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O CONTO, DAS CONTAS.

 

   Outro dia, entrei no site do broinha a pedido de um amigo.
   Li várias mensagens dos conterrâneos, inclusive do meu grande amigo Gilberto (o Juquita), pedindo para que eu reagisse às fábulas escritas no broinha, pelo meu grande amigo Periquito (Djalma).
   Todos sabem que eu jamais me vingo, apenas narro os fatos, procurando sempre falar a verdade.
   Contarei aqui a verdade, nada mais do que a verdade, como fazem os americanos: Jura, com a mão sobre a Bíblia.
   Todos sabem da minha amizade com o Periquito, que vem nos acompanhando desde 1964, pois, ele sempre me considerou como um grande irmão.
   E desde que ele foi para o exílio nos "Steites" (com incentivo meu), todos os sábados ele me liga, bêbado, chorando, lembrando do passado e com muita saudade da nossa querida Broinha.
   Outro dia, ele me lembrou das nossas caçadas de passarinho, com aquela espingarda de chumbinho. Lembrou-me também quando matei o meu primeiro pássaro, uma pomba, na ladeira do Salim (munheca), do que me arrependo até hoje.
   Bem, todos os nossos colegas de infância, sabem o que o Periquito fazia em Calçado.
   Podemos citar aqui, alguns amigos como o Bastião (do Helio Rezende), Ti Pingo, Faísca, Jiló, Cabiúna, Ailson, Jefinho, Juninho, Gilberto, (desculpem-me os outros amigos que não lembrei os nomes), todos eles sabem das peripécias, que meu grande amigo aprontava, em suas vindas em férias, na querida Terra Natal.
   O meu amigo Periquito, em Calçado sempre foi uma pessoa muito importante, pois, em tudo que era comércio e bar da cidade, ele tinha uma conta (fiado).
   Posso citar alguns locais: primeiro no Botequim do Crissaff, e aí, ia: Bar do Tiãozinho (pai do faísca), João Ponso, Cariocas Bar, Barraca do Laurinho (na festa), no bar do Cabiúna (antiga venda do Joaquim), Jorge Barelli, Nazareno (antiga rodoviária), Montanha Clube, Campestre (no Macuco), Divinéia (Baiano e Marlene), bar do Bezerra e outros que me fogem da memória.
   Nos comércios (considerando produtos sólidos), podemos citar: padaria da Tia Dulce, Armazém do Cachola, Posto de gasolina (Rezende), antiga venda do João Pimentel, venda do Geraldo Ribeiro, açougue do Zé Melio e Tãozinho, farmácia do Paulo Medina (para cuidar da ressaca), uma venda que tinha no Goiabal (não me lembro bem o nome do dono; que quando íamos caçar passarinho, na volta comíamos pão com salame e refrigerante), pouca dívida na loja do Zé Dávila (mas tinha), etc... ôpa, estou esquecendo do fiado que também tinha, na Joana, que morava na rua do campo do Americano, subindo para o Buraco Quente.
   E assim, meu grande amigo ia fazendo suas travessuras (fiados), em tudo que era comércio.
   Lembro que sentávamos todos os amigos na mesa do bar, ouvindo as piadas do Jiló e depois de muitas cervejas, pedíamos a conta e ele tomando a frente dizia:
   - Deixa comigo, Tiãozinho, põe na conta.
   - Crissaff, põe na conta.
   - Jorge Barelli, põe na conta.
   - Cabiúna, põe na conta.
   ............ Nos outros também.
   E assim, ele ia fazendo as farras, em tudo que era comércio e bares acima citado, falando sempre no final a palavra chave:
   "- Põe na conta".
   Acabava as férias de janeiro e fevereiro, ele ia embora, com previsão de retorno em julho.
   E quando voltava, tínhamos que cumprir um verdadeiro ritual, ou seja, ir com ele, de bar em bar, comércio em comércio, para pagar suas contas, das férias passadas.
   Chegava na minha casa, me chamava; e com ele era muito criativo, jogava uma moeda para cima e dizia:
   - Caçapa, cara ou coroa.
   Se desse cara, as contas eram pagas, da entrada de Calçado, vindo de Bom Jesus. Se desse coroa, as contas eram pagas ao inverso, ou seja, da entrada de Calçado, vindo de Guaçui.
   E assim fazíamos.
   Começávamos a pagar as contas pelo Posto Rezende, bar do Bezerra, Divinéia, venda do João Pimentel, Geraldo Ribeiro, bar do Nazareno, bar do Jorge Barelli, quando acaba o dinheiro.
   A maiorias das contas eram pagas pela metade, ou seja, se devia 200, pagava-se 100, restava 100 e consumia mais 200, quando ia embora o debito ficava em 300, e este só era pago, quando entrava de novo na rota.
   E assim íamos pagando todas as contas pela metade, de bar em bar, armazém em armazém e por minha infelicidade, o botequim do Crissaff que ficava no meio do caminho, justamente no penúltimo comércio, o dinheiro acabava e o fiado ficava para ser pago, sempre na próxima.    Bem, assim, o Periquito pagava rigorosamente, todas as contas pela metade, isto é, até quando o dinheiro dava.
   Resumindo, tinha conta que ficava quase dois, três anos sem ser paga, nem pela metade.
   Os outros fiados ficava sempre para serem pagos nas próximas férias, que fazíamos o inverso na hora de pagar. Começávamos a pagar, do Bar do Carioca, venda do Zé Davila, João Ponso, bar do Tiãozinho, Padaria da Tia Dulce, armazém do Cachola, pronto, aí acaba de novo o dinheiro, ficando sempre de fora o botequim do Crissaff.
   Nas épocas de aula, quando meu amigo não aparecia, os donos dos bares e comércios, sempre me perguntavam, se por acaso o Periquito, iria aparecer em algum feriado, principalmente nos feriados longos.
   Eu respondia, como aquele que protege o seu irmão:
   - Sim, ele virá, e com certeza passaremos por aqui.
   Outros perguntavam:
   - Carlinhos, e o Periquito, quando é que ele volta?
   Meio contrafeito, respondia:
   - Nas próximas férias, com certeza ele voltará.
   Às vezes ele sumia, pulava umas férias sem aparecer, e quando aparecia, era num final de semana, muito rápido.
   Quando realmente voltava, para ficar mais de um mês de férias, ele já não lembrava, aonde tinha sido pago a última conta e sempre me perguntava, em qual local tinha sido pago a ultima conta. Eu respondia:
   - No botequim do Crissaff, com certeza não foi.
   Então ele pegava a moeda, jogava para cima e dizia:
   - Cara ou coroa?.
   Eu, com minha fé torcia que nem o meu pai torcia pelo flamengo, para que a moeda caísse em pé, coisa que nunca aconteceu, pois, se parasse em pé, com certeza, a primeira conta a ser paga, seria a do botequim do Crissaff.
   Assim, o meu querido amigo Periquito (grande consumidor), fazia suas peripécias na Broinha, até que na última vez que apareceu, foi com aquela Blazer (a álcool), tendo na calota pintado um cavalinho (coisa ridícula).
   Lembro que foi com ela, que fomos pela última na festa em Bom Jesus.
Eu, cabiúna, Nestinho (primo dele), Ti Pingo, Jiló, Bastião do Helio e Ailson, isto sempre após concentração nos bares, que no final da conta, ele tomava a frente e dizia:
   - Põe na minha conta.
   Mas isto, lembrando bem, só depois que a gente tomava bastante cerveja, nos bares acima citados, e ele sempre tomando a frente no final das contas, falando aquela mágica palavra.
   "- Põe na conta".
   Bem, num tempo atrás, não muito tempo, antes do nascimento do Broinha, estávamos tomando cerveja no bar do Bezerra, quando o Fabinho e o Bezerra perguntaram, se eu tinha notícias do Periquito.
   Respondi que ele estava no exílio, nos Steites, e que sempre estávamos mantendo contato por telefone e que um dia com certeza ele voltara.
   Então o Fabinho, brincalhão falou:
   - É bom mesmo que ele volte, pois, eu tenho que perdoá-lo.
   O Bezerra, com raiva, muito ignorante puxou uma cadeira lá do canto do bar e falou:
   - Comigo, sem perdão, quero receber tudo em dólar.
   Aí outras amigos começaram fazer várias perguntas sobre o meu amigo Periquito.
   O que ele fazia, no exílio? Se a família estava com ele? Se estava bem? Se estava gostando? Etc... etc ... etc... e muitas perguntas.
   Gozado que, a perguntava que mais se fazia, era se ele estava ganhando muito dinheiro.
   Bem, mudei de conversa, pois são coisas particulares. Falei que ele estava enfrentando uma nova vida, trabalhando (coisa que ele nunca fez), num país completamente diferente do nosso, país do primeiro mundo, e que a cidade onde ele mora, não tem nenhuma semelhança com Calçado, pois lá, ele nunca falou as palavras mágicas.
   "- Põe na conta".
   Veja que mundo cruel, ele no exílio, me liga toda a semana, bêbado, chorando, dizendo que um dia voltará, para que seja perdoado por todos.
   Chora tanto. Fala que o Brasil é o verdadeiro lugar para se morar, diz que aqui é o verdadeiro paraíso. E que Calçado é o melhor lugar do mundo, cidade das mil e uma contas.
   Eu, em nome do pai, e pela maldita moeda que nunca parou em pé, sempre digo que ele está perdoado.
   Outro dia encontrei com o Nem do João Pimentel, ele me falou, que passou um e-mail dizendo que por parte dele também estava perdoado.
   - Eu sei que você, meu amigo, terá muito sucesso no exílio, consertando aquelas maquininhas de refrigerante.
   - E mais, você sabe, que todos nos estamos torcendo muito por você, assim como os brasileiros torcem pela seleção em jogo de copa de mundo, ou seja, para que você consiga o "green card", e volte o mais breve possível, para nossa broinha.
   Outro dia estávamos eu, Cacau, Ailson, Carlinho (do Geraldo Ribeiro) no Bar Bambuzal do Ribeirinho e Macuco, jogando sinuca. O Ribeirinho falou que o Periquito tinha ligado, conversaram bastante e depois num suspiro falou:
   - Ufa, ainda bem, que ele não conheceu o Bar Bambuzal.
   Meu amigo você não sabe como a nossa broinha cresceu, após a sua ida para o exílio. Nossa terra natal desenvolveu, tornou-se famosa e conhecida no mundo inteiro, principalmente na internet.
   Ficamos muito importantes. Neste ultimo carnaval, antes da Beija-flor entrar na passarela (na concentração), apareceu na TV Globo, uma baita de uma faixa escrito o nome de nossa terra querida, sendo entrevistado pelos familiares do Jorge (grande carnavalesco de Calçado, concorrente do Josias), explicando o porquê daquele nome para uma cidade. Foi nota 10 a entrevista.
   Você não sabe como a nossa terra tem se desenvolvido, principalmente no comércio. Existem muitos comerciantes bem sucedidos, principalmente aqueles que não te venderam fiado, confira a crônica do Juninho em "Broinhas do tamanho de Donald Trump e Helmut Meyrfreund".
   Você sabe, que eu e todos os nossos amigos e conterrâneos, torcem pelo seu sucesso no exílio, e o comércio de Calçado é o que mais agradece.
   E quando você me ligar bêbado, com saudade e chorando muito, não se desespere, lembra daquele poema de Manoel Bandeira - "Vou embora pra Parságada".
   Fala mais ou menos assim:
   "...E quando eu estiver triste, mas triste de não ter jeito,
quando de noite me der, vontade de me matar..."
   Aqui você tem o Broinha e seu amigo Caçapa.
  
   P.S. Meu grande amigo Periquito, outro dia, o Ti Pingo falou que a Joana, jamais te perdoará.

Carlos Lacerda de Castro Crissaff(caçapa)

 

 

 

 


 

 

 

 

 

 

 

 

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