Hoje vou falar de um “Fuscão”, não
o “ Fuscão Preto”, que foi um sucesso, música
de “dor de cotovelo”. Vou falar de um fusca valente,
desses que não entregam os “pontos”. Faz
jus a marca Volkswagem. A bem da verdade já deu o que
tinha que dar. Merecia um troféu por seus serviços
prestados. Mas ainda esta a trilhar as estradas de chão.
Não deixa seu dono na mão.
Procurei saber um pouco mais de seu dono e de sua trajetória
de vida, que esta mais para sucata que outra coisa:
Ano: 1980 (nem tão velho assim!);
Dono atual: Geraldo Ribeiro:
Idade: 77 anos, agora em junho;
Profissão: já fez de tudo nesta vida, como dizia
meu pai “sete profissão, catorze necessidade”.
Ao lado de sua fiel companheira, a Maria. Sim simplesmente Maria,
tal qual a Mãe do Redentor. Muitos filhos, mais precisamente
treze, criaram nove, atualmente oito. Muitas alegrias, muitas
dores. E ali, ao lado do esposo, superando tudo. Mãe
amorosa ao extremo. Bem, vamos falar do fusca, ou dela? Se fosse
dela não teria fim, mas o fusca já está
no fim. Sr. Geraldo, depois de passar o ponto comercial para
os filhos, não consegui ficar “a ver navios”
se bem que Calçado nem tem navio, no maximo um bote encalhado
nas águas rasas e tristonhas do seu pequeno rio. Então
ele passou a vender leite. Bem de madrugadinha vai ao sítio.
Estrada estreita e sinuosa, de chão batido, poeirenta
nos dias secos, barrenta nos chuvosos. Sobe morro, desce morro,
com o valente abarrotado de garrafas de leite. E lá vem
ele de porta em porta, atendendo a freguesia. Dia desses ele
parou á minha porta, ladeira abaixo, atravessou o fusca,
encostando o pneu no meio fio, para entregar-me o leite fresquinho
e gorduroso como ele só. Beleza para colesterol!
Sacola verde na mão, cheinha de moedas, acredito que
cobiçada pela garotada. O grande fusca, todo enlameado
e estourado de lado do carona. A porta nem se abre. Do outro
lado a ferrugem já corroeu tudo. Nem tem a lanterna traseira,
só restou o buraco. Mas e o motor? Uma beleza! Pega no
ato.
Sr. Geraldo é um homem forte, guarda no porte lembranças
de um “belo guapo”, quando no explendor da mocidade.
Achei muito lindo, outro dia, em meio a tantas garrafas no banco
traseiro, estava Maria, a fiel. Pequenina, ligeira, cabem em
qualquer continho. Espreme daqui, aperta dali e sai lá
de dentro. Do lado do motorista, é claro, pois do lado
do carona ninguém entra, ninguém sai.
Porta, Que porta? Toda carcomida e afundada. Para lama, já
era. É uma odisséia! Depois de atender á
freguesia, parte para a chácara do Zé Humberto.
Quem disse que a tarefa acabou? Acabou nada, fusca de gente
como o Sr. Geraldo Ribeiro, não descansa nunca. Faça
chuva ou sol, de Janeiro a Janeiro, quase nem se distingue a
cor. Quem disse que o motor é zerado, foi o Sr. Geraldo,
todo orgulhoso.
Motivo de orgulho ele tem de sobra. Traz no sangue herança
portuguesa. E agora para completar a vida e para nosso galardão,
calçadenses que somos, seu neto Juliano, acaba de ser
ordenado padre. É uma centelha de luz neste mundo conturbado.
Deixar o caminho cheio de armadilhas, disfarçado de honrarias
e prazeres para se dedicar ao apostolado do Senhor. Roguemos
a Deus pela sua perseverança. Não é motivo
de orgulho e sim de agradecimento. E ai Sr. Geraldo? Não
se arrisque muito, por favor, “tá” certo
que o Juliano está com crédito para a família
toda, mas é bom fazer por onde. Permita Deus que o Sr.
Tenha muitos anos de vida ao lado da sua Maria e de toda a família.
Quando chegar à hora de parar, não seja teimoso,
pensa bem, ninguém é de ferro. Veja que até
ferro enferruja, como não poderia deixar de ser. Seu
FUSCA, O VALENTE, que o diga.
Grata pelo leite fresquinho!
Até mais.
Calçado, Junho/2006.
Verconda Espadarote Bullus
vespadarote@hotmail.com