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O parto do primogênito- Parte 1

 

   Para ser honesto, devo confessar que não tenho certeza se de fato o parto aconteceu exatamente como vou contar, a seguir. Mas, por outro lado, se não foi assim, vocês verão que bem que poderia ter sido. A minha versão é muito boa. Além disso, duas coisas me encorajam a continuar, a primeira é de ordem filosófica, vem de um princípio que afirma que se você tem uma boa versão, os fatos tornam-se irrelevantes; e a segunda é de ordem mais prática, é a certeza da impunidade, pois como se tratam de fatos ocorridos há mais de meio século, hoje só restam duas testemunhas que poderiam me desmascarar, uma é o próprio nascituro, que felizmente, por óbvia falta de credibilidade, dada a inocência de seu papel no episódio, posso descartar tranqüilamente; e a outra é a mãe, e esta, apesar de saber das coisas e estar muito lúcida, é de confiança. Se a conheço bem, estou certo de que não levantaria um dedo, ou mexeria uma palha, para me desacreditar ou permitir que me chamassem de mentiroso.

   Assim, vamos pois aos fatos, aliás à versão.

   Cinco de novembro, calor danado, dois dias de sofrimentos e expectativas. O Pedro já não sabia mais o que fazer. Decidiu ir chamar o Dr. Aristides, tomou da bicicleta e partiu na direção da Rua. A Rua é como se dizia, naquela época, quando se referia à cidade de Calçado. Um bom pedaço, seis quilômetros, da Fazenda até à cidade, tinha chovido bastante e a estrada estava enlameada, mas a bicicleta era um bom veículo nessas horas, exceto que vez ou outra, tinha que ser levada às costas, ou empurrada morro acima, em vez de nos levar.

   A culpa não era dele, claro que não era, não é fácil lidar com gente teimosa. Ele perdera na discussão com a mulher, e a contra gosto tivera que aceitar aquela idéia estapafúrdia de ela ir ter o filho lá na Fazenda. Também, para ela, o que o pai falava era lei, e o sogro, firme de idéias, tinha bons argumentos, "Minha filha, eu acho melhor você vir ter a criança aqui na Fazenda, você sabe, aqui tem mais apoio, tem muito mais gente para ajudar, a dona Maria Rosa é uma parteira de primeira, sou testemunha, ela assistiu a sua madrasta nos partos dos meninos, é uma perita, e eu estarei também à disposição. Você sabia que fui eu quem ajudou nos dez partos de sua falecida mãe e nos três da Tota? Também socorri a sua irmã, a Filhota, pois o marido, o Mário, era meio frouxo nessas horas. Você ainda poderá contar com a Tota, é verdade que ela é meio nervosa, mas tem experiência, já é mãe de seis filhos. E tem também as mulheres dos empregados, tem a comadre Santa, que é uma de muita iniciativa e está sempre pronta para dar uma ajuda, é ela quem, nessas ocasiões, sempre ferve as águas, prepara os panos, cuida da limpeza. Em Calçado, você não tem empregada e o Pedro é muito sem expediente. Aliás, sem querer ofender, eu sempre soube que essa família dos Vieira, com raras exceções, são uma gente de sem expedientes".

   Como se vê, o sogro, sempre muito auto-suficiente, às vezes usava de certas franquezas que beiravam à grosseria, mas aquilo era o jeito dele, não era por mal. Ele confiava muito na sua intuição e via essas coisas de nascimentos com naturalidade. Parto de mulher, segundo afirmava, era o mesmo que parto de vaca, parto de égua, ou parto de porca, ou de qualquer outro bicho, era coisa simples da natureza. E no final, segundo acreditava, quem decidia as coisas mesmo era Deus, quando ele queria tudo dava certo, quando não, cabia a nós nos resigna
r.


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