|

MEU
PRIMO "FERRUGE"
Era uma vez em São Benedito, no início da década
de 1940, uma família de três irmãs de onde
nascia uma linda e controvertida criancinha .
Foi recebido com o aplauso da preferência notória
de seu patriarca, portanto, nada mais justo batizá-lo com
o nome bíblico : JOSÉ MARIA, na esperança
de que um dia poderia seguir o caminho religioso, se consagrando
um respeitado padre, ou quem sabe um grande cantor de ópera,
réplica do talentoso tenor CARUSO.
Absorto pela imaginação momentânea seu pai
continuava a tecer planos futurísticos para o pródigo
recém nascido , e naquele instante murmurou : Talvez um
grande filósofo, um político, um desportista, um
empresário, um ator, etc. etc. etc.
Voltando a realidade pensou ... : Ele tem a vida pela frente para
ser vivida e construída, pois a caminhada do destino que
decidirá o norte do amanhã.
O tempo foi passando e as profecias foram tomando caminhos antagônicos.
Na RELIGIÃO não conseguiu sequer se interessar pela
AVE MARIA, e o PAI NOSSO nem pensar pois era grande demais e complicado,
rezar o terço jamais passou pela sua cabeça.
Quanto ao padre professor personagem do seu relacionamento escolar
e religioso, participando estreitamente na sua adolescência
foi o seu maior torturador e carcereiro de suas fobias escolares,
submetendo-o as mais baixas notas curriculares, reprovando-o algumas
vezes. Mas isto não abalou a sua fé em DEUS, terminando
seu curso superior. Hoje ocupa um cargo de chefe no IDARF no Governo
Estadual.
Recentemente comemorando o dia de São João em seu
sítio, atravessou descalço a fogueira em brasa confiando
em sua fervorosa fé e desgraçadamente o resultado
foi catastrófico, queimando toda a sua sola do pé,
obrigando-o a permanecer na cama durante quinze dias. Embora sofresse
com o fato comentou : Podia ter sido pior. Graças a Deus.
Dentro do leque das decepções que a vida nos impõe,
houve um fato marcante na sua suposta vocação de
cantor, vocação esta que foi interrompida precocemente
de suas aspirações artísticas. Quando cursava
o ginasial ficou reprovado em canto orfeônico, fato inédito
na história do Colégio de São José
do Calçado e quem sabe do Brasil.
A professora na prova final, solicitou que cantasse o Hino Nacional,
já que ele não tinha conseguido a qualificação
necessária na prova escrita. Esta chance foi desastrosa,
pois ele não articulou uma só nota da canção
cívica, trancou a boca e recebeu um zero como premiação
final. Resultado, como tinha sido reprovado em duas matérias
teve que repetir o ano letivo.
Na FILOSOFIA , quem o conheceu sabe de seus conceitos filosóficos.
Nas discussões de fatos nacionais e internacionais sempre
recita seus chavões e frases bem colocadas , como por exemplo
: É bonito isto, admiro vós, segura piooooorra .
Estes três chavões conseguem animar qualquer bate
papo regado a comes e bebes, dando a impressão que estamos
em um estádio de futebol pela barulheira que envolve o
ambiente.
E por falar em estádio, sabemos do seu gosto pelos assuntos
relacionados a futebol e política, tendo sempre uma opinião
formada sobre ambos, entretanto morre de medo de microfone, trauma
herdado do canto orfeônico. Apesar destas particularidades
folclóricas do "FERRUGE", as quais descrevo de
forma amigável e não pejorativa , quero que saibam
que jamais conheci pessoa tão honesta, sincera, autêntica
e cumpridora de seus deveres cívicos e familiares. Querido
por todos que o conheceram no seu relacionamento social e profissional,
transcendia sempre que podia a sua sensibilidade de um ser humano
alegre, comunicativo que adora o carnaval Calçadense, travestido
com sua peruca loura, vestido longo e lápis borrado de
vermelho.
Salve alguns deslizes fisiológicos da lei da gravidade,
que fazem com que ele escorregue vez por outra na ladeira da cidade,
pisando na sua própria euforia etílica derramada
pelo chão, mas sem perder a compostura da farra ele grita
alto para seus companheiros : É BONITO ISTO, É BONITO
ISTO.
S. Raulino Pereira

|