MENU





Sua mensagem


Caso a página não esteja sendo exibida corretamente
instale o plugin  do  flash  no seu computador entrando
no link acima.

Melhor visualizado em resolução 800x600 ou 1024x768


DAS LEMBRANÇAS DE UM TORCEDOR DO AMERICANO


    Eu era um torcedor fanático do Americano. Aliás, naqueles últimos tempos, todo mundo em São José do Calçado andava entusiasmado com o time de futebol. O Americano Atlético Clube, este era o nome completo do time, estava em ótima fase, vinha de uma série de vitórias, vitórias mais e menos importantes, a última espetacular. Tínhamos visto o Americano bater, em nossa cidade, O Ordem e Progresso F. C., clube de futebol da vizinha Bom Jesus, com ares de time grande, vice campeão do Estado duas vezes, acostumado a enfrentar os times do Rio de Janeiro.

   Essa vitória, tão bem comemorada, no campo e nas ruas, parecia representar o retorno do bom futebol à nossa cidade. Há vários anos que o futebol de Calçado andava em decadência, vinha mesmo servindo de motivo a pilhérias por parte dos vizinhos. Formávamos um clube, não dava certo, perdíamos logo o primeiro jogo e vinha o desânimo, formávamos outro. Os jovens sempre lutando, suspirando por algo de melhor, e os mais velhos recordando com saudade um passado mais ou menos distante, quando existiu por aqui um time muito bom, também chamado Americano. No entanto, o tempo ia passando e o nosso futebol parecia um caso sem solução. Até que fundamos o clube atual, o novo Americano, que desde o princípio nos trouxe bom agouro. Depois de uma série de vitórias menos importantes, esta sobre os bonjesuenses era a prova que faltava, a definitiva, uma afirmação vigorosa. Daí o motivo de tanta comemoração, tanta alegria e tantos comentários. Bonita a lição que o Americano dera ao Progresso, melhor ainda a que Calçado dera a Bom Jesus. Vimos os vizinhos humilhados, cadê o seu grande futebol, a sua arrogância, o seu menosprezo? Maior população, melhor comércio, mais riqueza, ruas e praças mais bem tratadas, o cinema novo e moderno, nada disso nos irritava muito e nem causava maior inveja. O nosso problema era no esporte, nosso calcanhar de aquiles, aquele desprezo, aquela arrogância, a displicência com que se referiam a nossos jogos de futebol, puras touradas de roça. Foi com relutância que os dirigentes do Ordem e Progresso aceitaram o convite para o jogo em nossa cidade, parece que o fizeram mais com a idéia de acabar logo com esse novo time, jogar água no nosso entusiasmo.

   Naquela época o nosso estádio de futebol era bem acanhado e não era cercado. Ainda não tinham sido realizadas as grandes obras de melhoria e ampliação, de drenagem, de replantio do gramado, dos muros, do vestiário, etc.. Uma dificuldade obter alguma renda. Os dirigentes se esforçavam, apelavam à população, pediam, tentavam cobrar ingressos pondo cobradores nos acessos ao campo na ocasião dos jogos. Algumas pessoas, poucas, colaboravam com boa vontade e pagavam, mas a grande maioria não, preferiam dar algum golpe, assistindo aos jogos lá do alto dos morros, ou dos fundos dos quintais que davam para o campo, ou entravam na área através de qualquer outro expediente. Em geral, o dinheiro arrecadado era ínfimo e não dava para as despesas.

   No entanto, naquela tarde as coisas foram diferentes. O Progresso vinha a Calçado para jogar com o Americano. Era algo inusitado, corria uma euforia, as pessoas estavam mais receptivas, e a renda do jogo somou alguns cruzeiros. Deu para as despesas e ainda sobrou. Havia muita gente, além dos freqüentadores costumeiros da cidade, veio gente das zonas rurais, veio gente dos povoados da redondeza, veio gente de Bom Jesus acompanhando o Progresso. Ainda me lembro quando o ônibus parou e desceram os jogadores de camisa amarela, vice campeões do Estado. Desceram com aquele ar superior, de quem olha por cima, aquele desprezo que sempre mostravam contra nós. Ficamos admirados de ver todos os titulares, tinha corrido um boato de que trariam o time temperado com reservas, mas não, estavam todos lá. Comentou-se também que eles queriam tirar de uma vez a nossa vontade de defrontá-los. Houve apostas, um ricaço de Bom Jesus andou oferecendo gol de vantagem. O Tião Marques mesmo, que era quem tinha mais posses e um animador do futebol e de outras festas populares, dizem que andou apostando e ganhou um bom dinheiro.

   Muita gente em volta do campo, a polícia vigiava para que o povo não ultrapassasse as linhas demarcatórias. Quando o meia-direita do Americano fez o primeiro gol, espocaram foguetes, o povo invadiu o gramado para abraçar os jogadores. Foi nesse momento que estourou a primeira abriga, um valentão de um povoado vizinho gritou impedimento, ele não gostava do Americano, foi agredido pela torcida. O lance mais comentado foi o último gol do Americano. Nós ganhávamos de dois a um, o jogo estava duro com o Progresso tentando reabilitar-se, quando o Iote recebeu uma bola pela ponta direita e desfechou um chutaço para o arco, daqueles seus chutes famosos e comentados na cidade, em que a bola saía mais parecendo um foguete. O goleiro do Progresso não sentiu nem o cheiro. Quando ele olhou para trás, lá estava a bola no fundo e a rede balançando.

   O jogo ficou de três a um. Os atletas de Bom Jesus tomaram o ônibus de cabeça baixa, constrangidos, decepcionados e tristes. O povo em volta aclamava e vaiava. Subimos a ladeira levando nos ombros os nossos jogadores, uma multidão enorme, as ruas entupidas de gente, começou o carnaval. Alguém pagou bebida, o Tônio trouxe sua bandinha, as pessoas cantavam e davam vivas ao Americano. Mais tarde, quando já era de noite, improvisaram dois bailes. Um no salão sede do Americano, que ficava no sobrado do bar do Zé do Gastão, na parte de cima, para a melhor sociedade, o outro, o baile dos operários, foi como de costume na sede do clube deles, na Rua Nova.

   Nos dias que se seguiram só se falava no jogo. Foram os dias mais alegres que vi na cidade. Nas esquinas, nos bares e botequins, nas casas de família, havia sempre um sorriso em cada boca. Por duas semanas morou ali a felicidade. Digo por duas semanas porque no fim desse tempo o Americano foi a Bom Jesus pagar o jogo ao Progresso.

   Imagine, se o outro jogo foi aquilo que foi, em animação, esse seria muito mais. Uma expectativa nervosa o antecedia. Boatos e comentários os mais variados corriam em Calçado. Uns diziam que o Progresso enfrentaria o Americano com o mesmo time, a maioria no entanto afirmava que os bonjesuenses tinham reforçado o quadro, que mandaram buscar em Campos um tal de Didinho, jogador profissional, de nome por aquelas bandas. Na opinião abalizada de nosso comissário de menores, essa partida seria bem mais dura, eles tinham tomado uma lição e iam se preparar melhor. Todavia nós devíamos ganhar, nosso time tinha mais raça. De um modo geral havia grande otimismo, grande esperança, grande confiança no desempenho do Americano. Desta vez nos olhavam com mais respeito, parece que o resultado da primeira partida tinha saído até nos jornais de Vitória. Comentou-se mesmo que o Americano entraria no campeonato estadual.

   Nesse Domingo, sem exagero, acho que podemos afirmar que a cidade de São José do Calçado desceu para Bom Jesus. Homens, mulheres e crianças. Todos os ônibus da empresa local foram mobilizados. Carros de praças, automóveis particulares, caminhões, tudo quanto era veículo motorizado desceu levando gente. Movimento raro, lembrava a época das eleições, quando tudo era movimento e os carros não paravam de trafegar. Que me lembre, o estádio do Ordem e Progresso nunca esteve tão superlotado, nunca foi maior a renda, talvez nem naquela histórica partida contra o Flamengo do Rio de Janeiro. Uma tarde bonita, o céu azul, nós ansiosos com o início da partida. A Americano entrou em campo, vibração, foguetes, estava enfim resgatado o nome do futebol de Calçado. Igualmente o Ordem e Progresso entrou em campo.

   Seria ótimo se pudéssemos parar por aqui. Triste falar de coisas tristes e desenganos. Nosso goleiro deu azar e iniciou o jogo bem de frente para o sol, era um defeito do campo de Bom Jesus. Perdemos de sete a zero, nossos jogadores ficaram sem rumo dentro do campo, nem o gol de honra.

   Coisas da vida, coisas de futebol. Saí mais cedo, com alguns companheiros de decepção. Me lembro quando um deles, disfarçadamente, jogou fora um pacote que levava consigo. Um moleque apanhou-o e saiu correndo. Quando dobramos a esquina, lá estava ele, alegre, soltando os foguetes.

João Hertesi.
Publicado no jornal A Ordem, no dia 13 de maio de 1979.

 

 

 


 

 

 

 

 

 

 

 

O broinha - www.broinha.com.br - todos os direitos reservados