As Festas de Maio



Durante a década de 60 se alguém perguntasse a um calçadense: qual é, em sua opinião, o melhor mês do ano? Com certeza a resposta seria o mês de maio. Era neste mês que aconteciam as grandes festas no município que se iniciavam no dia primeiro, com o torneio do trabalhador, e terminavam no dia 31, com a festa da cidade.

O torneio do trabalhador movimentava as comunidades rural e urbana, que formavam várias equipes: Fazenda Velha, Alegoria, conhecida popularmente como “Liguría”, São Benedito, Palmital, Catadupa, Sapecado, etc., para disputarem, no estádio do Americano, mini-partidas de futebol de 10 minutos cada tempo. Os perdedores eram eliminados e os vencedores seguiam para a fase seguinte, até que os finalistas fossem selecionados para a disputa do cobiçado troféu do trabalhador.

Havia também as festas religiosas em maio, o mês das mães, representadas por Maria, a mãe de Jesus. A comunidade participava de várias atividades durante o mês. As mais famosas eram os leilões de bezerros e a barraca da Dona Zizi, construída ao lado do coreto e servindo o chocolate quente mais gostoso do mundo.

Para as meninas e seus familiares, o que mais importava na festa religiosa era a coroação de Nossa Senhora, que acontecia todos os dias do mês. O altar da Igreja Católica era ornamentado com flores, velas e fitas coloridas, e duas escadas construídas por detrás do altar, uma de cada lado. As meninas, com longos vestidos brancos e tiaras de flores na cabeça, se posicionavam, uma a uma, em cada degrau das escadas, formando uma espécie de asa de anjo meio aberta. No encontro das duas escadas existia uma plataforma, onde ficavam as escolhidas para coroar Nossa Senhora. Cânticos religiosos ecoavam por toda a igreja enquanto a coroa era conduzida pelas mãos das meninas, até pousar suavemente na cabeça da santa. Havia também os anjinhos, menininhas vestidas de branco e com asinhas, que se posicionavam em frente ao altar. Vestir-se de anjinho era um rito de passagem para futuras coroações.

O ponto alto das comemorações acontecia mesmo era no final do mês, com a festa da cidade. A população se enfeitava toda, comprando roupas e sapatos novos nas duas lojas da cidade. Os mais abastados freqüentavam a loja do Sr Daúd, a nossa Daslu. Eram atendidos por duas de suas filhas, as educadíssimas Neif e Elenice. Fazer compras na loja do Sr. Daúd era um exercício à boa educação, as suas filhas falavam tão baixinho que os clientes se sentiam contaminados por esta postura.

Já a loja dos D’Ávilas era freqüentada, em geral, pelas classes mais populares. Lá se vendia de tudo: sapatos, roupas, roupas de cama, colchões, brinquedos, e mais um montão de coisas. Não me esqueço das calças “faroeste”, só dava pra vestir uma vez, pois quando lavava encolhia tanto que a metade da canela ficava de fora.

Na inconfundível voz do nosso maior comunicador, o saudoso Jair Melo, na difusora calçadense que anunciava durante todo o mês de maio as atrações da festa: a sensacional partida de futebol entre Americano e Motorista, a chegada do Excelentíssimo Sr. Governador do Estado, o sensacional filme no Cine Teatro São José, o monumental show no coreto da praça, com a lindíssima conterrânea Darlene Glória e, é claro, o estupendo baile no Montanha Clube abrilhantado pela famosa orquestra Cassino de Sevilha. Ouvir pela difusora calçadense a voz do Jair Melo anunciando as atrações da festa, tendo como fundo musical a marcha militar “O Cisne Branco”, causava frenesi em toda a população calçadense.

Três dias antes da data marcada começavam a chegar os barraqueiros. Eles vinham de Italva , Itaperuna, Campos e outras cidades da região. As barraquinhas ficavam armadas, desde a ladeira à esquerda da praça, até a frente do coreto, formando um “L” invertido. Estas barracas, um Shopping a céu aberto, tinham de tudo: utensílios para cozinha, roupas, bijuterias... e, principalmente, brinquedos.

Os garotos gostavam de um brinquedinho muito conhecido, o ioiô. Na época fabricado em dois modelos, um mais sofisticado, não muito apreciado pelos meninos, que o consideravam “meio fresco”, constituía-se de dois discos unidos no centro por um pequeno cilindro no qual se prende um cordão; o outro, um tipo de esfera de pó de serra amassada nos pólos, enrolada por várias camadas de papel brilhoso e amarrada a um elástico de aproximadamente um metro. Este tipo de ioiô, além de ser muito mais barato, era um excelente instrumento para se fazer uma boa sacanagem. A garotada lançava o brinquedo na cabeça de um transeunte e o recolhia imediatamente, mantendo-o escondido com as mãos para trás. Em geral, o atingido nunca sabia de onde vinha a pancada, ficava xingando para todas as direções à procura do moleque que o havia atingido. Já as meninas, se não estou enganado, gostavam daquelas bonequinhas de plástico, bem baratinhas, que viviam soltando as pernas, os braços e a cabeça.

O final da noite do dia 30, véspera do encerramento da festa, era coroado com o grande baile no Montanha Clube. As moças e as senhoras calçadenses vestidas com os seus belos “tubinho”, a moda da época, e portando na cabeça penteados altos e com bastante laquê- construídos cuidadosamente no salão de dona Dalva- desfilavam pelas ladeiras da cidade acompanhadas pelos homens vestidos em seus ternos pretos. Este vai e vem de pessoas paramentadas para o baile e o som da orquestrar a ecoar pela praça, dava à cidade um ar solene e nostálgico de uma época que ainda permanece na lembrança de muitos broinhas.

Já no último dia da festa, as programações reservadas ao público eram: o grande clássico entre Americano e Motorista, o show em praça pública e a queima de fogos, marcando o encerramento dos festejos. Os fogos eram queimados à meia noite, ao lado da igreja, e ao serem lançados ao céu iluminavam, com luzes brilhantes e coloridas, a bela praça da cidade, enchendo os corações dos calçadenses de um sentimento misto, de tristeza pelo encerramento de um mês tão cheio de alegrias, e de expectativa por um próximo mês de maio ainda mais emocionante.


Oscar Rezende

roscar@uol.com.br

 



 

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