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MARCHA A RÉ - SORTE OU AZAR ?

 

   Depois de uma manhã inteira enfurnados num boteco, que ficava em frente a casa do Manoel Luiz, o pessoal resolveu botar a cara na rua para sentir o tempo. Jiló, vendo que o céu estava limpo, disse que se tivesse um carro iria na festa de Palmital, que estava acontecendo
naquele final de semana.

   Pronto ! Começou a discussão e a gozação em cima do Jiló:
   - Não ia adiantar nada, você não sabe dirigir. Lembrou o Alan.
   - Ô Alan, se eu tivesse um carro, é claro que antes eu já teria aprendido a dirigir. Presta atenção ! Disse Jilo, meio sério.
   - Ihhh Saragaia, então vai demorar muito tempo para ele ter um carro. O Jiló não sabe nem ligar a seta. Disse o Alan para o Saragaia, ignorando o que o Jiló acabara de falar.

  Muitos risos e gozações de todos os presentes. Jiló, pouco acostumado com aquela situação de gozação para cima dele, resolveu não deixar por menos. Disse que já havia tomado algumas aulas de direção e que tinha se saido muito bem. O único problema era com as marchas. Não havia jeito de aprender a sequência certa.Era a deixa que todos esparavam. Seria colocado à prova os conhecimentos automobilístico do Jiló.

   Foi pedida a saideira. Todos queriam ver como o Jiló se sairia daquela situação. Meio sem jeito e tentando arrumar alguma desculpa razoável, Jiló diz que entraria no carro se fosse alguém do lado dele para dar as dicas de como passar as marchas. Como já havia dito, ele tinha certa dificuldade com as marchas, mas com a direção ele se garantia. Todos concordaram.

   Depois de muita discussão para escolher o instrutor de marchas, foi indicado o Saragaia.
   - E o carro ? Alguém lembrou de perguntar.
   - Pode ser o fusquiinha do Alan, lembrou o Saragaia. Antes que o Alan protestasse, foi dito que, como o fusquinha tinha sido presente do Mauro, em caso de acidente com perda total ( coisa muito provável de
acontecer ), o Alan não teria prejuizo financeiro, visto que não tinha desembolsado nem um tostão na aquisição do carro.
   - Mas, mas, ........
   - Além do mais, o único carro que tem aqui é o seu. Disse o Coronel, cortando a fala do Alan e pondo um ponto final na discussão.

   Saragaia, já não muito satisfeito por ter que abandonar aquele boteco tão aconchegante, começa a traçar o plano de instrução de marchas.
Segundo o plano apresentado, as marchas seriam passadas de acordo com a distâncias, na seguinte sequência:

   Primeira marcha - Até o boteco que fica na subida do morro que vai para a Divinéia, onde, hoje, é o Posto do Passalini. Parada para comemorar e depois retomar a instrução;

   Primeira e segunda marchas - Saindo do segundo boteco até o Bar do Bezerra ( Posto Rezende ), na rodovia Broinha-Bondinho. Outra parada. Caso tudo transcorresse bem, comemoração dobrada. Retomada da instrução;

   Primeira, segunda e terceira marchas - Saindo do Bar do Bezerra até o boteco localizado atrás da rodoviária, ao lado da casa do Jazin, junto à cabeceira da ponte. Trecho complicado, cheio de obstáculos, principalmente na re-entrada da rodovia, voltando para Calçado. Parada
obrigatória. Havendo necessidade de reforço na aprendizagem, poderia ser feito um segundo trajeto. De qualquer forma, comemoração tinha que haver, pela perícia do aprendiz em chegar até aquele ponto.

   Primeira, segunda e terceira marchas ( treino de reforço ) - Saindo do boteco atrás da rodoviária, contornaria a rodoviária, passaria na reta dos armazéns do Alair Borges, dobraria à direita e, todos rezando o Pai Nosso, tentaria subir a Ladeira da Dona Dulce, até o Bar do João Pôncio. Teste duríssimo. Em caso de sucesso, comemoração efusiva. Apredizagem quase concluida. Retomada da instrução.

   Primeira, segunda, terceira e quarta marchas ( instrução final de confirmação de aprendizagem ) - Saindo do Bar do João Pôncio, desce a Ladeira até a Rua 15, tomando rumo para chegar a Palmital. Havendo sucesso na empreitada, comemoração entusiástica. Mais um motorísta
na praça!

   Saragaia da conhecimento a todos do plano de instrução. Foi aprovado por 4 votos a favor e uma abstenção ( Alan ainda não tinha assimilado bem a utilização do seu fusquinha naquela empreitada ). Com uma expressão meio de angústia, meio de desespero, Alan entrega a chave do fusquinha para o Jiló. Já dono da situação, Jiló distribui os lugares no carro. No carona, Saragaia. No banco de trás, à direita Alan. À esquerda Coronel e no meio o Beto.

   Resumindo. Depois de uma tarde inteira de aprendizagem, chegam a Palmital. Jiló não se contém de alegria.
   - A primeira rodada é por minha conta ! Exclama Jiló, esfuziante.
   - A segunda, terceira e a quarta rodadas são por minha conta. Disse Alan, com uma expressão de alívio, pois seu fusquinha tinha chegado inteiro.Todos para o boteco. E tome comemoração.

   Fim da Festa de Palmital. Hora de retornar a Calçado. Todos os 5 passageiros do fusquinha se encontram no banco de trás.
   - Assim num dá, gente ! Tem que alguém ir dirigindo. Disse uma voz sonolenta e quase inaudível.
   - Só pode ser o Jiló. Ele acabou de tirar a carteira. Disse o Beto, que se encontrava encolhido sobre aquele pseudo bagageiro trazeiro do fusca.
   - Tá bão, mas todos vocês têm que sair do fusca. Disse o Jiló, que se encontrava deitado no fundo do fusca, entre os bancos dianteiro e traseiro.

   Restabelecida a ordem inicial da viagem, Jiló liga o carro. Passado uns cinco minutos, Alan pergunta p'ro Jiló por que o carro não estava andando.
   - Como ? Num tá vendo esse barranco na nossa frente. Pergunta o Jiló, cheio de razão.
   - Engata a ré, Jiló. Depoís faz tudo como te ensinei. Protestou o Saragaia, que emborcado na cadeira estava e emborcado ficou.
   - Mas isso cê num ensinou não, Saragaia ! Que que precisa fazer ? Implorou o Jiló.
   - Nada. Marcha à Ré é sorte. Afunda a marcha p'ra trás e acelera. Quando parar, faz o que já aprendeu. Disse o Saragaia em estado letárgico.
   - Catapumba ! O carro bateu numa árvore e amassou o para-choque traseiro todo.
   - Deu azar ! Exclama o Saragaia. Agora engata a primeira e vamos embora.

   Saragaia da por encerrada a instrução e cai no sono

   ATENÇÃO: Aos futuros aprendizes. Não tentem imitar o Jiló. Deu certo naquela vez porque o Protetor estava de plantão. Até hoje o Jiló não sabe dirigir.

   Obs: Livre narrativa para fato e personagens reais.


GILBERTO VIEIRA DE REZENDE

 


 

 


 

 

 

 

 

 

 

 

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