Petrônio, Coronel X e Melgaço

Parte I - Melgaço

Estamos no alto sertão de Pernambuco, lá pelas bandas de Afogados da Ingazeira. Água por ali, só se São Pedro, por descuido, chutar o balde. Uma seca danada que não vale uma gota sequer de choro, já que, neste lugar, qualquer desperdício desse líquido é considerado um sacrilégio. Na zona rural de Afogados da Ingazeira nasceu, cresceu de teimoso e viveu, sabe-se lá como, até os 15 anos, Melgaço. Um cafuso magro, olhos castanhos, pescoço curto e grosso e os cabelos lisos. Um perfeito exemplar de uma das miscegenações ocorridas no Brasil, entre negros e índios.

Melgaço desde pequeno mostrou ser uma criança esperta e, mais tarde, um jovem corajoso e brigão. Para ajudar sua mãe nos afazeres da cozinha, percorria, todos os dias, 10 Km para trazer água suja de um poço artesiano, até sua casa. Com isso, todo o tempo da manhã ficava comprometido. À tarde, era a vez de catar galhos secos na caatinga, para serem utilizados na manhã do outro dia, no fogão à lenha. Uma rotina cansativa que não sobrava tempo para pensar em estudo.

Verde naquela região só mesmo os cactos espinhentos, responsáveis por várias pontas pretas, já totalmente cicatrizadas, de espinhos encravados nos dedos das mãos de Melgaço. Às vezes, para não dizer quase o ano todo, havia a necessidade de cortar os cactos em pedaços para dar de comida a única cabrita que sobrou. O leite da cabrita não podia secar, era, muitas das vezes, a única refeição de Melgaço.

Ao completar 15 anos, Melgaço achou que deveria tomar uma decisão. Ou ficava ali naquele fim de mundo, onde nem São Pedro lembrava mais onde estava o balde, e enfrentava mais um período longo de estiagem ou, fazia o que já estavam fazendo muitos jovens das regiões vizinhas, pegava seu chapéu de couro, subia num pau de arara e partia para um lugar bem longe e desconhecido, chamado São Paulo.

Toda despedida é sempre dolorosa, ainda mais quando estamos deixando nossas raízes expostas e nossos vínculos com a terra se transformando em poeira, numa estrada só de ida. Agora sim, vale o choro da separação, num caminhão lotado e sentindo o gosto do sal da terra a escorrer-lhe rosto abaixo, desaguando numa boca de lábios serrados que, de quando em vez, abre uma pequena fresta para que a língua, em rápidas lambidas, alimente a sua dor.

São Paulo é tão grande, tão séria e tão sonâmbula, que Melgaço conseguiu ficar só 6 meses lá. Emprego até que não foi problema, havia conseguido ser vigia noturno num conjunto residencial de classe média. O problema era a distância de casa para o trabalho e a despesa com transporte coletivo. Ida e volta, eram mais de 100 Km. A sorte eram os restaurantes populares, com a refeição a R$1,00. Um dia foi até um posto de atendimento da prefeitura, que fazia a triagem dos emigrantes que chegavam a São Paulo vindos, na sua maioria do Nordeste. Imaginou uma desculpa para a assistente social de plantão e disse que tinha vindo parar naquela cidade por engano, pois seus parentes moravam era no Rio de Janeiro. Queria e conseguiu uma passagem só de ida para a Cidade Maravilhosa.

Rodoviária de Belford Roxo, na baixada fluminense. Melgaço desce do ônibus carregando somente uma sacola de supermercado contendo duas camisas, uma camiseta, duas calças bem surradas e um par de sandálias de dedo. Devia estar fazendo uns 39ºC à sombra e um formigueiro de gente trançava na frente de Melgaço. Sem saber para onde ir e com pouquíssimo dinheiro no bolso, o jeito foi sair perguntando para as pessoas onde pegar o trem para a Central do Brasil. Era para lá que a assistente social da Prefeitura de São Paulo havia sugerido que fosse, para procurar emprego.

O mês de janeiro na Cidade Maravilhosa é de derreter os miolos de tanto calor. A Central do Brasil fervia, literalmente. Os ensaios nas Escolas de Samba já estavam pegando fogo e todo mundo cantarolava o samba enredo de sua escola do coração. No final da estação Central do Brasil, Melgaço ouve um rapaz recrutando pessoas para ajudar a carregar um caminhão de cerveja e descarregá-lo na quadra de uma Escola de Samba. Aquela vaga era dele, os outros que brigassem pelas outras, pensou.

A quadra da Portela era imensa e havia mais dois caminhões descarregando bebidas. Descarregado o caminhão e recebido o combinado, Melgaço se distrai com aquela movimentação toda e não percebe o caminhão indo embora. Sem conhecer nada por perto, o jeito foi ficar dentro da quadra, sentado num canto e pensando no que fazer. O calor e o esforço despendido para carregar e descarregar o caminhão de bebida, contribuíram para enfraquecer o corpo. Daí para um sono profundo, foi coisa de poucos minutos.

Próximo das 19:00 h, quando o movimento em torno da quadra da Portela começava a esquentar, Melgaço foi descoberto por um dos seguranças. Interrogado sobre o que estava fazendo ali, tentou explicar que veio junto com o caminhão de bebidas e, após descarregá-lo, sentou para descansar e, pelo jeito, pegou no sono. Foi posto para fora do portão da quadra e ali ficou, mais perdido que cego em tiroteio, vendo o movimento.
Lá pelas 22:00 h, o mesmo segurança que o havia posto para fora da quadra, chega no portão e pergunta a um dos porteiros pelo nome de um outro segurança. A resposta veio rápida, o segurança havia faltado para ficar com o filho que se encontrava doente.

Melgaço ouviu a conversa e, instintivamente, gritou que ele poderia substituir o segurança faltoso. O chefe da segurança olhou para ele e, vendo que o movimento naquela noite seria grande, puxou-o pelo braço e explicou em rápidas palavras qual era o serviço. Por duas ocasiões naquela noite, Melgaço teve que intervir nas brigas e o fez com tamanha rapidez e eficiência, que chamou a atenção da diretoria da escola. Desse dia para frente e até os dias atuais, Melgaço trabalha como segurança na quadra do Grêmio Recreativo Escola de Samba Portela ( G.R.E.S. Portela ).

Há aproximadamente 3 anos passados, Melgaço se enrabichou com uma mulata da própria comunidade da Portela. Uma mulata fogosa e treteira que enfeitava todos os eventos na quadra da escola. Matilda tinha 17 anos, mas um corpo de mulher formada. Melgaço tanto insistiu, que um dia a mulata se mudou de mala e cuia para seu barraco.

Mas Matilda não era mulher de ficar sossegada em casa, cuidando dos afazeres domésticos. Ela gostava de festas, bailes e, principalmente, samba. Melgaço só foi apreciar samba com o passar dos tempos, de tanto trabalhar numa quadra de escola de samba. Ele gostava mesmo, e sentia uma falta danada, era dos repentistas lá de Afogados da Ingazeira. Também, de vez em quando, sentia vontade de ler uns versos de cordel. Não gostava de ler gibi e nem jornal.

Num belo dia de janeiro, num dos ensaios para escolha do samba enredo da Portela, Melgaço chega cedo na quadra para conferir se todos os efetivos da segurança já haviam chegado. Despacha os seguranças para assumir seus postos e assume o controle geral. Matilde só viria para a quadra mais tarde, pois estava acabando de fazer a prova de um vestido novo que usaria naquela noite.

Por volta das 23:30h, Matilda chega no portão principal da quadra da escola, dá um beijo em Melgaço e vai direto para o centro da quadra. Melgaço passa a mão pelo queijo e, por um instante, vendo aquele mulherão sambando, pensa que ele era um cabra da peste que tinha dado uma sorte danada.

Matilda estava deslumbrante e chamava a atenção de muita gente ali na quadra. Numa mesa isolada, próximo ao bar principal da quadra, encontrava-se um Coronel da reserva do exército. Sozinho e já meio alcoolizado, não perdia a oportunidade de puxar conversa com qualquer mulher que fosse ao bar, desde que desacompanhada. Num dos intervalos do ensaio, Matilda se dirigiu até o bar para tomar uma água. Pediu ao garçon uma garrafa e um copo. Antes que o caixa do bar falasse algo, o Coronel fez um sinal e pediu para debitar aquela água na sua conta. Matilda a princípio recusou, mas o Coronel insistiu de um modo tão galanteador, que não houve jeito de recusar. Agradeceu a gentileza e voltou para quadra.

O Coronel não era de dar ponto sem nó. Passou toda a noite fazendo galanteios para Matilda e elogiando a beleza de seu corpo escultural. Ao término do ensaio, muito discretamente, Matilda recebeu das mãos de um dos integrantes da bateria da escola, um cartão com os seguintes dizeres: CORONEL X ( Cel: 9999-8888 ). Põe o cartão dentro do soutien, se dirige ao portão principal, encontra-se com Melgaço e saem abraçadinhos para casa.

Encostado num dos pilares da cobertura da quadra, encontrava-se Petrônio, um neguinho retinto, exímio sambista, de corpo magro e quase sem recheio, vestindo uma calça branca, camisa florida, chapéu de palha e um par de sapato branco estalando de novo, que a tudo via. Vê, inclusive, quando o tal Coronel passou o cartão de apresentação a um dos ritimistas da bateria, para ser entregue à Matilda. Viu, também, que Matilda guardou o cartão do Coronel dentro do soutien. Quem não viu nada disso foi o Melgaço.

Parte II - Petrônio
Essa será a próxima estória...


GILBERTO VIEIRA DE REZENDE
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