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O ar fresco da noite penetrava pela varanda amenizando o calor
úmido; o pessoal estava assistindo algo na tv. Eu, deitada
em uma rede, balançava-a suavemente para sentir a brisa
tocar-me o rosto. Em frente à casa de D. Carly, morava
Júlia e mais ao lado Julieta tia do Almir Lobo, colega
de usina do Antonio Carlos. Talvez ambas morem lá até
hoje.
Júlia
era uma pessoa prestativa, lavava roupa para fora e se me lembro
bem torrava café para muitas famílias. Sempre que
chegávamos em Calçado podíamos sentir o cheiro
de café torrado da Júlia rodeando a casa. Morava
com as filhas e toda a família trabalhava muito em várias
atividades. Sempre fomos recebidos com muito carinho por todas
elas.
Julieta
era uma amigona de d. Carly. - Carly, ô Carly, você
viu o Sílvio Santos ontem? Ou... Você viu a novela
onde "fulano" encontrou com a "fulana"?
Quase
todas tardes as amigas se reuniam na varanda onde cada uma realizava
algum trabalho manual como o crochê, marca ou mesmo franjas
em toalhas. Ali, tagarelavam gostosamente sobre os acontecimentos
do dia. Como dizem por aí: Eram "unha e carne"
umas com as outras. Foram anos e anos de amizade e convivência
diária onde se ajudavam e se protegiam mutuamente.
Tudo
isso foi descrito para que se entendesse o que vem a seguir: Bem,
conforme dito acima, uma noite muito quente estava eu deitada
em uma rede enquanto o pessoal da casa assistia televisão
na sala e meu marido cochilava em uma cadeira no canto do alpendre.
A luz estava apagada para amenizar o calor da noite de verão.
D. Carly viu uma sombra deslizando furtivamente sob os nossos
pés e gritou: -Antonio Carlos, olha a cobra no seu pé
meu filho! Foi uma verdadeira loucura, nunca vi meu marido pular
tão rápido para cima da mureta da varanda.
A cobra assustadíssima escorregou velozmente e se refugiou
em um canto qualquer onde o pessoal via tv. Nós evidentemente
esperávamos que o homem da casa nos defendesse e partisse
para cima dela e... lá estava ele literalmente em cima
do murinho gritando para todos: -Cuidado aí gente, tira
o pé do chão, subam no sofá!
Júlia e Julieta preocupadas com tamanha gritaria na casa,
chegaram correndo e perguntaram: - O que houve aí pessoal?
Gritei: - Cuidado, olha a cobra, cadê as crianças?
-Aqui comigo respondeu d. Carly. Estávamos completamente
paralisados de medo ante a possibilidade de alguém sair
picado pelo asqueroso animal.
Para
minha surpresa Júlia mais do que depressa tomou um pedaço
de pau, não sei onde o encontrou, entrou porta adentro,
cutucou aqui e ali os cantos da sala e o réptil rapidamente
fugiu para a rua, já a essa altura dos acontecimentos repleta
de vizinhos e se escondeu em uma moita do outro lado. Júlia
não desistiu, perseguiu a cobra valentemente até
que finalmente a mesma se embrenhou em um matagal que ficava perto
de sua casa. Ainda com uma respiração ofegante,
disse-nos: - Ô gente é apenas uma cobrinha boba que
veio do mato! Não precisa ter medo não!
Passado
o susto, caímos na risada ante o pânico de todos
nós e... da "valentia" do meu marido. Ele nos
conta até hoje, que nunca esteve tão assustado,
pois tinha e tem horror a cobra. Agora digo uma coisa, se a cobra
fosse venenosa, se Júlia não estivesse ali para
nos ajudar e se dependesse dele... ai de nós...
VANDA
MARIA QUINTÃO DE SOUZA - 21/04/2004
acsodre.vandaquintao@terra.com.br
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