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O
último carro de boi da Vila do Calçado- Parte 2

E
naquela sexta-feira o carro ficou pronto. Como ele sonhara: o
mais bonito e mais forte de todos que conhecera. Tinha de mostrá-Io
ao pessoal da vila, para que também o admirasse. E assim
fez. No sábado de madrugada, com a ajuda do amigo carreiro,
trouxe os bois do pasto e atrelou-os nas cangas. Depois carregou
o carro com as sacas de café que pretendia vender e pagar
o trabalho do mestre-carapina, o autor da obra de arte.
Pai
e filho vestiram a melhor roupa, a das missas de domingo na capela
do Padre lnácio. Despediu-se da mulher e dos filhos maiores
que já se preparavam para sair para o campo. Depois besuntou
com querosene os eixos do carro de boi. Queria acordar a vila
com seu som estridente e que todos vissem a sua chegada. Aquela
não seria apenas uma viagem de trabalho, mas um desfile
de levar multidões às janelas e de parar todo o
comércio. Quase uma alvorada do Maestro Elpídio
de Sá Vianna, nas festas de São José.
Quando
Zé Bicuíba pôs o carro na estrada, o sol ainda
se espreguiçava por detrás dos Pontões. Seu
coração quase arrebentou de alegria ao ouvir os
primeiros acordes da gemedeira do eixo de roxinho, sob o peso
das sacas de café. Levantando poeira na estradinha de chão,
ia acordando os galos preguiçosos, os cachorros vigilantes
e a passarinhada das capoeiras. Todo o vale, entre as serras do
Jaspe e dos Pirineus, acordou com seu lamento cadenciado e os
aboios do carreiro, que não cabia em si de tanta alegria.
Durante
todo o percurso a caminho da vila, nada ficava indiferente à
passagem daquele carro de boi, brilhando de novo e barulhento.
Na frente, como baliza de desfile escolar, ia seu filho, orgulhoso
e competente aprendiz de candieiro, estreando sua vara de guiada.
Pai e filho unidos na mesma emoção.
De
longe se ouvia o gemido do eixo e a solenidade da voz daquele
matuto de alma lavada e o coração em chamas. E os
sons se misturavam numa sinfonia que só a natureza sabe
reger. Eia boi pintado, ôôôôa! .,. Aquieta
Mimoso, ôôôôa! ... Afasta maiaaaaado!
... Eiiiiiia!
Era
Zé Bicuíba estrada afora, no ziguezague da vida
e na alegria que Deus lhe dera. Na entrada da vila, onde começava
o calçamento de paralelepípedos, teve a primeira
decepção: dois fiscais da prefeitura vieram avisar
que ele não podia entrar na cidade com o carro de boi,
por aquela rua. Teria de usar uma estrada de chão, que
servia de atalho, para chegar ao outro extremo da vila, onde ficavam
os armazéns.
Pelo
"perímetro urbano", disseram eles com autoridade,
estava proibido o trânsito daquele tipo de transporte. Assim
rezava a lei aprovada pela câmara dos vereadores e sancionada
pelo "doutor prefeito", tratou de dizer um dos fiscais
com arrogância. Os paralelepípedos eram para carros
com rodas de pneus, e o barulho dos carros de bois perturbava
a população e a ordem pública, acrescentou
o outro fiscal com mais imponência ainda.
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