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À
sombra de uma agulha
Convivo
por mais de quarenta anos com a seguinte pergunta: Você
é "aquele" da agulha? E olha, que até
hoje às vezes alguém me pergunta a respeito disso.
Não sei se é Deus ou a natureza
que comanda nossa vida, mas, com certeza, não fui dotado
da capacidade da lembrança, como o foram diversos companheiros
que são capazes de descrever fatos do passado com uma precisão
que me fazem sentir inveja. No entanto, existe um fato na vida
de minha família que penso ser capaz de descrevê-lo
com razoável precisão. Vamos a ele.
Até os seis anos, fui o único
filho homem de uma família de quatro mulheres, o que, segundo
elas, me dava alguns privilégios junto a meu pai (se bem
que não me lembro de nenhum deles!). Mas, logo veio meu
irmão mais novo. Quando ele nasceu, minhas irmãs
tiveram uma certa revolta contra minha mãe por ser ela
uma mulher que pariu aos 42 anos. A revolta, no fundo, se dava
pelo fato de a concepção se originar de um ato sexual,
que, pela forma atrasada e conservadora da educação
da época, fazia que se pensasse que a relação
sexual entre pai e mãe ( já numa idade um pouco
mais avançada) seria uma "senvergonhice".
Naquela época morávamos na fazenda
e meu irmão nasceu em Calçado na casa da minha avó.
Veio ao mundo muito raquítico, o que lhe valeu o apelido
de "milho do frio" dado por uma tia.
A fazenda onde morávamos ficava entre
Calçado e Bom Jesus. Aos fundos via-se o imponente prédio
da Usina São José (que infelizmente nunca funcionou)
e em frente, uma mata onde havia um grande número de pequenos
animais e pássaros de nossa fauna. Tal mata foi uma referência
para os meus sonhos e medos da infância. Infelizmente, foi
totalmente derrubada pelo seu proprietário para plantar
café. Hoje, não há café, não
há os animais e nem as nascentes de água que dela
brotavam . A nossa fazenda, moderna para os padrões da
época, tinha geladeira, luz elétrica, uma eletrola
( comprada na loja do Tunico) e um rádio, onde ouvíamos
a novela " Gerônimo, o herói de Sertão",
grande sucesso junto à garotada da época. As únicas
coisas que não me agradavam eram: não comer pão
com manteiga todos os dias e a descarga do banheiro não
ser embutida na parede, como ditava a moda da construção
civil na época. Não tínhamos acesso ainda
aos padrões de modernidade estabelecidos por Oscar Niemyer
e Lucio Costa, na construção de Brasília.
Minha mãe, em suas idas a Calçado
ou a Bom Jesus, fazia compras de diversos artigos necessários
a uma casa. Certa vez, trouxe agulhas de diferentes tamanhos,
para que Geralda, a costureira da região, remendasse nossas
roupas do uso diário. Estas agulhas, junto com outras tranqueiras
de que não me lembro, foram colocadas na prateleira de
um guarda-roupas que ficava no quarto de meus pais.
Certa manhã, minha irmã mais nova,
e também a mais curiosa, estava em casa sozinha com o "milho
do frio". Sobe em uma cadeira, abre o guarda-roupas e começa
a mexer nas compras que minha mãe havia feito. Nisso, as
agulhas caem e se espalham pelo chão. Contra o destino
não há o que fazer. Não é que uma
daquelas agulhas caiu de ponta para cima fincada numa greta do
assoalho? Inocentemente, minha irmã pede ao irmão
para pegar as agulhas no chão. Com pouco mais de dois anos,
ele se deita para pegar as agulhas e uma delas penetra no lado
direito de seu torax um pouco abaixo das axilas.
Minha irmã, vendo o garoto chorar, pergunta
:
- O que foi Paulinho?
Aos prantos, ele mostra a agulha já quase
totalmente enterrada em seu torax. Imaginem o desespero de uma
menina de seis anos e um garoto de dois anos diante daquela situação.
Começa
ai um processo agonizante. Ela tenta de qualquer jeito puxar a
agulha, mas a mesma, pela ação do ato da respiração,
começa a penetrar cada vez mais no peito do Paulo. Ela
puxa, o menino respira e a agulha entra um pouco mais. O processo
continua até a agulha penetrar totalmente no tórax
do garoto.
Minha irmã começa a viver talvez
o maior dilema de toda sua vida: ficar quieta ou contar para alguém
o que havia acontecido? Se contasse poderia apanhar do pai ou
da mãe, e se não contasse, o que poderia acontecer
com o irmão? De forma decidida ( o que é uma de
suas características marcantes) resolve contar para a mãe,
que estava na estrada entre Calçado e Bom Jesus, à
espera do ônibus que a levaria para Calçado, onde
dava aulas.
Todo o processo de mobilização
de recursos para atender ao irmão com a agulha dentro do
corpo é iniciado. A mim coube a tarefa de correr até
a Fazenda do Limoeiro buscar meu tio Jão do Enes, que tinha
um fordeco. A uma outra pessoa, coube a tarefa de ir a Calçado
buscar meu pai e o meu tio Aristides, médico da cidade.
Logo em seguida aparece Dona Jovem, uma descendente
de escravos de meu bisavô, braço direito de minha
mãe nas horas de apuro:
- Dona Nádia é meior nois levá
o minino prá Bom Esuis. Lá tem mais ricurso.
Minha mãe concordou de pronto.
Enquanto não aparecia um carro ou um
ônibus que levasse o meu irmão para Bom Jesus, acontece
outra cena dantesca: a minha irmã totalmente desnorteada
com o acontecido, pega a sombrinha que minha mãe carregava,
colocando seu cabo na boca. Numa atitude comum a crianças
quando se sentem acuadas, morde o cabo da sobrinha pra lá,
morde pra cá até que consegue engolir o cabo da
sombrinha. Outro desespero a vista!
Dona Jovem, muito agarrada aos santos, quando
vê aquela cena, começa a rezar pra todos eles e em
especial para São Benedito, com o qual tinha mais intimidade.
Minha mãe, já num desespero total, vendo uma criança
com uma agulha no corpo, e a outra com um cabo de sombrinha agarrado
na garganta, apela para os mesmos santos e, com muito jeito, consegue
remover a sombrinha da garganta da minha irmã. Ufa!!
Meu irmão é levado para Bom Jesus,
onde é operado pelo cirurgião da época, o
Dr. Rui Marques. O médico não consegue remover a
agulha, pois a mesma se deslocava dentro do corpo do garoto, acompanhando
a sua respiração. Meu tio Aristides resolve removê-lo
às pressas para Itaperuna, uma cidade com mais recursos.
Lá, através de um cirurgião, se não
me engano o Dr. Carpi, conseguem remover a agulha do corpo do
menino.
Reafirmo: não sou "aquele"
da agulha, mas a agulha até hoje está presente em
minha vida. Quando meus filhos eram crianças, se havia
uma agulha em cima de uma cama ou num móvel qualquer, sempre
me vinham aquelas lembranças. Imediatamente pegava a agulha
e a guardava.
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Oscar
Rezende
Vitória, julho de 2003

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