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DAS
LEMBRANÇAS DE UM TORCEDOR DO AMERICANO
Eu era um torcedor fanático do
Americano. Aliás, naqueles últimos tempos, todo
mundo em São José do Calçado andava entusiasmado
com o time de futebol. O Americano Atlético Clube, este
era o nome completo do time, estava em ótima fase, vinha
de uma série de vitórias, vitórias mais e
menos importantes, a última espetacular. Tínhamos
visto o Americano bater, em nossa cidade, O Ordem e Progresso
F. C., clube de futebol da vizinha Bom Jesus, com ares de time
grande, vice campeão do Estado duas vezes, acostumado a
enfrentar os times do Rio de Janeiro.
Essa vitória, tão bem comemorada,
no campo e nas ruas, parecia representar o retorno do bom futebol
à nossa cidade. Há vários anos que o futebol
de Calçado andava em decadência, vinha mesmo servindo
de motivo a pilhérias por parte dos vizinhos. Formávamos
um clube, não dava certo, perdíamos logo o primeiro
jogo e vinha o desânimo, formávamos outro. Os jovens
sempre lutando, suspirando por algo de melhor, e os mais velhos
recordando com saudade um passado mais ou menos distante, quando
existiu por aqui um time muito bom, também chamado Americano.
No entanto, o tempo ia passando e o nosso futebol parecia um caso
sem solução. Até que fundamos o clube atual,
o novo Americano, que desde o princípio nos trouxe bom
agouro. Depois de uma série de vitórias menos importantes,
esta sobre os bonjesuenses era a prova que faltava, a definitiva,
uma afirmação vigorosa. Daí o motivo de tanta
comemoração, tanta alegria e tantos comentários.
Bonita a lição que o Americano dera ao Progresso,
melhor ainda a que Calçado dera a Bom Jesus. Vimos os vizinhos
humilhados, cadê o seu grande futebol, a sua arrogância,
o seu menosprezo? Maior população, melhor comércio,
mais riqueza, ruas e praças mais bem tratadas, o cinema
novo e moderno, nada disso nos irritava muito e nem causava maior
inveja. O nosso problema era no esporte, nosso calcanhar de aquiles,
aquele desprezo, aquela arrogância, a displicência
com que se referiam a nossos jogos de futebol, puras touradas
de roça. Foi com relutância que os dirigentes do
Ordem e Progresso aceitaram o convite para o jogo em nossa cidade,
parece que o fizeram mais com a idéia de acabar logo com
esse novo time, jogar água no nosso entusiasmo.
Naquela época o nosso estádio
de futebol era bem acanhado e não era cercado. Ainda não
tinham sido realizadas as grandes obras de melhoria e ampliação,
de drenagem, de replantio do gramado, dos muros, do vestiário,
etc.. Uma dificuldade obter alguma renda. Os dirigentes se esforçavam,
apelavam à população, pediam, tentavam cobrar
ingressos pondo cobradores nos acessos ao campo na ocasião
dos jogos. Algumas pessoas, poucas, colaboravam com boa vontade
e pagavam, mas a grande maioria não, preferiam dar algum
golpe, assistindo aos jogos lá do alto dos morros, ou dos
fundos dos quintais que davam para o campo, ou entravam na área
através de qualquer outro expediente. Em geral, o dinheiro
arrecadado era ínfimo e não dava para as despesas.
No entanto, naquela tarde as coisas foram diferentes.
O Progresso vinha a Calçado para jogar com o Americano.
Era algo inusitado, corria uma euforia, as pessoas estavam mais
receptivas, e a renda do jogo somou alguns cruzeiros. Deu para
as despesas e ainda sobrou. Havia muita gente, além dos
freqüentadores costumeiros da cidade, veio gente das zonas
rurais, veio gente dos povoados da redondeza, veio gente de Bom
Jesus acompanhando o Progresso. Ainda me lembro quando o ônibus
parou e desceram os jogadores de camisa amarela, vice campeões
do Estado. Desceram com aquele ar superior, de quem olha por cima,
aquele desprezo que sempre mostravam contra nós. Ficamos
admirados de ver todos os titulares, tinha corrido um boato de
que trariam o time temperado com reservas, mas não, estavam
todos lá. Comentou-se também que eles queriam tirar
de uma vez a nossa vontade de defrontá-los. Houve apostas,
um ricaço de Bom Jesus andou oferecendo gol de vantagem.
O Tião Marques mesmo, que era quem tinha mais posses e
um animador do futebol e de outras festas populares, dizem que
andou apostando e ganhou um bom dinheiro.
Muita gente em volta do campo, a polícia
vigiava para que o povo não ultrapassasse as linhas demarcatórias.
Quando o meia-direita do Americano fez o primeiro gol, espocaram
foguetes, o povo invadiu o gramado para abraçar os jogadores.
Foi nesse momento que estourou a primeira abriga, um valentão
de um povoado vizinho gritou impedimento, ele não gostava
do Americano, foi agredido pela torcida. O lance mais comentado
foi o último gol do Americano. Nós ganhávamos
de dois a um, o jogo estava duro com o Progresso tentando reabilitar-se,
quando o Iote recebeu uma bola pela ponta direita e desfechou
um chutaço para o arco, daqueles seus chutes famosos e
comentados na cidade, em que a bola saía mais parecendo
um foguete. O goleiro do Progresso não sentiu nem o cheiro.
Quando ele olhou para trás, lá estava a bola no
fundo e a rede balançando.
O jogo ficou de três a um. Os atletas
de Bom Jesus tomaram o ônibus de cabeça baixa, constrangidos,
decepcionados e tristes. O povo em volta aclamava e vaiava. Subimos
a ladeira levando nos ombros os nossos jogadores, uma multidão
enorme, as ruas entupidas de gente, começou o carnaval.
Alguém pagou bebida, o Tônio trouxe sua bandinha,
as pessoas cantavam e davam vivas ao Americano. Mais tarde, quando
já era de noite, improvisaram dois bailes. Um no salão
sede do Americano, que ficava no sobrado do bar do Zé do
Gastão, na parte de cima, para a melhor sociedade, o outro,
o baile dos operários, foi como de costume na sede do clube
deles, na Rua Nova.
Nos dias que se seguiram só se falava
no jogo. Foram os dias mais alegres que vi na cidade. Nas esquinas,
nos bares e botequins, nas casas de família, havia sempre
um sorriso em cada boca. Por duas semanas morou ali a felicidade.
Digo por duas semanas porque no fim desse tempo o Americano foi
a Bom Jesus pagar o jogo ao Progresso.
Imagine, se o outro jogo foi aquilo que foi,
em animação, esse seria muito mais. Uma expectativa
nervosa o antecedia. Boatos e comentários os mais variados
corriam em Calçado. Uns diziam que o Progresso enfrentaria
o Americano com o mesmo time, a maioria no entanto afirmava que
os bonjesuenses tinham reforçado o quadro, que mandaram
buscar em Campos um tal de Didinho, jogador profissional, de nome
por aquelas bandas. Na opinião abalizada de nosso comissário
de menores, essa partida seria bem mais dura, eles tinham tomado
uma lição e iam se preparar melhor. Todavia nós
devíamos ganhar, nosso time tinha mais raça. De
um modo geral havia grande otimismo, grande esperança,
grande confiança no desempenho do Americano. Desta vez
nos olhavam com mais respeito, parece que o resultado da primeira
partida tinha saído até nos jornais de Vitória.
Comentou-se mesmo que o Americano entraria no campeonato estadual.
Nesse Domingo, sem exagero, acho que podemos
afirmar que a cidade de São José do Calçado
desceu para Bom Jesus. Homens, mulheres e crianças. Todos
os ônibus da empresa local foram mobilizados. Carros de
praças, automóveis particulares, caminhões,
tudo quanto era veículo motorizado desceu levando gente.
Movimento raro, lembrava a época das eleições,
quando tudo era movimento e os carros não paravam de trafegar.
Que me lembre, o estádio do Ordem e Progresso nunca esteve
tão superlotado, nunca foi maior a renda, talvez nem naquela
histórica partida contra o Flamengo do Rio de Janeiro.
Uma tarde bonita, o céu azul, nós ansiosos com o
início da partida. A Americano entrou em campo, vibração,
foguetes, estava enfim resgatado o nome do futebol de Calçado.
Igualmente o Ordem e Progresso entrou em campo.
Seria ótimo se pudéssemos parar
por aqui. Triste falar de coisas tristes e desenganos. Nosso goleiro
deu azar e iniciou o jogo bem de frente para o sol, era um defeito
do campo de Bom Jesus. Perdemos de sete a zero, nossos jogadores
ficaram sem rumo dentro do campo, nem o gol de honra.
Coisas da vida, coisas de futebol. Saí
mais cedo, com alguns companheiros de decepção.
Me lembro quando um deles, disfarçadamente, jogou fora
um pacote que levava consigo. Um moleque apanhou-o e saiu correndo.
Quando dobramos a esquina, lá estava ele, alegre, soltando
os foguetes.
João
Hertesi.
Publicado no jornal A Ordem, no dia 13 de maio de 1979.

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