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A Galinha Adestrada do Carlito  


   Carlito, para quem não sabe, é meu primo Carlos Eduardo Vieira de Rezende. Também conhecido, segundo um achado arqueológico do Almir Lobo, como Fefeu, irmão do Paulo Legal. Para se ter idéia da importância temporal do achado do Almir Lobo, na época Fefeu não era apelido, era alcunha !

Bem, feita a devida apresentação, vamos passar para história da galinha adestrada do Carlito. Mas, antes, devo deixar bem claro que, por sermos vizinhos lá em Calçado, eu fui testemunha ocular de boa parte das aulas de adestramento que o Carlito aplicou à Galinha.

Reparem que não escrevi o nome da ave com letra minúscula. A danada tinha nome composto e era de raça. Galinha Cocóta era seu nome. Como eu não vi o início do adestramento, acho que aquela Galinha metida a besta nasceu caipira, e de tanto stress no início do adestramento, ficou branquinha. E se comportava como tal. Até o cocoricocó dela era mais fino, tinha uma certa compostura. A crista vivia empinada Era muito metida a besta !

Pois é, vamos deixar a implicância com a Galinha Cocóta para lá, e falar do que interessa. Carlito estudava de manhã. Todos os dias, na parte de tarde, ele descia a escada que levava para o quintal, onde ficava o cercado da Galinha Cocóta. Começava o adestramento lá pelas 15:00 hs e terminava às 17:00 hs, pontualmente, para alívio da avezinha.

Depois de vários meses, algumas angustiosas sessões e alguns afagos na crista ( quando a ave realizava as tarefas com perfeição ), a Galinha Cocóta aprendeu a obedecer ordens do Carlito e a realizar algumas tarefas. Coisa simples, como veremos a seguir.

A primeira coisa que a Galinha Cocóta aprendeu foi, ao ver que o Carlito estava se aproximando do cercado, ela se punha de pé, sobre um pé só. A danada tinha um equilíbrio perfeito. Podemos dizer, com absoluta certeza, que de labirintite ela não sofria. Eu tenho a impressão, até hoje, de que a idéia inicial do Carlito era fazer com que a Galinha Cocóta ficasse de pé e em sentido. Mas se deu por satisfeito só com a posição de pé e ereta e com uma perna só.

A segunda lição foi, quase, uma conseqüência do aprendizado da primeira. A Galinha Cocóta, após se por de pé e sobre um pé só, tinha que sair pulando com uma perna só. Ia de um canto a outro do cercado e voltava. Tinha umas pernas vigorosas, aliás, minto, tinha uma perna vigorosa - a perna direita, que, devido ao esforço sobregalináceo, ao final da apresentação tremia mais que vara verde. A perna esquerda não era atrofiada, mas um pouco mais fina, por motivos óbvios.

A terceira lição era mais tranqüila. Carlito ensinou a Galinha Cocóta a deitar de lado e com os olhos fechados. Era uma cena até meiga. A gente via que, após realizar as duas primeiras lições, a Galinha Cocóta até aparentava uma certa alegria em realizar aquela. As vezes a avezinha caia em um sono profundo.

As duas últimas lições foram as que mais trabalho deu ao Carlito. Também, como veremos a seguir, fugiam totalmente das características anatômicas dos galináceos.

Quarta lição. A Galinha tinha que, estando de pé e sobre um pé só, fazer cocô como cachorro faz xixi nos poste, mas sem abaixar as penas do rabo. Podia, até, bater uma das asas para manter um certo equilíbrio. Deu muito trabalho essa lição. Invariavelmente a Galinha caia de lado. Mas, devido a persistência do Carlito e da força de vontade da Galinha Cocóta, a lição foi aprendida. Tão bem aprendida que a Galinha não podia passar próximo ao esteio do galinheiro que, levantava a perna e pimba. Acertava em cheio.

Quinta e última lição. Carlito pôs na cabeça que a Galinha Cocóta tinha que botar ovo de perna para cima. Deitava a avezinha de costa e a deixava ali na posição, até sair o ovo. A Galinha Cocóta ficou uns quatro dias sem botar um ovo sequer. Não tinha jeito, naquela posição parecia impossível para qualquer galinha botar ovo. Além de ir de encontro a qualquer padrão de racionalidade, tinha a lei da gravidade que jogava contra. A Galinha Cocóta não tinha força para expulsar o ovo e, ainda, vencer a força da gravidade. Foi um sufoco mas, de novo, devido a persistência e a força de vontade de ambos, Carlito e a Galinha Cocóta triunfaram.! No fim do quarto dia, a Galinha botou um ovão, que só vendo para acreditar. Tinha uns riscos de sangue na casca, mas era porque, devido ao esforço, o sangue concentrou muito na região anural. Coisa sem importância, em vista do espantoso feito !

Enfim, Carlito havia conseguido adestrar a Galinha Cocóta. Com certeza, Carlito é o maior adestrador de galináceos que Calçado e, quiçá, o Brasil já viram !

Com o passar dos anos, e as lições sendo repetidas todos os dias, a Galinha Cocóta ficou meio, como vou dizer ..., digamos ... confusa. Acho que até mesmo esclerosada. A gente ia no cercado e via a Galinha Cocóta ora correndo com um pé só, ora de pernas para cima e, ao que parecia, fazendo o que mais gostava, acertando o cocô no esteio, que ficava no centro do cercado.

Acredito que a Galinha Cocóta tenha morrido sem ter certeza, depois de todo aquele aprendizado, se ela era mesmo uma galinha da gema, ou um cachorro ou mesmo um saci pererê. Ou, quem sabe, tinha nascido mesmo com aquilo para lua ?

Para quem possui um ser irracional como sendo de estimação e, sendo este ser uma galinha, e queira adestrá-la, Carlito está aprontando o curso de adestramento de galináceos, que será publicado em fascículos, no total de 5 fascículos. Na compra do quinto e último fascículo, acompanha um CD-ROM com animação de todas as lições.


GILBERTO VIEIRA DE REZENDE

Uma homenag......, digo, uma galinhagem ao Carlito.




 

 


 

 

 

 

 

 

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