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O
parto do primogênito- Parte 2
Havia
alguns senões, que Pedro nunca aceitou no velho. Era aquele
modo de, às vezes, tratar as pessoas diferentemente, algumas
com mais consideração. Parece que se deixava influenciar
com a situação econômica. Por exemplo, os
dois últimos casamentos na família, o dele e o do
concunhado seu primo. Por ser fazendeiro e rico, este era sempre
mais considerado. Para a cunhada, foi aquilo que se viu no casamento,
festança, a Fazenda cheia de convidados, ajantarado, carros
alugados, a presença das pessoas mais influentes do Município.
Enquanto que no seu casamento, não houve quase nada, não
tomaram nenhuma providência. Ele e a noiva tiveram que contar
com uma tia, uma tia da noiva. Se não fosse por ela, que
cedeu sua casa, não teria havido mesmo nada, nem aquela
simples recepção para os familiares e amigos mais
chegados. Ele se reconhecia pobre, certo, alfaiate simples em
início de carreira, sim, mas era de boa família,
digno, trabalhador, honesto, econômico, tirava o sustento
do seu trabalho, do seu suor, da labuta com suas agulhas e tesouras.
Ainda bem que todo o resto da família, principalmente as
cunhadas e concunhados, reconheciam isso e o tratavam com todo
o carinho e consideração.
Por sorte, não havia muita lama na estrada,
a chuva da noite anterior cessara e o caminho entre a Fazenda
e Calçado não era de atoleiros, mas tinha que ir
devagar, devido a trechos escorregadios. Depois de tudo passar,
teria que dar uma boa lavada na bicicleta, e unta-la toda de óleo,
senão, já era, a ferrugem comeria tudo.
Alcançou a descida da Fazenda da Serraria.
A casa senhorial, ainda com aspecto monumental, guardava lembranças
de faustos de outra época. De um lado, o antigo complexo
da moagem de cana, do alambique e da fábrica de farinha,
hoje desativados. A chaminé esguia, imponente. Do outro
lado, o pomar, com árvores cinqüentenárias,
frondosas, mangueiras, jaqueiras, laranjeiras. Em frente, dentro
dos muros do jardim, as quatro palmeiras imperiais, uma a cada
canto, altíssimas, elegantes, folhas balançando
ao vento, compunham com o ambiente e davam-lhe aquele ar de solenidade.
Antigamente, morava aqui o tenente-coronel João Teixeira
de Siqueira Magalhães, avô de seu sogro. Agora a
propriedade não é mais da família, o dono
atual é um dos homens mais ricos do Município e,
segundo as más línguas, também o mais pão-duro.
Dizem que ele obrigava os familiares e os empregados a tomar café
de garapa para economizar no açúcar, e a comer canjiquinha
de milho de pintinho para economizar no arroz.
Pensando bem, na verdade, todo esse problema
do parto, surgiu com a teimosia da esposa, ela embarcou nas águas
do pai. Dizem que é parecida com ele. Que idéia
mais infeliz, deixar o Dr. Aristides, a dona Elzira, a Farmácia
pertinho, para ir lá para a roça. Mas ela sempre
foi assim, quando quer uma coisa, saia da frente, é um
trator, consegue. Forte, corajosa, sadia, cheia de expedientes,
tem que agir e influenciar em tudo a seu redor. Qualquer probleminha,
e lá está ela puxando para si, como se fosse a única
capaz, se dando ao máximo. E não esconde, gosta
de exibir, e costuma contar vantagem. Sempre que há oportunidade,
ela se refere a um caso antigo, quando ainda menina, em que o
pai teve um problema de colheita de café, e deslocou toda
a família lá para o Sítio de Cima, nos altos
do Jacá, tendo sido ela a mais eficiente no eito, disputando
com os homens os trabalhos mais puxados.
Mas coitada, está pagando caro, não
só pela teimosia, mas também pelo azar. Parece que
não estava preparada para a gravidez. Nove meses de enjôo,
sem poder se alimentar direito, e agora esse parto desastrado.
Não me conformo com esse negócio de sentar em quarta
de milho, que posição mais incômoda! Cheira
mais a ignorância, a simpatia supersticiosa, do que a qualquer
técnica eficaz de buscar posições mais adequadas
para o nascimento. Mas o sogro acredita, e a filha está
de acordo. Pegaram o caixote de medir milho e fubá, lá
do moinho, que eles chamam de quarta, e trouxeram para a Fazenda.
E há mais de um dia que estão lá, naquele
quarto, sob orientação de dona Maria Rosa, naquela
agonia. Ele, Pedro, só sabia observar, a madrasta, dona
Tota, nervosa a chorar, enquanto o sogro, e a parteira, dona Maria
Rosa, se revezavam nas providências, e a paciente rezava
e sofria. Toda lambuzada de azeite de mamona, se sentia alguma
dor, alguma contração, sentava na quarta, levantava
da quarta, sentava na beira da cama, fazia força, punham
a quarta no chão, voltavam com a quarta para a cama, gemia,
suava, e nada, um sem-fim.
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