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UM
PRESENTE PARA O CRISSAF
Vou
começar falando de uma figura "impoluta" do anedotário
de Calçado. Primeiro citarei seu apelido, pelo qual, coisa
rara de acontecer nas cidades do interior, era pouco conhecido
- Francisco Antônio. Chamando-o pelo seu verdadeiro nome,
todos o reconhecerão - Faísca.
Faísca,
juntamente com o Jiló, são nomes tão conhecidos
em Calçado, que dispensam a tradicional referência
à arvore genealógica da família, tão
comum nas pequenas cidades - filho de fulano ou de fulana, neto
de cicrano e etc.
Mas,
nesta história que vou contar, o Jiló ficou de fora.
È uma pena, porque se estivesse presente certamente o Crissaf
xingaria muito mais que xingou.
O
ônibus que partia de Vitória, com destino final em
Bom Jesus do Norte, passava em Calçado à noite,
por volta das 20:30 - 21:00 hs. Numa noite, com clima agradável,
mas mais para fria, típica daquelas do final do outono
em Calçado, estava eu conversando com o Faísca na
porta do bar do pai dele, no topo da ladeira da Dona Dulce, quando,
num estálo de ousadia e molecagem, Faísca tem uma
daquelas idéias estapafúrdias.
Estávamos
sentados na soleira de uma das portas que dá frente para
a ladeira. O piso do assoalho do bar era de tábua corrida,
mas entre uma tábua e outra havia cada greta que por elas
passavam, tranquilamente, baratas e ratos ( para desespero do
Ronaldo Castro ). De repente, saem pela greta 03 ( três
) filhotinhos de rato. Pelo tamanho, podia-se imaginar que tinham
poucos dias de nascidos. Neste momento Faísca teve a luminosa
idéia.
-
Vamos fazer uma brincadeira com o Crissaf. Afirmou Faísca,
já dispensando minha opinião.
- O que que você vai fazer ? Perguntei, vendo
aquele sorriso maroto estampado no rosto.
- Vou mandar um presente para o Crissaf. Espera aí.
Pegou um filhotinho de rato e saiu correndo para dentro do bar,
em direção à sua casa, que era contígua
ao bar.
Faísca voltou todo sorridente, com uma caixinha
de presente, papel de embrulho e uma fita vermelha. Sentou novamente
na soleira da porta onde eu estava e, rindo muito, explicou o
que iria fazer.
-
Vou esperar o ônibus de Vitória passar e vou pedir
ao motorista que entregue uma encomenda para o Crissaf. Disse
o Faísca, depois de um acesso de riso.
- Não entendi direito o que você falou,
Faísca. O que que você vai fazer ? Perguntei.
- Vou pedir ao motorista do ônibus que entregue
uma encomenda para o Crissaf. Vou falar para ele ( o motorista
) para entregar ao Crissaf e dizer que era um presente do Besouro
( apelido do Marcos Crissaf, filho mais velho do Crissaf e irmão
do mais famoso filho, o Caçapa. ). Disse o Faísca,
ainda com um ataque de risos.
A
caixa ficou muito bem embrulhada, parecia mesmo uma caixa para
presente. O ônibus passou no horário. Faísca
fez um sinal para o motorista, pedindo para esperar um pouco mais.
Entregou a caixa de presente e pediu ao motorista que, ao descer
a ladeira, fizesse uma parada em frente ao bar do Crissaf e entregasse
a encomenda, dizendo que era um presente do Marcos.
Conforme
o combinado, o motorista parou em frente ao bar do Crissaf. Deu
uma buzinada e logo apareceu o Crissaf. Entregou a encomenda e
disse que era um presente do filho Marcos, de Vitória.
Crissaf agradeceu e entrou bar adentro com um sorriso de orelha
a orelha.
O
pessoal que jogava baralho no reservado, que possuia uma porta
que dava de frente para o balcão do bar, perguntou para
o Crissaf o que que era aquilo.
-
Meu filho Marcos mandou um presente lá de Vitória.
Deve ser um relógio e eu estou mesmo precisando de um.
Êta menino bom ! Exclamau Crissaf, todo orgulhoso.
- Pelo jeito deve ser um relógio de bolso,
o meu preferido. Crissaf balançava a caixa e sentia alguma
coisa sacolejar lá dentro.
Crissaf
chega no balcão e começa a abrir a caixa, com todo
o cuidado. Desfaz o laço da fita e, em seguida, descola
o durex que prendia o papel de embrulho. Pega a caixa e da mais
uma sacudida. - É, só pode ser um relógio
! Exclama mais uma vez, todo feliz.
Coloca
a caixa sobre o balcão e abre a tampa. Sai de dentro da
caixa um filhote de rato, tonto e assustado, e passa a correr
por todos os lados, sobre o balcão.
-
Esse f.d.p. é meu inimígo. Por que que ele não
enfia esse filhote de rato com caixa e tudo no........ Aquele
f.d.p do motorista, por que não enfia aquele ônibus
no........Deve ser tudo vascaino, essa cambada de f.d.p que tem
raiva do Zico. E vocês ai do reservado, seus f.d.p, vão
rir da p.q.p. Pode tratando de acabar o jogo, que hoje vou fechar
o bar mais cedo, seus viados que vem aqui só para me encher
o saco. Esse prefeito tem que mandar prender esses f.d.p que não
tem nada para fazer. Essa porr..... desse prefeito que também
não faz nada. É por isso que eu gostava do Carlos
Lacerda. Matava tudo que era vagabundo que aparecia. E tem mais....
f.d.p....f.d.p.....f.d.p..... etc.
Nunca
vi o Crissaf xingar tanto.Mas ele xingava sem raiva. No outro
dia era o primeiro a lembrar do caso e ria que se acabava.
Faísca
ficou na porta do bar de seu pai, Tiãozinho,rindo de rolar
na calçada.
GILBERTO
VIEIRA DE REZENDE

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