugada adentro.
   Mas, voltemos ao nosso circo, ou seja, ao Circo Teatro Cacique, que chegara a Calçado naqueles dias.
   Fiquei sabendo que não tinha nem globo da morte, nem animais ferozes. A princípio, me decepcionei. Entretanto, soube também que as pessoas estavam gostando, que a estréia fora um sucesso.
  Devo ter ido no sábado seguinte, ou no domingo talvez. Notável aquele palhaço andando pela rua, à tarde, equilibrando-se em suas compridas pernas de pau, seguido pelos moleques, gritando:

   Hoje tem espetáculo?
   Tem sim sinhô!
   É na rua do buraco?
   É sim sinhô!
   O palhaço o que é?
   É ladrão de mulher!
   . . . . . . . . . .

   O circo instalara-se atrás do Grupo Escolar, onde fora o antigo cemitério. O espetáculo era constituído de duas partes, com um intervalo no meio. A primeira, acontecia no picadeiro, consistindo de números variados. A segunda, no palco, quando as luzes se acendiam, e era apresentado um número de teatro; um drama, ou uma comédia, ou às vezes um "show" musical.
   O "show" era conduzido por uma dupla notável, o Cheiro, um rapaz bem falante, com boa aparência, e pelo Cheiroso, seu irmão mais velho, um palhaço engraçado, contador de piadas finas e muito inspirado.
   Aquele foi um dia de felicidade. O circo abarrotado de gente. A música alegre, tocada ao vivo por uma banda local, intercalada com música de disco, através do sistema de alto-falantes. Os garotos percorriam as arquibancadas, vendendo pirulito e pipoca. As cadeiras e camarotes, também quase lotados. Nestes, alguns lugares importantes eram reservados para as autoridades e seus familiares: o Prefeito, o Juiz, o Promotor, o Delegado e, imiscuindo entre eles, o Escrivão de Polícia.
   A primeira parte foi uma beleza. Inicialmente, alguns atletas apresentaram números de ginástica, saltos mortais espetaculares. Ninguém em Calçado era capaz de realizar tais proezas. Depois um homem muito forte fez demonstrações de força, e entre outras coisas, equilibrou uma grande escada, no queixo, com uma menina subindo. Outros números: equilibristas, cachorrinhos, trapézio. Fim da primeira parte. Intervalo.
   Inicia a segunda parte. Acendem-se as luzes do palco e aparecem Cheiro e Cheiroso. Fazem as apresentações iniciais, algumas brincadeiras, e pedem o aplauso da platéia, para alegrar o espetáculo. Em seguida, Cheiro, como mestre de cerimônias, anuncia:
"Meus senhores e minhas senhoras, distinto público, agora, palmas para a nossa grande atração desta noite, nossa dançarina principal e cantora, MARY!"
   E aparece a Mary. Vestida de havaiana, com uma tanga de fiapos, colar de flores no pescoço, coxas grossas à mostra, torneadas por exímio artesão, cabelos negros compridos até ao meio das costas, descalça, o rosto lindo. Um encanto, a mulher mais linda que eu jamais vira até então. Começou a dançar, e, com sua voz meio rouca, a cantar:

   Um di-i-á, uma vez lá em Cuba,
   dançando uma rum-um-ba,
   disseram que eu e-era,
   escandalo-ó-sa!
   Dancei-ei,
   e  não me incomodei,
   e a rumba por si,
   malicio-ó-sa!


   O aplauso foi geral, um estrondo, verdadeiro delírio do público, principalmente do público masculino.
Eu, de minha parte, caí de joelhos, apaixonado. Durante dias, ou mesmo meses, pensava e falava na Mary, na minha querida Mary. Ela devia estar com dezoito ou dezenove anos, pelo menos mais dez do que eu. Que pena!
   Soube depois que toda a rapaziada da cidade andava alvoroçada, caída por ela, tentando, pelo menos, um olhar da garota do circo. Ouvi ainda que ela correspondeu, timidamente, ao assédio de um deles, do Ábido Féres, do Bido da tia Marocas.
   Que inveja! O Bido era um sujeito de sorte, pensei.

H. Teixeira de Siqueira


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