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SAUDADE
É COISA QUE DÁ E NÃO PASSA!
Sempre
que escrevo, escrevo em tom de recordação. Minhas
recordações são saudáveis e sempre
me trazem alegria e muita saudade. Talvez eu esteja entrando naquela
fase da vida onde o passado começa a "fazer parte"
do cotidiano. Sou feliz porque tenho saudades, saudades de muita
gente ....saudades de muitas coisas ...saudades de muitas artes
... saudades ...saudades ...saudades do que vivi e estou revivendo.
O tempo que alucinadamente corre não pode impedir que a
gente renasça a cada letrinha que vai se juntando às
outras e formando idéias, definindo destinos. Foi por esta
vontade que comecei a guardar meus sentimentos, fragmentos lindos,
pedaços inconstantes de dias lentos que vivi em Calçado.
Parece que o dia, naquele tempo, levava umas 88 horas. Dava tempo
de fazer um "montão" de coisas e ainda sobrava
tempo pra sonhar. Sonhar com o futuro, sonhar com o amor, sonhar
com o indefinido.
Cada palavra que leio no site do Broinha identifico-me com alguma
coisa, com alguma pessoa. Faz tanto tempo que saí daí
e na verdade, confesso, passei mais de 20 anos no "limbo".
Não prestei a Calçado a reverência que ela
merecia ter. Foi aí que nasci; foi aí que vivi até
os meus 20 anos; foi aí que dei o meu primeiro beijo; foi
aí que tirei o meu primeiro "zero" na prova de
Francês, hoje prontamente dominado por determinação
repassada pelo Padre Amando; foi aí que dancei a minha
primeira quadrilha (e eu detesto Festa Junina nunca vi
beleza nesta festa); foi aí que dancei a minha primeira
valsa e usei o meu primeiro sapato alto, o primeiro batom; foi
aí que formei o meu caráter, que desenvolvi a minha
personalidade. Hoje sou o que sou, pela formação
oriunda dessa terra.
Aliás, de vez em quando tenho uma vontade, chega a ser
necessidade, de pisar na terra, naquela estradinha de terra (
que eu ia com o meu avô (Dunga Abreu) soltar o cavalo branco
(Mimoso) no pasto, lá pelos lados da chácara do
Sr. Chico Raposo, quando ele chegava da Fazenda no Jacá.
Lembro-me daquela terrinha gelada, debaixo de uns pés de
bambu e eu tirava os sapatos pra sentir friozinho nos pés.
Meu avô ia contando histórias ou estórias
e eu, acreditando em tudo que ele falava, até nas ilusões
que ele tão bem delineava.
Lembro-me das fortes chuvas que caíam e a nossa Rua 15
não tinha calçamento. Virava um lamaçal,
mas era divertido ver os "patinhos" feitos pelas gotas
das chuvas que caíam nas poças dágua.
Como a calçada da nossa casa era a primeira calçada
da rua, todo mundo vinha limpar os sapatos nas beiradas e eu ficava
chateada com a calçada cheia de lama, feia. Nos fundos
de minha casa pescávamos lambaris. Podem acreditar: uma
vez peguei dois lambaris de uma só puxada. Eles estavam
fazendo amor e eu estraguei a "festa". Pulávamos
a cerca dos fundos para pegar goiabas e mangas no quintal do Sr.
Constantino Peres. Tudo subterfúgio para ver e paquerar
os meninos tomando banho de rio.
E quando começava a passar a "boiada" que vinha
dos lados de São Benedito e subia a Rua 15 até a
estrada em frente à casa do Sr. Salim. Muitas vezes chegávamos
atrasadas no Colégio, pois a boiada levava mais de uma
hora passando. A rua ficava um horror de sujeira, mas não
consigo me lembrar como era feita a limpeza. Acho que desde aquela
época eu já havia resolvido afastar tudo que é
feio de minha vida.
E as festas de Calçado? As costureiras ficavam lotadas
de trabalho. Passávamos horas e horas escolhendo modelos,
escolhendo tecidos. Fazíamos pelo menos duas roupas novas:
uma para ir à missa e outra para ir ao baile. Neste baile
a concorrência era grande e sempre acabava em confusão
"BROINHAS X bondinhos", mas parece que era tudo muito
bem combinado no final da noite as meninas iam embora,
cada uma acompanhada com cada um risos . Ninguém
restava só!
No dia seguinte, as ladeiras ficavam cheias de meninas indo e
vindo das casas das amigas. Tudo isso pra fazer os comentários
do baile. Não tínhamos telefones, não tínhamos
Revista Caras, mas sabíamos de tudo que acontecia e defendíamos
ferozmente a escolha das amigas. Era cada escolha!
Mas, a lembrança mais gostosa que tenho são das
serenatas. Minha avó nos acordava pra vermos os "paqueras"
cantando para nós, declarando em poesia a pureza de um
inocente amor. Éramos pelo menos seis primas na veneziana
procurando o preferido de cada uma. Que lembrança maravilhosa!
"Vento que balança as folhas do coqueiro, vento que
assovia nos cabelos da morena...e trás saudades de lá!"
Chega a ser uma saudade doída, saudade doida, mas cheia
de luz.
Muito carinho meu!
Eléia
Abreu
SP
/ Junho/2003

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