Petrônio, Coronel X e Melgaço

Parte II- Petrônio


O ano de 1953 nem bem havia começado e Mariangela já sentia as viradas do futuro rebento em seu ventre. A cidade do Rio de Janeiro estava vivendo os preparativos do Carnaval. Mariangela passava a maior parte do dia no trabalho, trabalhando como doméstica em casa de bacana, em Copacabana. O rádio instalado sobre uma estante, localizada no quartinho dos fundos, só tocava marchinhas de carnaval e os sambas-enredos das grandes escolas. Sempre que ouvia um samba, Mariangela passava a mão por sobre toda a extensão da barriga, tentando acalmar o nenêm, que teimava em jogar as pernas para tudo quanto fosse lado, qual um mestre-sala de escola de samba em frente aos jurados.

Mariangela tinha 16 para 17 anos e desde os 14 anos já trabalhava fora, para ajudar a mãe nas despesas da casa. Desde pequena era quem ia, todos os dias, até a birosca do "seu" Portuga, um português de meia idade e vastos bigodes, comprar pão e leite para o café da manhã. A medida que o tempo passava, Mariangela, muito desinibida, ia ganhando a simpatia de todos no bairro de Santo Cristo. Aos 12 anos já era menina-moça e chamava atenção dos rapazotes.

Aos 14 anos, Mariangela fora trabalhar de doméstica em Copacabana, o que a impossibilitava de passar na birosca do "seu" Portuga, pois saía muito cedo para o trabalho e tomava café na casa dos patrões. Nessa época, dos 14 aos 16 anos, só aos domingos é que ela comprava os pães e o leite para o café da manhã, na birosca do Portuga. Após um ano de emprego, o corpo de Mariangela sofreu muitas transformações. Aos 15 anos estava uma moça formada e com todos os predicados que enchiam os olhos dos marmanjos, principalmente do Portuga, que não perdia uma oportunidade para elogiar a belezura de Mariangela. Isso sem falar nas vezes em que o Portuga deixava os pães e o leite sair por conta.

Com 16 anos Mariangela descobriu que estava grávida. Escondeu a barriga até quando dava, para não perder o emprego. A paternidade daquele neném ela sabia de quem era, mas não falaria para ninguém. Dona Sônia, mãe de Mariangela e futura vovó, bem que tentou saber o nome do possível genro, mas não obteve sucesso. Mesmo assim não deixou de apoiar a filha na gravidez. No início do mês de fevereiro de 1953, nascia Petrônio da Silva e Sônia, mulatinho bem formado, risonho e serelepe, filho de mãe solteira e pai desconhecido, menos da mãe.

O sobrenome Silva e Sônia dado ao Petrônio, foi o jeito que Mariangela achou de homenagear a mãe, dona Sônia, e, também, passar a impressão que Petrônio tinha pai e mãe. Aliás, Mariangela não criou nenhuma novidade em acrescentar um nome próprio ao sobrenome, pois este era um velho hábito das famílias ricas da corte portuguesa, nossos patrícios. Mesmo que sem querer e por vias tortíssimas, Mariangela deu a dica de quem poderia ser o pai da criança.

Como Petrônio nasceu quase na véspera do Carnaval de 53, já no primeiro mês de vida foi levado, pela mãe, para assistir o desfile das escolas de samba, na Praça Onze. Se, quando ainda nenêm de barriga, Petrônio já se revirava todo quando ouvia o som do samba, agora, ao vivo e a cores, o moleque parecia querer cair, literalmente, no samba. Haja muque para segurar os solavancos que o Petrônio dava no colo da mãe. Assim, Petrônio se tornou um apaixonado por samba e tudo que viesse a roboque: malandragem, bebida, mulheres, batuque e etc, não necessáriamente nesta mesma ordem.

A infância de Petrônio transcorreu sem maiores problemas, além dos que o cotidiano de uma realidade socioeconômica e cultural perversa podia permitir. Mas se tinha uma coisa da qual Petrônio não se conformava e nem aceitava, era ser chamado pelo apelido de "pois-pois". Esse apelido era a forma jocosa que os moleques das ruas vizinhas a dele o chamavam, em referência, possivelmente maldosa, a sua paternidade desconhecida que, a boca miúda, se dizia ser ele filho do "seu" Portuga. Podiam xingar o Petrônio de tudo quanto era apelido, mas se o chamassem de "pois-pois", ai a coisa ficava feia. O moleque se encrespava, chamava tudo mundo para briga, dava pernadas a três por quatro e nem se despenteava.

Ainda rapazola, Petrônio já se mostrava um exímio sambista no pé. Frenquentador assíduo da quadra da Estácio, não faltava a um ensaio de samba. Na falta de algum ritimista, lá estava Petrônio para substituí-lo. Se o instrumento era a cuíca, dava um verdadeiro show, fazendo com que a danada quase suplicasse de tantas variações de sons que tirava. Podia, se quizesse e a responsabilidade permitisse, ter se tornado mestre de harmonia da Estácio.

Mas a velha malandragem carioca, aliada a uma desinibição genética materna e uma boa e envolvente lábia, fizeram com que Petrônio não levasse nada a sério, pela facilidade com que conseguia as coisas que queria. Até com as namoradas ele não se preocupava, pois nunca namorou uma só por vez, eram duas ou mais do mesmo bairro e, as vezes, até da mesma rua. As brigas entre as namoradas eram constantes, e o que Petrônio fazia era rir da situação e consolar a que levou a pior na briga.

Uma vez, já rapaz formado na vida, Petrônio arranjou uma bela de uma encrenca. Resolveu namorar duas irmãs ao mesmo tempo, sem que qualquer uma delas desconfiasse que dividiam os lábios e outras partes do corpo de um mesmo homem. As irmãs moravam no bairro do Encantado, próximo a Santo Cristo, onde morava Petrônio. O namoro transcorria calmo e sem sobressaltos, salvo vez ou outra, quando uma das irmãs o convidava para passar o domingo na casa dos pais. A justificativa para a negativa ao convite vinha na ponta da língua, pois, para uma das irmãs, Petrônio dizia que na madrugada dos sábados, ele fazia um "bico" apitando o campeonato de pelada dos garçons, que acontecia nos campos do Aterro do Flamengo. No domingo ele não abria mão de ver, da geral do Maracanã, o seu flamengo jogar. Para a outra irmã, dizia que o sábado era consagrado a jogar futebol com os amigos lá na Ilha do Governador. Após a pelada, o time perdedor paga a cervejada e, já no finalzinho da tarde, tomam rumo de casa. No dominho ele não abria mão de ir até São Januário, ver o seu Vasco da Gama jogar.

Um dia, numa segunda-feira, o barraco do Petrônio caiu. Saiu estampada na primeira página do jornal O Dia, a foto de um torcedor triste, chorando a derrota do flamengo. Era o próprio Petrônio, numa foto à cores, nítida e num ângulo perfeito. Matilda e Cacilda, as irmãs enamoradas do Petrônio, ficaram passadas quando viram a foto no jornal. Tinham sido enganadas pelo mesmo homem e ao mesmo tempo. Cacilda jurou que, quando o encontrasse novamente, arrancaria o bilau dele e jogaria para o gato. Matilda se consolava pelo fato de, pelo menos para ela, Petrônio ter dito uma verdade. Ele era flamenguista. Um dia ela acertaria as contas com ele, podia apostar.

Petrônio nunca mais voltou ao Encantado. Passou a frequentar a quadra da Portela, para não correr o risco de encontrar as irmãs ou algum parente delas. No Encantado, a simples mensão do nome Petrônio causava um certo desconforto no ambiente. Matilda e Cacilda eram muito bem quistas no bairro, filhas de pai funcionário público estadual, que trabalhava no almoxarifado da Comlurb, e mãe do lar. Eram a simpatia em pessoa, além de muito bonitas, principalmente Matilda.

Passaram-se alguns anos e Petrônio, nesse ínterim, tinha mudado para o morro Chapéu Mangueira, passando a freqüentar com mais assiduidade os ensaios da Portela. Numa noite de ensaio do samba-enredo, quadra lotada, muito branco doente do pé e gringo dando nó nas próprias pernas, chama a atenção do Petrônio uma cena que se repetia a cada parada do ensaio. Um militar que se encontrava sozinho numa mesa, localizada nas proximidades de um dos bares da quadra, sempre que uma mulata escultural chegava no balcão do bar e pedia uma garrafa d'água, fazia um gesto para o bar-man. A mulata parava por alguns instantes na mesa do militar, dava um sorriso e ia embora. Pela distância não dava para distinguir a fisionomia daquela potranca, mas tinha alguma coisa nela que não era estranho ao Petrônio.

No final do ensaio, Petrônio encontrava-se posicionado próximo ao portão de saída, encostado num dos pilares de sustentação da cobertura da quadra. De onde estava, tinha uma visão geral da quadra e foi de lá que viu e reconheceu, num ângulo perfeito e a cores, a mulata escultural, que nos intervalos do ensaio ia até o bar e pedia uma garrafa de água mineral. Viu quando, na saída, o milico entregou um cartão a um dos ritimista e este o entregou a mulata. Viu quando a mulata recebeu o cartão e o colocou dentro do soutien. Viu quando a mulata saiu abraçada com um cabeça chata, segurança da quadra. Viu e não queria acreditar no que tinha visto. Aquela mulata escultural era a sua ex Matilda.

Que aperto no coração estava sentindo Petrônio naquele momento. Isso sem falar numa dor imaginária que sentia nas partes baixas, lembrando da promessa que tinha feito sua outra ex, a Cacilda, de lhe arrancar o bilau quando o encontrasse novamente. Matilda havia conseguido a proeza de ficar ainda mais bonita e boazuda do que era antes. Mas quem seria o cabeça chata em vias de ser corneado por aquele milico? Petrônio voltou para seu barraco cheio de perguntas não respondidas e com a sensação de ter perdido o melhor da festa.

Na próxima, o perfil do Coronel X.


GILBERTO VIEIRA DE REZENDE
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