Não chega a ser um Pit Bull, é bem verdade. Mas
pensando bem, é melhor assim. Não é assustador,
nem pela aparência, nem pela sua compleição.
Não necessita de focinheira e nem de coleira. Já
é um cão de meia idade, mais pra lá, que
pra cá. Veterinário, dispensável. Shampoo,
talco anti-pulgas, também. Cedo, cedo, ficou órfão.
Sabe como é, tão logo uma ninhada desmama, já
está a caminho outra barrigada. E os pobres filhotes
ganham o mundo e aprendem a se virar, a se defender. Assim foi
que ele deu com os costados numa casa acolhedora. Hoje presta
serviços latindo atrás dos carros que passam a
mil em direção ao hospital, delegacia, capela
mortuária, cemitério. Quem conhece Calçado,
sabe bem essa direção. É uma seqüência
que de um jeito ou de outro, segui-se nesta vida.
Sua dona, já foi chamada na delegacia por sua causa.
Acontece que durante o dia ele se desdobra em serviços
extras e a noite fica no quintal. Aí, como não
é lá desses preguiçosos, late a noite toda,
crente que esta abafando, assustando ladrão. Coisa que
em Calçado não tem.
- Ou tem?
É, às vezes até aparece, mas o terreno
não é fértil...
Por essas e outras, incomoda alguns vizinhos. Daí a queixa
que não deu em nada.
E a vida continua.
Seu nome é KIKO.
Pois bem. Sua dona a sorridente Izabel, BEL, mais carinhosamente
conhecida por todos, é funcionária do Sindicato
Rural. Durante o horário de serviço, fica bem
protegida pelo KIKO que se deita à porta e dorme sono
solto. O que me levou a falar sobre ele é a sua fidelidade
como cão de guarda. Chego a varanda e lá vem a
BEL, toda linda, produzida, salto alto, mini-saia, um sorriso
de causar inveja e ele mais à frente ou um pouco mais
atrás. Nunca do lado. Feliz. Hoje é dia de passeio.
Sua dona está um primor. Descem ladeira, sobem ladeira
e nesse vai e vem, ele passa por várias cadelas, mas
nem pára. Está a serviço. Cuidando de sua
dona. Acho lindo demais!
Se fosse outra, saía escondido, o acorrentava, mas ela
não. É muita pureza! Quando alguém precisa
dela para verificar pressão arterial e ela não
esta em casa (sábado ou domingo) a Julia, sua mãe
informa: vai ali no "Pôncio`s Bar" que se o
KIKO estiver lá deitado por perto, ela também
está. Deixa os amigos e sobe a ladeira, é muito
prestimosa. Por estas e outras, resolvi registrar. E olha que
tive até que fazer entrevista com a mãe dela,
mas valeu a pena. Tomei um delicioso café, torrado no
fogão a lenha.
Assim é Calçado: uma cidadezinha do interior,
onde todo mundo se conhece e se chama pelo nome. Quando corre
o boato que alguém está doente, todos se unem
em oração. Aproveitando a deixa, quero registrar
que o sino voltou a bater chamando os fieis para a missa, não
aquele sino possante dos meus tempos de criança. Aquele
rachou (mas gente bronze racha? Se racha...) São badaladas
fraquinhas, parece criança, mas dá para matar
a saudade. Só não vai bater para enterro, porque
hoje ninguém mais carrega caixão ladeira acima,
temos o conforto da capela mortuária bem pertinho do
cemitério. Obra do Dr. Raft. E por sinal muito bonita.
Se algum dia você passar por Calçado, vá
até lá e olhe com olhos cheios de amor, as montanhas
que emolduram nossa cidade. Você vai extasiar-se!
E apesar de meu café não ser torrado em casa,
venha tomar um cafezinho comigo. Meu pó de café
é "Kalíce", café das montanhas
calçadenses. É um luxo, você vai ver!
Verconda Espadarote Bullus
vespadarote@hotmail.com
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