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Num
final de tarde em Calçado, encontrava-se o Crissaff nos
preparativos para a pescaria, que estava programada para acontecer
na noite daquele mesmo dia. Aproveitando que o movimento no bar
era pequeno, Crissaff subia e descia a escadaria existente atrás
do bar, que levava até a parte superior da casa. Escolhia
as varas, os anzóis e as iscas; arrumamava o embornal e
os apetrechos para a hora do lanche. Deixava como tarefa final,
já quase na hora de sair, a escolha das rãs, que
eram levadas numa pequena gaiola.
Já
quase na hora de partir para a pescaria, entra no bar o Lineu
Tatagiba. Vendo o Crissaff já todo paramentado, com calça
e camisa de mangas compridas, chapéu e embornal, Lineu
pergunta se poderia acompanhá-lo na pescaria.
-
Olha, Lineu, vai perturbar outro. Eu já estou de saco cheio
desses f.d.p que ficam aqui no bar me pertubando o dia inteiro.
Agora até na minha pescaria vocês querem me pertubar?
Hoje eu vou pescar sozinho. Vou lá na Vala e desço
o rio até a Fazenda Velha. A noite tá boa mesmo
é para pescar lá perto de Apiacá, mas estou
sem carro.
-
Que é isso Crissaf, eu estou falando sério. Eu também
estou cansado de ficar aqui fazendo nada e ouvindo esse pessoal
gritando na rua- Ô Lineu! Ô Lineu! Você não
disse que a noite estava boa para pescar lá perto de Apiacá?
Vamos até na ponte da Vala, eu pego o meu Jeep 52 e vamos
até lá.
-
Agora a conversa mudou de figura. Então vamos. Mas olha
lá, hem, sem aquelas conversas fiadas. Peixe gosta de silêncio.
Lineu
e Crissaff desceram a ladeira da dona Dulce e tomaram rumo do
asfalto. Depois da ponte, Lineu subiu em direção
a casa de seus pais, pegou o Jeep 52, esperou o Crissaff subir
e seguiram, então, para as proximidades de Apiacá.
Escolheram um remanso promissor do rio itabapoana, prepararam
o acampamento e lançaram os anzóis n'água.
O
tempo passava rápido e nada de um mísero peixinho
beliscar as iscas. Crissaff já havia percorrido um bom
trecho do rio e nada de peixe. Lineu havia pego um pialzinho de
nada. Lá pelas tantas, chateado com a situação
e já não aguentando mais ouvir as estórias
de pescaria do Lineu, Crissaff resolve desabafar.
-
Que desgraça! Será que esses f.d.p estão
jogando rede aqui no rio? Acabaram com os peixes! Vai ver que
o Zim Lima e o Cacau já passaram por aqui de barco a motor
e bombaram todo esse trecho.
-
Calma Crissaff. Pescaria é assim mesmo. O Zim Lima e o
Cacau estão lá para os lado do norte do estado,
caçando paca, tatu, cutia não. Esse rios daqui já
não têm mais tanto peixe. Pescaria boa é lá
no Mato Grosso.
-
Você já foi lá no Mato Grosso? O Dr. Roosevelt,
tio do Piriquito, já me chamou para ir lá, mas é
muito longe.
-
Aquilo lá que é lugar para pescaria, Crissaff. Fui
lá com o meu irmão Carlinhos e o Luciano Medina.
Tem peixe de tudo quanto é tamanho e peso. Nós pescamos.......
-
Ih! Pode parar, Lineu. Eu já sei que você vai falar
que entraram no rio cheio de piranhas e não escapou nenhuma.
Ahahahahaha
-
Estou falando sério, Crissaff. Não entramos no rio
de piranhas, mas que eu matei um jacaré de papo amarelo,
isso eu matei. Tinhamos acabado de entrar na barraca, quando ouvimos
um rastejar por perto. Saí da barraca e dei de cara com
o danado. Dei um salto estrêla ( Obs: Lineu foi discípulo
de Mestre Navalha, um afamado capoeirista da Baixa do Sapateiro,
em Salvador/Ba ) e peguei um bambu que estava no chão.
Fui direto no dorso do jacaré. Cravei o bambu e o bicho,
desesperado, deu uma rabanada que quase me acertou a canela. Corri
para pegar outro bambu, mas o desgraçado conseguiu voltar
para o rio.
-
P'ra que fui dar corda. Ô Lineu! Pensou o Crissaff.
Passaram-se os anos ...
O
bar do Crissaff estava movimentado. Atrás do balcão,
sentado num banco alto, encontrava-se o Crissaff contando as aventuras
de sua pescaria nos rios de Mato Grosso. Há cerca de um
mês atrás, Dr. Roosevelt convencêra o Crissaff
a passar 15 dias pescando nos rios de Mato Grosso. As histórias
se sucediam e cada uma com um peixe grande diferente. Mas a história
que o Crissaff mais gostava de contar era da pescaria que acontecia
numa ilha de bambu.
Num
trecho muito largo do rio, havia uma ilha onde só crescia
moitas de bambu. O pessoal ia de barco até a ilha e desembarcava
para fazer a pescaria. O mais interessante é que a ilha
se movia lentamente, ora em direção à margem
direita do rio, ora em direção à margem esquerda.
Segundo o pessoal lá da região, em anos passados,
houve uma enchente muito grande e quando o nível do rio
voltou ao normal, havia surgido um banco de areia bem no meio
do leito. E foi sobre esse banco de areia que cresceram as moitas
de bambu.
Crissaff
estava todo empolgado contando essa história da pescaria
na ilha de bambu, quando o Lineu entra no bar. Num bar cheio de
gente e com um pescador contando história de pescaria,
se entra o Lineu no meio, pode preparar o espírito porque
vem "causos' do arco da velha. Quando o Lineu ouve o Crissaff
falar da ilha de bambu, não se conteve e trava o seguinte
diálogo;
-
Olha, Crissaff, eu queria te agradecer. Essa cambada de gente
à-toa fica por ai espalhando que eu só falo mentira.
Agora eu tenho você de prova. Lembra quando nós fizemos
aquela pescaria lá no rio itabapoana, perto de Apiacá?
-
Lembro. Eu não pesquei nada e você só pescou
um pialzinho de nada. Até jogou fora o coitadinho. Mas
por que você quer me agradecer por isso?
-
Não. Não é por isso. Lembra que eu disse
que já tinha ido pescar no Mato Grosso e cheguei até
a matar um jacaré de papo amarelo? Finquei um bambu no
lombo dele e o desgraçado foi para o rio e afundou.
-
Eu me lembro. Mas o que tem o c... haver com as calças,
Lineu?
-
É para provar que a história do jacaré era
verdadeira. Depois que finquei o bambu no lombo do bicho, pensei
que havia matado o danado. Agora você é testemunha
de que o caso foi verdadeiro. O jacaré sobreviveu e foi
parar no banco de areia no meio do rio. Com o tempo, o jacaré
cresceu, o bambu brotou e criou várias moitas. Agora virou
uma ilha para pescador. Por isso que a ilha desloca de um lado
para o outro do rio. O danado do jacaré ainda está
vivo!
Todos
que estavam no bar do Crissaff gritaram, em uníssono:
-
Ô Lineu! Ô Lineu!
Crissaff
manda todos que estavam no bar para a p.q.p e encerra o expediente
por aquele dia. Só ficou aberta a porta do cômodo
da jogatina de baralho, onde estavam concentrados o senhores Nonô
Abdala, Germano Tatagiba, Antônio Carlos Di Giorgio e Mário
Rubio.
GILBERTO VIEIRA DE REZENDE
calcadense@bol.com.br
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