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O
último carro de boi da Vila do Calçado- Parte 1

Zé
Bicuíba, um pequeno sitiante da Serra do Jaspe, tinha toda
a madeira de que precisava para construir seu primeiro carro de
boi. Há mais de 10 anos juntava debaixo do assoalho de
seu rancho, os troncos de madeira, as ferragens e os outros acessórios
necessários para a grande realização de sua
vida. Aprendera muito com seu velho pai na arte de carrear, mas
sempre em carros dos outros ou caindo aos pedaços. Mas
dessa vez seria diferente.
Descendente
de tradicionais carreiros, vindos de Minas Gerais nos anos da
colonização, sabia que tinha chegado a hora de construir
o seu próprio carro. Queria, ele mesmo, ter o prazer de
transportar a colheita do café daquele ano, que já
estava espalhado no terreiro. Agora, era só contratar um
mestre-carapina e realizar o velho sonho. E assim fez, sem perda
de tempo e na maior expectativa.
Separara
dois troncos de roxinho para os eixos. Um para o uso e outro para
ficar de reserva, peças que eram muito trabalhosas e que
mais se desgastavam no uso diário do carro. Com a sensibilidade
de um afiador de violino, cortara esses troncos da ponta da tora
derrubada. Conhecedor do assunto, não gostava do som grave
produzido pelos eixos talhados com o pé da madeira. Os
da ponta, estes sim, besuntados com querosene, produziam sons
de clarins. E este era o som que sonhara para o seu primeiro carro
de boi.
Outros
dois troncos dessa mesma tara, separou para as chedas laterais
do carro e para o cabeçalho, peças do assoalho,
que queria bem resistentes. Para o arcavém, aquele pranchão
traseiro, separara um tronco de ipê. De dois troncos de
cabiúna sairiamas duas rodas. Bons tempos - lembrou ele
- em que se encontravam árvores tão grossas que
quase davam para lavrar uma roda inteira. Aí ele exagerou
um pouco no sonho e na nostalgia.
Por
fim, das lascas de bico-de-pato, lei nova e jatobá, seriam
construídas as cangas para as cinco parelhas de bois que
já estavam no pasto. Um compadre seu, velho carreira aposentado,
já os vinha treinando enquanto seu carro não ficava
pronto. Com a paciência de profissional que sabe lidar com
animais, treinara parelha por parelha em pequenos trabalhos domésticos.
A do coice ou do cabeçalho, a do contra-coice, a do meio,
a da contra-guia e a da guia. Dava até para vê-las
enfileirados e obedientes às suas ordens, levando seu carro
de boi pela estrada afora.
Com
a chegada do mestre-carapina, seu sonho foi tomando corpo a cada
peça terminada. Não ia dormir sem antes dar uma
passadinha no paiol do terreiro, onde as guardava com todo cuidado.
Sonhava todas as noites com o dia da estréia, em que desfilaria
pelas ruas da Vila do Calçado. Ele e o filho caçula,
xodó maior de sua vida, que já preparara a vara
de guiada para assumir o posto de candieiro, o guia que vai na
frente do carro.
O
couro curtido e cortado com precisão, já estava
trançado e espicha do entre as travas do paiol. A esteira
de taquara, trançada em duas cores, descansava na parede,
pronta para abraçar os fueiros das duas chedas. Tinham
sido cortadas no mato e trançadas por um balaieiro do Jacá,
que conhecia a lua certa de cortar a madeira e o ponto exato de
se trançar a taquara. O café, toda a sua riqueza
e o sustento da família, já estaria seco e ensacado
no paiol, pronto para começar a ser levado para o armazém
da vila.
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