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SOPA DE BÊBADO

   Continuando a saga das bebedeiras, voltamos ao início dos anos 80. Uma boa parte da turma que passava o Carnaval em Calçado resolveu, naquele ano, curtir o Carnaval na praia. Foram todos para Iriri.

    A turma que ficou em Calçado ( eu, Ronaldo Castro, Pedrinho Melo, Toinha, Piriquito, Zé Maria Ferrugem, Renato Castro, Pedro Antônio, Zé Augusto Raggi, Oscar, Carioca, Danilo, Moreira e Bastião da Magali, entre outros ) e mais um pessoal que apareceu em um ônibus, vindo do Rio de Janeiro, e com todos os instrumentos para se fazer uma roda de samba, inclusive cantor, reuníamos no Bar do Tiãozinho ( pai do Faísca ).

    No terceiro dia de Carnaval, na parte da tarde, o pessoal que tinha ido passar o Carnaval em Iriri, voltou para Calçado. O que que aconteceu ? O Carnaval não estava bom ? Acabou o dinheiro ? Deu saudade ? Essas e outras perguntas ficaram sem resposta, mas pela cara do pessoal, percebia-se que tinham aprontado alguma. À noite, depois de muitas cervejas, ficamos sabendo do acontecido.

    Aconteceu o seguinte, o pessoal foi para Iriri ficar em uma casa alugada pelo Luciano Medina e mais alguns colegas dele. Todos eram casados e estavam lá com as respectivas famílias. A turma de Calçado era composta , entre outros, do Saragaia, Jiló, Beto e Fabinho do Posto Rezende, Cosminho, Calinha e Té do Alcênio e Lucianinho Di Giorgio.

   Ao final do segundo dia de Carnaval, já na manhã do terceiro dia, o pessoal resolveu ir ao mar para um mergulho. Afinal já haviam se passado dois dias e banho, com água doce ou salgada, nada. Então, todos ao mar ! E lá foi tudo mundo só de cueca. Foi tudo vapt-vupt, porque senão o efeito da bebedeira ia todo p'ro fundo do mar.

    Chegaram na casa alugada e ainda estavam todos dormindo. A fome começou a falar mais alto e então resolveram fazer uma sopa. Afinal tinha batata, chuchu, cenoura, macarrão, etc. Jiló, que trabalhava no Banestes de Marataízes e morava sózinho, já conhecia, segundo ele, os segredos da culinária. Não era nenhum Hugo Celidônio, mas sopa de entulho ele sabia fazer como ninguém.

    Jiló distribuiu as tarefas. Cada um foi descascando e picando os ingredientes da forma que sabiam e do jeito que o estado de cada um permitia. Tudo sob orientação do mestre.

    Os ingredientes "devidamente" descascados e picados, foram jogados na panela com água até o meio, junto com o macarrão. Agora era só acender o fogo e esperar que tudo cozinhasse bem. Saragaia e Fabinho, que estavam num canto da cozinha, bebiam as últimas cervejas que encontraram na geladeira e apostavam que aquela sopa não ia dar certo.De repente Jiló se lembra de um detalhe importante. Tinha esquecido do sal. Procura por toda a cozinha e nada. E agora ? Saragaia e Fabinho, notando um certo desânimo do Jiló, resolvem ajudá-lo.

   - Pão de sal serve, Jiló ? Perguntam.
   - Serve só para engrossar a sopa, seus burros. Disse o Jiló com toda propriedade.

    Os legumes já estavam quase todos cozidos, o macarrão desmanchando e o sal nada. Veio então a solução ! Saragaia sugere ao Jiló que seja misturada na sopa algumas cuecas. Jiló dá um sorriso de superioridade e fala para o Saragaia que ele não entendia nada mesmo de cozinha. Ele estava precisando de sal e não de condimentos para dar gosto na comida ! Além do mais, sopa que ele fazia não levava condimentos !

   - Deixa de ser burro, Jiló ! Disse o Saragaia. Esqueceu que fomos no mar. Nossas cuecas estão limpas, mas impregnadas de sal.

    Contra aquele argumento poderoso, Jiló nem discutiu. Foi o primeiro a tirar a cueca e mergulhá-la na sopa. Uma cueca só não teria sal suficiente e quem teve a idéia foi chamado a colaborar. Lá se foi a cueca do Saragaia. Fabinho, que procurava alguém para dobrar a aposta feita com o Saragaia, também foi convocado a colaborar. Mais uma cueca na sopa.

   - Pronto, tá bão, disse o Jiló. Mais cueca vai salgar muito !

    Finalmente o pessoal da casa começa a acordar. Primeiro apareceu o Luciano Medina.

    - O que que vocês estão fazendo no fogão ? Perguntou. - Uma sopa de entulho, disse o Jiló Luciano abre um sorriso e conta um segredo. Olha gente, o pessoal aqui da casa ia expulsar vocês. Nos dois primeiros dias de Carnaval vocês só fizeram bagunça, sujaram a casa, não lavaram os pratos e não ajudaram na cozinha. Mas agora, com essa sopa, acho que serão
perdoados. - E aí Jiló, quando fica pronta a sopa ? Pergunta Luciano, esfregando as mãos.

    - Calma ! Colocamos a couve agora, disse o Jiló.
    - Pôxa, vocês compraram couve ? Que beleza !, exclama Luciano, contente da vida.

    Passado alguns minutos, grita o Jiló: A sopa tá pronta !. O avanço foi geral. Praia da uma fome danada, né não ? A primeira reclamação veio do Luciano.

    - Ô Jiló, eu não tô achando couve nesta sopa.
    - Passa a concha no fundo da panela, disse Jiló.

    Luciano encheu novamente o prato. Dessa vez veio a
couve.

    - Que diabo de colve é essa, Jiló ? Pergunta Luciano, já
meio cabreiro.

    - Não deve ter cozinhado o suficiente, respondeu Jiló, tentando dar um ponto final no assunto.
    - Mas, e essas listras aqui ? Tá parecendo um.............., uma......CUECA!?.
    - Seus f.d.p.. Sumam da minha reta. Que o diabo os carreguem. Vocês me pagam. Luciano desfiou todo o seu repertório de xingamentos.

    O pessoal acabou expulso da casa. Mas de uma coisa Luciano não podia reclamar: A sopa tava boa !

    E assim, na tarde do terceiro dia de Carnaval, as ovelhas desgarradas chegam para brincar no Carnaval de Calçado.


GILBERTO VIEIRA DE REZENDE



 

 


 

 


 

 

 

 

 

 

 

 

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