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A CADEIA PÚBLICA DE CALÇADO

   Ela ficava à esquerda la' em cima ao final da ladeira que ia para o Colégio de Calçado.
   Quando criança, por muito tempo meu pai (Jeconias) foi o delegado de polícia que depois foi substituído pelo Antonio Lizador. O braço direito do meu pai era sempre o sub-delegado Vantuil Fonteboa. Pessoa que tem um coração que não cabe no peito de tanta bondade. Figura admirável na minha infância e até hoje. Lembro-me que certo dia estava na praça e passou um rapaz com uma fieira de piaus bonitos. Fiquei encantado com os peixes. Então imaginei e disse ao rapaz: Vamos lá na delegacia que meu pai está lá e eu irei pedir dinheiro a ele para comprar os piaus. Seguimos ladeira acima e quando chegamos, procurei pelo meu pai e o Vantuil disse que ele tinha saído em uma diligência com o Delorme e o Sargento ou o Cabo Nilo, não me lembro.
   Nesse momento o Vantuil leu no meu semblante a decepção que tive e olhou para a fieira de piaus. Tiroudo bolso um pedaço de fumo e o seu canivete começou a cortar e preparar o seu famoso cigarro de palha.
Sentou na calçada e me perguntou:
    -Almir o que você está querendo com o seu pai ? Se for para ficar com os peixes pode pegar do rapaz que eu acerto. Eu desconversei, fiquei meio sem graça e o rapaz complementou:
    - É sim 'seu' Vantuil e estou vendendo por três cruzeiros. Então o Vantuil tirou do bolso três notas de 'Um Cabral' amarelinhas e verdes e entregou ao rapaz. Eu peguei a fieira de piaus e desci ladeira abaixo feliz da vida.
   Em uma determinada época , a responsabilidade de alimentar os presos foi concedida ao meu pai pelo Estado.
   Então na minha casa foi admitida uma cozinheira para ajudar na preparação. Eram seis a dez marmitas, por cada refeição que eu levava numa cesta e colocava nas costas. Todo dia lá pelas onze da manhã e as dezoitohoras eu ia levar a comida. Acho que é por isso que fiquei com problemas na coluna hoje. (risos).
   Certa vez, estava tomando banho no rio lá no 'seu' Bianor junto com Paulinho, Italiano, Dêgo, Marquim do Tião Machado, Tião do Manequim, Moreira, etc, e a brincadeira de pique dentro d'água estava animada.
Quando me deparei com as horas estava meio tarde. Lembrei que tinha que levar as marmitas. Saí correndopara casa e quando cheguei já estavam preparadas me aguardando. Tomei um pito da minha mãe e parti pracadeia. Quando estava na metade da ladeira quase chegando, tomei um tropeção e as marmitas cairam no chão. Algumas abriram e vi um ovo no meio do calçamento. Então pensei. E agora o que faço ? Imediatamente peguei o ovo do calçamento com todo cuidado, dei uma soprada nêle pra tirar a areia e coloquei de volta na marmita. Ao chegar na cadeia distribui as marmitas e fiquei esperando os presos jantarem para eu levar de volta. Tentava disfarçar, mas fiquei atento ao que êles conversavam:
   - É , acho que hoje não cataram o feijão direito, acabei de mastigar uma pedra.
   Eu fiquei na minha, disfarçando, olhando para a palmatória amarela que ficava pendurada na ante-salada entrada das celas. Nunca comentei com ninguém com mêdo da minha mãe.

ALMIR LOBO DE AGUIAR , Vitória-ES - Setembro de 2003.



 

 


 

 

 

 

 

 

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