MENU





Sua mensagem


Caso a página não esteja sendo exibida corretamente
instale o plugin  do  flash  no seu computador entrando
no link acima.

Melhor visualizado em resolução 800x600 ou 1024x768


O último carro de boi da Vila do Calçado- Parte 1

 

   Zé Bicuíba, um pequeno sitiante da Serra do Jaspe, tinha toda a madeira de que precisava para construir seu primeiro carro de boi. Há mais de 10 anos juntava debaixo do assoalho de seu rancho, os troncos de madeira, as ferragens e os outros acessórios necessários para a grande realização de sua vida. Aprendera muito com seu velho pai na arte de carrear, mas sempre em carros dos outros ou caindo aos pedaços. Mas dessa vez seria diferente.

   Descendente de tradicionais carreiros, vindos de Minas Gerais nos anos da colonização, sabia que tinha chegado a hora de construir o seu próprio carro. Queria, ele mesmo, ter o prazer de transportar a colheita do café daquele ano, que já estava espalhado no terreiro. Agora, era só contratar um mestre-carapina e realizar o velho sonho. E assim fez, sem perda de tempo e na maior expectativa.

   Separara dois troncos de roxinho para os eixos. Um para o uso e outro para ficar de reserva, peças que eram muito trabalhosas e que mais se desgastavam no uso diário do carro. Com a sensibilidade de um afiador de violino, cortara esses troncos da ponta da tora derrubada. Conhecedor do assunto, não gostava do som grave produzido pelos eixos talhados com o pé da madeira. Os da ponta, estes sim, besuntados com querosene, produziam sons de clarins. E este era o som que sonhara para o seu primeiro carro de boi.

   Outros dois troncos dessa mesma tara, separou para as chedas laterais do carro e para o cabeçalho, peças do assoalho, que queria bem resistentes. Para o arcavém, aquele pranchão traseiro, separara um tronco de ipê. De dois troncos de cabiúna sairiamas duas rodas. Bons tempos - lembrou ele - em que se encontravam árvores tão grossas que quase davam para lavrar uma roda inteira. Aí ele exagerou um pouco no sonho e na nostalgia.

   Por fim, das lascas de bico-de-pato, lei nova e jatobá, seriam construídas as cangas para as cinco parelhas de bois que já estavam no pasto. Um compadre seu, velho carreira aposentado, já os vinha treinando enquanto seu carro não ficava pronto. Com a paciência de profissional que sabe lidar com animais, treinara parelha por parelha em pequenos trabalhos domésticos. A do coice ou do cabeçalho, a do contra-coice, a do meio, a da contra-guia e a da guia. Dava até para vê-las enfileirados e obedientes às suas ordens, levando seu carro de boi pela estrada afora.

   Com a chegada do mestre-carapina, seu sonho foi tomando corpo a cada peça terminada. Não ia dormir sem antes dar uma passadinha no paiol do terreiro, onde as guardava com todo cuidado. Sonhava todas as noites com o dia da estréia, em que desfilaria pelas ruas da Vila do Calçado. Ele e o filho caçula, xodó maior de sua vida, que já preparara a vara de guiada para assumir o posto de candieiro, o guia que vai na frente do carro.

   O couro curtido e cortado com precisão, já estava trançado e espicha do entre as travas do paiol. A esteira de taquara, trançada em duas cores, descansava na parede, pronta para abraçar os fueiros das duas chedas. Tinham sido cortadas no mato e trançadas por um balaieiro do Jacá, que conhecia a lua certa de cortar a madeira e o ponto exato de se trançar a taquara. O café, toda a sua riqueza e o sustento da família, já estaria seco e ensacado no paiol, pronto para começar a ser levado para o armazém da vila.


[próxima página>>]

 

 


 

 

 

 

 

 

O broinha - www.broinha.com.br - todos os direitos reservados