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O Zico Soldado


   Há pessoas que passam pela nossa vida e só nos deixam boas lembranças. Particularmente fico feliz quando, dando uma repassada nos meus dias, analisando, rememorando aqueles com quem convivi, me deparo com esse tipo de gente. Gente que me deixou saudade. Amigos em quem pude confiar, com quem pude me abrir, com quem sempre contei, devi favores, que estavam sempre disponíveis para um desabafo, ajudar numa hora de maior pressão, uma palavrinha amiga, um aperto de mão, uma sensação de paz, passando a idéia de que a vida não era assim tão trágica e dura como as vezes parecia ser. São pessoas sensíveis que certamente têm uma melhor compreensão da natureza e das necessidades humanas, das agruras do cotidiano. E estão sempre dispostas a ajudar, a cooperar, a fazer com que os fardos nos pareçam mais leves.

   Pois, não sei por que, mas é assim que penso do Zico Soldado. Infelizmente não o conheci em pessoa, só de ouvir falar. Todavia, nos casos que escuto, ou já escutei, numa referência aqui e noutra ali, ele sempre me aparece como alguém que quer ajudar, um quebra galho amigo.

   O Zico era escuro, quase preto, filho de uma antiga lavadeira e parteira que morava na Rua 15, numa casinha de "taipá", dona Viturina se não me engano, que ajudou a trazer muitos calçadenses à vida, naqueles velhos tempos de outras gerações. Ele foi soldado em Calçado por vários anos, uma espécie de soldado eterno, de quem todos se lembravam e gostavam. Viveu e agiu ali pelos anos trinta e quarenta. Era um profissional dedicado, de boa índole, ajudante eficiente do delegado, ajudava a resolver os problemas, que prendia um arruaceiro aqui, outro perturbador ali, um bêbado acolá, sempre jeitoso, tentando contornar as coisas da melhor maneira possível, cumprindo as ordens com habilidade e jeito.

   Lembro de dois casos do Zico que ilustram bem quem ele era. Um me foi contado pelo Sr. Pedro Marques, irmão do Santinho Ferreira.

   Seu Pedro me contou essa estória mais de uma vez, bem humorado, contava e morria de rir. Início de vida, ele, seu Pedro, estava passando por uma situação difícil, tinha casado sem poder, sem condições financeiras, e morava de favor na casa do sogro. Sem dinheiro, numa pindaíba daquelas, desempregado, vivia de bicos, trabalhou então até como bicheiro, aliás, auxiliar de bicheiro. Um dono de banca de Bom Jesus que lhe ofereceu a oportunidade de vender uma "fezinha" em Calçado, e ele aceitou. Contravenção sabia, mas o que fazer?

   Pois um dia o Zico Soldado passou por ele numa esquina e chamou-o a um canto para uma conversa: "Seu Pedro, não me leve a mal não, mas queria pedir uma coisa pro senhor, queria que o senhor fugisse de Calçado, o mais rápido possível, recebi ordem do delegado para prende-lo, por causa do jogo do bicho", e encerrou a conversa recomendando sigilo. Seu Pedro contava, recordava desse caso, feliz morria de rir. E eu também ria.

   A outra estória que tem o Zico como personagem me foi contada por dona Bisica, viúva do Théo.

   O Théo fazia parte do grupo dos integralistas de Calçado. Gente jovem, cheia de sonhos, idealistas, que se reuniam com freqüência para discutir os problemas do Brasil, salvar a pátria, acabar com o poder dos coronéis, eliminar os privilégios, extinguir o nepotismo, prender os corruptos, trazer riquezas, acabar com a pobreza, tolerância zero, etc., todo esse lengalenga, esse blablablá dos bem intencionados, que estamos acostumados a ouvir sempre.

   O Movimento Integralista surgiu na década de trinta para combater o comunismo, mas pelo jeito, parece que não passava de uma versão tupiniquim do que ocorria na Europa. Lá foram o Nazismo e o Fascismo, aqui o Integralismo. Idéias semelhantes, os mesmos princípios, pregavam a ordem, a moral, a ética, o patriotismo, o nacionalismo, etc.. Enquanto que os nazistas usavam camisas cáquis, aqui os integralistas usavam do mesmo modelo só que verdes. Se não me engano, eles tinham também uma saudação própria, semelhante à dos nazistas, que quando se encontravam, ficavam em posição de sentido, estendiam o braço e proferiam aos gritos qualquer coisa.

   Não sei se sinceramente, ou talvez apenas como técnica de marketing, a propaganda integralista se utilizava de slogans e lemas, com palavras fortes que eram muito significativas e atraentes para nós brasileiros, principalmente para a juventude: Deus, Pátria, Família, Religião, Tradição, Propriedade, etc.. O líder maior desse movimento foi um político muito ligado à igreja católica, de nome Plínio Salgado.

   Getúlio Vargas, governante da época, político sagaz e ardiloso, agiu em relação aos integralistas com aquela mesma esperteza e ambigüidade que lhe eram peculiares. No princípio apoiou o movimento, deixou que ele se desenvolvesse e espalhasse pelo país. Lembro de ter visto uma foto do famoso desfile que os integralistas fizeram no Rio de Janeiro, com o Plínio Salgado à frente, a cavalo, e atrás aquela multidão de camisas verdes, em filas, como nos desfiles militares.

   Quando a situação mudou lá na Europa, com a previsível derrota dos nazistas, aqui também Getúlio mudou de lado e começou a perseguir os integralistas, levantando suspeições e fazendo-lhes acusações diversas. Muitos tiveram suas casas vasculhadas e foram presos, ficaram em situação difícil. E essa repressão, iniciada lá na capital, também se propagaria até aqui pela nossa terrinha, muito mais amainada, é claro. Mas autoridade é autoridade em qualquer lugar e tem que mostrar serviço, tem que exibir poder.

   O Théo, como os demais companheiros, teve que tomar certos cuidados. O primeiro deles foi esconder um fuzil, um rifle, que mantinha em casa, ou será que foi uma escopeta, ou uma espingarda de caçar ou de matar passarinho? Não me lembro e não interessa, era uma arma de fogo.

   Não deu noutra, dias depois o Zico Soldado apareceu lá no sítio, propriedade onde morava o Théo, meio sem jeito, desconfiado, com visível mal estar. Começou a conversa dizendo para o Théo que recebera ordem do delegado para revistar a casa, pois ficaram sabendo que ele tinha uma arma de fogo. O Théo, já preparado, logo se prontificou e facilitou as coisas "pois não Zico, tudo bem, pode entrar e olhar tudo". O soldado entrou e deu uma olhada, cômodo por cômodo, olhou dentro dos armários, debaixo das camas, atrás das portas, no sótão, etc..Não achou nada.

   No final, missão cumprida, já aliviado, ia se despedindo quando o Théo o reteve, "Oi Zico, espere mais um pouco, a comida está na mesa, vamos pegar uma bóia com a gente". O Zico aceitou de bom grado e eles almoçaram, conversaram, se confraternizaram, riram bastante, estavam à vontade.

   E a arma, onde estava?

   Estava debaixo da mesa, o Théo tinha feito um arranjo de carpinteiro e prendera-a sob o tampo. Não dava para ver, mas uma cruzada de pernas, uma mexida de joelhos mais fortes poderiam perfeitamente denuncia-la. Se o Zico percebeu, se tocou nela, ninguém ficou sabendo, pois ele se despediu e foi embora muito feliz.

   Zico Soldado, um companheiro de fé! Uma pena não ter convivido com ele.


João Hertesi
Vila Velha, junho de 2003.

 

 


 

 

 

 

 

 

 

 

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