Lendo as notícias sobre o Unidos, time de Calçado
que está disputando a série B do campeonato capixaba,
que pelo nome sugere ser a união dos antigos times da
cidade, o Americano Atlético Clube e o Motorista Futebol
Clube, lembrei-me dos campeonatos da década de 60 que
eram disputados por alguns clubes da região: Olímpico
de Bom Jesus do Itabapoana, Boa Vista de Apiacá, Rosal,
Usina Santa Izabel, Usina Santa Maria, Carabuçu, Pirapitinga,
Americano e Motorista.
Das
equipes que disputavam o campeonato, o título de campeão,
na maioria das vezes, ficava com o Olímpico de Bom Jesus,
que possuía vários jogadores de boa qualidade;
lembro-me de um deles, o Alvinho, que com apenas um braço
jogava um futebol de muita classe; e com o Santa Izabel, que
tinha em seu elenco dois endiabrados jogadores, o Jiló
e o Cocota. O primeiro com um toque de bola refinado e o segundo
com potentes chutes que eram o terror dos goleiros.
O
Americano e o Motorista faziam apenas o papel de figurantes,
nenhum dos dois conseguiu ser campeão, ficavam ali pelo
meio da tabela. Para os dois, o que importava mesmo era a jogo
entre eles e as pitorescas manifestações dos torcedores.
Entre
as torcidas havia tanta richa que até famílias
ficavam divididas. Os Barroso foram um exemplo típico:
O Jair, o Afrânio e o Samuel torciam para o Americano,
enquanto o Juquita e todos os seus filhos torciam para o Motorista.
E como torciam! Qualquer provocação dirigida a
eles era motivo para uma boa briga.
A
participação de alguns torcedores era folclórica.
Lembro-me de dois deles: um do Americano, o Germano Lima, que
gritava e chutava o alambrado o tempo todo, e o outro do Motorista,
o Osvaldo Malheiros, que xingava com veemência o Juiz.
Contam
que certa vez o Osvaldo ficou responsável, pelo lado
do Motorista, de acompanhar o Juiz – era assim mesmo,
cada time escalava um representante para acompanhar o Juiz e
evitar que o representante do outro time propusesse qualquer
vantagem ao Excelentíssimo Senhor. Ele hospedou a autoridade
em sua casa, sempre acompanhado do representante do Americano,
tratou-o muito bem e com muita gentileza. Porém, no momento
em que o Juiz entrou em campo, mesmo antes de iniciar o jogo,
o Osvaldo já estava a xingá-lo de ladrão
e de outros palavrões usados quando se quer ofender a
autoridade e sua querida mãe.
As
condições dos estádios também eram
motivo para gozações entre as torcidas. O campo
do Motorista tinha um gramado muito ruim, cheio de pés
de vassoura e pouca grama, era apelidado de “carrapato”
pelos torcedores adversários. Já o campo do Americano,
por ter sido construído em cima de um brejo, era chamado
de “sapo” pelos torcedores do Motorista.
Certa
vez, uma distinta jovem da sociedade calçadense foi assistir
a um desses jogos no estádio do “carrapato”.
Ela era torcedora do Motorista por influência do pai,
mas não entendia nada de futebol. Quando chegou ao campo
e se deparou com aquele gramado pelado e feio, comentou com
a amiga:
-
Nossa, como este campo está pelado!
Uma torcedora do Motorista moradora das redondezas, ao ouvir
aquele comentário, não perdeu tempo e respondeu
aos gritos, expressando muita raiva:
-Pelado, sua branquela xexelenta, está é debaixo
da sua saia.
As
duas moças, sem entender o porquê de tamanha agressividade,
saíram bem de “fininho”. Assim era o clima
entre os torcedores quando um dos símbolos de sua equipe
era ofendido.
A
torcida do Motorista era a mais fanática e aguerrida
e os seus componentes, os mais animados e festeiros. A do Americano
era bem mais calma, mas maior que a do adversário, o
que ajudava a compensar a sua menor vibração.
Nos
dias de jogo, que ocorria lá pelas 15 horas, pois não
havia iluminação nos estádios, a cidade
ficava movimentada e a concentração das torcidas
começava logo no início da manhã, na pracinha
onde é hoje O BANESTES. Faziam-se comentários
a respeito da honestidade do Juiz, se um determinado jogador
ainda estava machucado, qual dos atletas havia bebido na noite
anterior, se algum jogador havia virado a casaca e se transferido
para o outro time, traição não perdoada
pelos torcedores, e até mesmo algumas apostas eram feitas.
O clima era de festa.
Quanto
aos jogos, foram sempre muito equilibrados. Quando não
dava empate, a vitória de um dos times era sempre por
um placar muito apertado. Mas isso já é uma outra
história.....
Oscar Rezende
roscar@uol.com.br