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A
REPÚBLICA DOS RAGGI
O verão daquele início de ano
estava de rachar e uma parte da turma, que se encontrava nas praias
entre Marataízes e Guaraparí, já discutia
os planos para o carnaval em Calçado. Acho que aquele calor
influenciou na disposição do pessoal em pensar num
modo diferente de como enfrentaríamos a maratona do carnaval.
Como
todos sabem, em Calçado para cada bar que se visita, é
uma ladeira que tem que ser escalada. È um sobe e desce
desgastante para quem não se encontra em perfeito estado
de conservação. Mas, como a natureza é sábia
e a física veio ao mundo para ajudar, a lei da conservação
de energia faz a sua parte e, no fim, a nossa energia se mantém
constante.
Pensando
nessas e em outras bobagens, tudo fruto de excessos alcoólicos,
ventilou-se a idéia de arranjar uma casa em Calçado,
onde todos ficaríamos concentrados durante os festejos
de Momo. A princípio, a idéia não teve muita
aceitação mas, a medida que as horas iam passando
e a quantidade de cervejas vazias já fazia voltas na mesa,
chegou-se à conclusão que podia ser uma boa idéia.
O
problema, agora, era arranjar uma casa que fosse grande, pois
pelas contas tinha mais de 20 inquilinos na lista. Por mais que
se pensasse, ninguém lembrava de uma casa grande e vazia
disponível em Calçado. Já no desespero, chegou-se
a pensar em propor ao Lineu Tatagiba o aluguel de parte do casarão
da família, que ficava no bairro da Vala. Não daria
certo. A logística de transporte da casa até o Montanha
Clube não funcionaria. Tinha que ser uma casa mais perto.
Todos concordamos.
Finalmente
deu-se a luz ! Zé Augusto Raggi lembrou que o casarão
da família Raggi se encontrava vazio. Mas havia dois problemas,
o Luiz Raggi tinha que aprovar a idéia e o caseiro aceitar
a situação. Consultado, Luis Raggi não só
gostou da idéia como também pediu para incluir o
nome dele na lista. O caseiro coçou a cabeça, já
prevendo que o coreto dele ia ficar bagunçado naqueles
dias de carnaval. Mas fazer o que, né, os donos aceitaram!
Chega
a semana do carnaval e começam os preparativos para ocuparmos
o casarão. Como não tinha cama para todos, quem
fosse por último tinha que levar seu próprio colchão.
Foi rascunhada a lista dos inquilinos, começando pelos
donos da casa, para não ser deselegante: Luiz e Zé
Augusto Raggi, Osvaldo Malheiros ( o Boêmio ), Rogério
Malheiros, Adésio, Coronel, Bastião da Magali, Ronaldo
Castro, Renato Abusado, Orlando Lindão, Jiló, Piriquito,
Zé Maria Ferrugem, Pedrinho Melo, Toinha, Fernando ( colega
de Toinha, de Niterói ), Carioca, Álvaro Medina,
Juninho e eu. Até sexta-feira, era esse pessoal que estava
relacionado. Quando começou o carnaval, acho que a quantidade
de inquilinos deve ter aumento em 50%.
Agora
era preciso fazer as compras para abastecer a despensa. Fizemos
umas cinco viagens à Bom Jesus. Depois de cada viagem,
verificávamos a despensa e chegávamos à mesma
conclusão : É pouco. Ainda vai faltar !. Voltávamos
à Bom Jesus e comprávamos mais. A despensa estava,
finalmente, cheia. Havíamos comprado o suficiente para
os 4 dias de canarval e para o apronto da sexta-feira: Whisky,
Vodka, Campari, Run Motilla, Cachaça no côco, batida
de pêssego, cerveja em lata, cerveja em garrafa e água
mineral ( não se pode esquecer da ressaca ! ), Coca-cola
( para fazer Cuba Libre ) e Fanta Laranja ( para fazer porradinha
).
Pronto. Não faltava mais nada para aqueles 5 dias mágicos
que seriam vividos na República dos Raggi.
Concentramos
na sexta-feira. Ao meio-dia de sábado, já havia
tanto movimento em volta da República que ali parecia um
clube. Apesar do casarão pertencer à família
Raggi, naqueles 5 dias de carnaval a República seria comandada
pelo Boêmio ( Osvaldo Malheiros ), com a sua inseparável
peruca prateada. Era quem daria as ordens e poria ordem naquela
zorra.
A
República ficava no alto de um morro e para chegar lá
era preciso subir uma ladeira respeitável. Em frente ao
casarão tinha uma árvore enorme, e era sob essa
árvore que distribuímos algumas mesas e ficávamos
a espera dos primeiros acordes da banda dos Sá Viana, no
Montanha Clube.
Sábado
à noite. Começou o carnaval. Para muitos era a primeira
noite. Nós já estávamos na segunda noite.
O Montanha apinhado de gente. Nos intervalos do baile, o trânsito
para se chegar nos banheiros e no bar era encarado com uma certa
fleuma de ..... bêbado. Fazer o que ? Salão, bar
e banheiro, este era o trajeto. Não necessariamente nesta
mesma ordem.
4:30
da manhã de domingo. Termina o primeiro baile de carnaval.
Uma parte dos inquilinos da República já havia chegado.
Quando chegamos, encontramos o Djalminha ( Piriquito ) sentado
na soleira da porta, meio chamuscado, meio desolado. Aliás,
minto, totalmente chamuscado e meio desolado. Perguntamos o que
tinha havido no Montanha. Com muito esforço e a língua
meio enrolada, o Piriquito conseguiu balbuciar algumas palavras.
No Montanha nada, o problema era dentro da República, mais
precisamente na despensa. Segundo o Piriquito, ninguém
conseguia pegar nada na despensa, porque o Jiló não
deixava.
Vamos
fazer um parêntesis aqui para explicar a atitude do Jiló.
Não sei onde estávamos com a cabeça. O juízo
havíamos perdido a poucas rodadas de cerveja atrás,
mas o Jiló foi designado para tomar conta da despensa.
Era ele quem controlaria o nível do estoque das bebidas
e para isso ninguém estava autorizado a pegar mais de uma
unidade por vez.
Lembram
daquela fábula que tinha galinha, galinheiro e raposa ?
Pois bem, o Jiló foi mais longe. Naquela primeira noite
de carnaval, ele não foi ao Montanha. Ficou na despensa
tomando, literalmente, conta das bebidas. A medida que ia esvaziando
os litros, ele os acomodava em volta dele e da mesa. Naquela altura
do campeonato, aqueles litros todos, muitos vazios e pouquíssimos
cheios, tinham um valor inestimável para o Jiló.
Eram, como ele mesmo dizia, seus pintinhos. Quem tentasse chegar
perto, ele avançava com uma garrafa na mão, e ameaçava
quebrá-la na cabeça de quem se atrevesse.
As
tentativas foram muitas para convencer o Jiló de que as
garrafas não eram pintinhos. Tudo em vão. O domingo
já com o sol a pino e nós com a despensa vazia e
um raposão bravo, só tivemos uma alternativa. Descemos
a ladeira da República, entramos no primeiro bar que encontramos,
tomamos a nossa cerveja da manhã e fomos nos socorrer junto
aos donos de bares da cidade, para recompor o estoque da despensa.
Jiló foi proibido de entrar na República. Só
podia ficar próximo à árvore e assim mesmo
sob vigilância cerrada do caseiro. Afinal de contas o carnaval
tinha que continuar. Os últimos três dias de carnaval
transcorreram na maior alegria, o Boêmio comandou garbosamente
toda aquela bagunça e Calçado abrigou, provavelmente,
a República mais animada que se tem notícias. A
República dos Raggi vai ficar na história dos carnavais
de Calçado.
GILBERTO VIEIRA DE REZENDE

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