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Qué Que Empurra ?


José Venâncio ou simplesmente Zé Venâncio, filho de Vicença e morador da Fazenda Velha, já muito bem descrito numa crônica do Carlito, era a humildade em pessoa. Muito religioso, não faltava a uma missa.

Certa feita, voltando de uma missa noturna, caminhava tranqüilamente pelo acostamento da estrada Calçado - Bom Jesus. Na altura da fazenda de meu tio, em frente ao curral, Zé Venâncio vê um carro parado no acostamento. Não dava para ver quem estava dentro do veículo, pois no seu interior estava tudo escuro e os vidros se encontravam muito embaçados.

Chegou mais perto e viu que o carro chacoalhava muito. Agachou para ver por debaixo do veículo, na esperança de encontrar algo que explicasse o por que de tanto sacolejo. Para seu espanto, não havia nada por de baixo. Entretanto, ao apoiar as mãos na lateral do veículo, para se colocar de pé, ouviu o que pareci ser o sons vindo do interior do carro.

Zé Venâncio não tinha medo de escuro, pois desde quando se entendia por gente, já se acostumara a enxergar na escuridão. Mas, como era muito religioso e sabia de cor muitas rezas da Igreja Católica, principalmente as que se referiam à Nossa Senhora Aparecida, sua santa de devoção, não pensou duas vezes para solicitar à sua santa, através de uma oração, que o ajudasse a desvendar aquele mistério do carro se balançar sozinho.

Chegando mais próximo do vidro dianteiro direito do veículo, Zé Venâncio pôde ouvir mais nítidamente o que já não seriam mais simplesmente sons, mas cochichos, murmúrios ditos em um tom de voz muito baixo, quase inaudíveis. Ainda sem entender muito bem o que diziam, Zé Venâncio quase cola o ouvido no vidro da porta do carro e, então, ouve com mais clareza algumas palavras soltas, arfadas, retiradas de uma frase meio truncada, espaçadas por pequenos períodos de absoluto silêncio. Eram frase do tipo:
" .......Isso ! Agora...... vai.... "
" .......Não.... não.... não.... Concentra..... vai.... "
"........tenta....(arfg). mais....(arfg).... uma ....(arfg)....vez....."
"........Não ....consigo! Acho.... que não vai dar !"
".......Ah, não!. Tenta ... tenta mais uma vez, vai!?

Achando que quem se encontrava dentro do carro estava precisando de alguma ajuda para fazer o carro funcionar, Zé Venâncio não pensou duas vezes. Bateu com a ponta do dedo no vidro da porta. Uma batida única e seca . Como num passe de mágica, o carro parou instantâneamente de balançar. Não se ouvia mais nenhuma voz. Passaram-se alguns minutos e nada da porta do carro abrir ou, pelos menos, o vidro ser arriado.

Zé Venâncio, então, insistiu. Deu três batidas no vidro, com a falange dos dedos, e a mão fechada. Finalmente a porta foi destravada e, lentamente, foi-se abrindo. Muito educado, Zé Venâncio foi logo falando, do seu jeito característico , bem simplório:

"É...Obrigado, né. Dá licença! Qué que empurra .....?"

Antes que a frase fosse concluída, o homem que estava dentro carro fez um movimento brusco, abrindo a porta e, num átimo, pula na frente do Zé Venâncio e, com as duas mãos espalmadas vai de encontro ao peito do Zé Venâncio, empurra-o sobre o asfalto e, para arrematar, desfere alguns chutes no trazeiro. Entra no carro e sai em desabalada carreira.

No outro dia, Zé Venâncio vai lá em casa, já que tinha tratado com minha mãe de varrer e capinar o quintal. Todo arranhado nas mãos, no rosto e na cabeça, mamãe pergunta o que tinha acontecido. " É...madrinha, agradecido, né ! Fui perguntar se podia empurrar o carro enguiçado na estrada ontem à noite e o motorísta, nervoso, não queria ajuda, não! Jogou eu para o asfalto, e entrou no carro. Mas, Graças a Deus e a Nossa Senhora Aparecida, o carro funcionou e ele foi embora".

Gilberto Vieira de Rezende



 

 


 

 

 

 

 

 

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