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Começo dizendo aqui que esse caso não é meu,
mas pertence ao Antonio Carlos. Fato acontecido com ele nos anos
cinqüenta e se venho escrever sobre o mesmo, é com
a sua devida autorização. Achei interessante o que
me contou e conta até hoje nos almoços familiares
para os nossos filhos desde quando eram pequenos, portanto, todos
nós já sabemos de cor e salteado o que aqui vou
recontar para você leitor.
Havia
em Calçado uma banda de música comandada pelo maestro
Eupídio Sá Viana tio avô do Antônio
Carlos; quase toda a banda era composta de filhos e agregados.
Fazia apresentações em eventos importantes e uma
delas era na festa da cidade. O que mais o atraia, além
dos dobrados (música de marcha militar), muito bem apresentados
por sinal, era o garboso uniforme composto de um quepe elegante
e terno branco com botões dourados.
Duas
crianças, pertenciam à banda, um deles era o Pidinho
que tocava tarol, o outro era o Manuel Biscoito considerado por
todos o mascote da banda. Onde a mesma estivesse apresentando,
ali estava Manuel Biscoito acompanhado de seus pais d. Filhinha
e sr. Moacir Garcia impecavelmente elegantes.
Deixo
bem claro, esses meninos usavam o uniforme da banda e foi esse
o motivo pelo qual Antonio Carlos, desejava tanto tê-lo.
Certa
feita quando seu pai retornou de uma viagem a Campos, lhe trouxe
para sua surpresa, não um uniforme da banda, mas um outro
tão desejado e de igual valor para qualquer menino daquela
época: uma roupa de marinheiro branca. Tinha ancoras bordadas
na gola quadrada e o que mais lhe encantou, foi que a mesma, continha
os "maravilhosos" botões dourados, assim como
o uniforme da banda.
Domingo
de manhã, dia de escola dominical na Igreja Presbiteriana
de Calçado. Antonio Carlos levantou ansioso para exibir
a roupa de marinheiro e por isso mesmo, deitou-se mais cedo do
que de costume. A noite pareceu-lhe longa, interminável.
Quando acordou pode perceber que já havia movimento na
rua. Vestiu com delicadeza a sua nova roupa e apressou a mãe.
Saíram ambos como de hábito, pela rua do Canto em
direção à igreja. Acontece que nas mediações
da casa do sr. Valdemar Nunes, havia um esgoto aberto. Zé
Periá ali conversava animadamente com um grupo bem em frente
a essa vala. Ao ver Antonio Carlos gritou: - Ô "Antoin
Quinhento", aonde você vai tão elegante? - Estou
indo para a igreja, respondeu já atravessando a pinguela
de peito estofado marchando garbosamente sobre a tábua
em direção ao grupo.
Sua
mãe preocupada alertou-o quanto ao perigo de escorregar,
foi só dizer e o pé virou o que o fez cair literalmente
de cabeça na merda, conta ele. Zé Periá deu-lhe
uma vara de bambu para que saísse do esgoto. Com o brio
ferido e todo sujo você leitor sabe do quê, foi parar
no fundo do quintal para tomar um banho de creolina. O cheiro
insuportável perdurou mais ou menos uma semana. Nesse período
todos os amigos e familiares passavam longe, pois o "perfume"
ficou difícil de se tolerar. A roupa foi para o lixo e
sonho foi para esgoto abaixo. Quanto à banda desistiu do
sonhar vestir o seu elegante uniforme e se contentou daí
por diante apenas apreciá-la de longe.
VANDA
MARIA QUINTÃO DE SOUZA - 21/04/2004
acsodre.vandaquintao@terra.com.br
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