Quando minha família mudou para Cachoeiro de Itapemirim,eu
ainda não tinha concluído o primário.Meus
pais,então,me matricularam num dos colégios da
cidade, cujo nome era Fraternidade e Luz,por pertencer o prédio
de dois pavimentos a uma Loja Maçônica de mesmo
nome,que funcionava no segundo andar e era proprietária
do colégio.
Lembro-me ainda que no primeiro dia de aula,o Lucas Magnago(pronuncia-se
Manhago),que viria a ser o meu companheiro de infortúnio,me
puxou para um canto,pediu segredo e me fez estas estranhas revelações:
__0 pessoal do andar de cima é duma igreja que adora
um bode preto.
Como nunca tinha visto uma igreja assim em Calçado, perguntei,cheio
de curiosidade:
__Mas como alguém vai adorar um bode preto?
__Isso eu não sei.Quer saber mais?Quem quiser adorar
o bode preto tem que passar por uma prova de fogo.Os que já
estão dentro,botam uma venda nos olhos de quem quer entrar,penduram
ele na janela segurando pelos pés, e balançam;depois
trancam ele num quarto escuro junto com um defunto,com duas
velas acesas,uma de cada lado,depois fazem ele andar de quatro
e dão pauladas nas costas dele,depois xingam a mãe
dele de todos os nomes,depois voltam com ele pra janela,agarrando
ele pelos cabelos,pelas orelhas e pelo cinturão da calça
e deixam ele cair.
Admirado com tamanha judiação,indaguei:
__E depois de tudo ainda matam a pessoa!?
__Claro que não!Botam uma porção de colchões,um
por cima do outro.Aí largam a pessoa e ela cai em cima
dos colchões.Como ela não sabia disso,dizem que
ela se mija toda.
__E tudo isso só pra adorar um bode preto!?
Em resposta,o Lucas levantou os ombros,avançou a cabeça
que nem um pato e pôs as mãos viradas na altura
da cintura,tudo ao mesmo tempo,numa forte gesticulação
tipicamente italiana.
0 colégio estava longe de possuir a solidez e as amplas
acomodações do Grupo Escolar de Calçado.Sei
que era uma construção bastante antiga,de pé
direito alto,com um pátio minúsculo atrás
onde,segundo o Lucas,punham os colchões,e uma área
um pouco maior na frente,cimentada,onde fazíamos ginástica
e cantávamos o hino da cidade todos os dias,antes de
as aulas se iniciarem.E este hino era o "Pequeno Cachoeiro",
letra e música de Raul Sampaio e que se transformou em
sucesso nacional na voz de Roberto Carlos,que nasceu lá,como
todos sabem.
A professora que me coube foi uma tal chamada Madalena,que nada
tinha da bíblica prostituta;se minha professora fosse
fazer bico de mulher da vida,certamente teria morrido de inanição,por
falta de freguesia,para grande regozijo de seu aluno mais burro
e o segundo mais castigado__eu.Era muito magra,quase sem seios,tinha
um rosto chupado,ossudo,lábios muito finos e dentes miúdos;o
nariz era pequeno e arrebitado;cabelos pretos e lustrosos,fortemente
puxados para trás e presos com elástico, acho,formando
um rabo de cavalo.Estava mais para alta do que para baixa,suas
pernas finas nada tinham de atraentes.Andava sempre de sapato
alto de cor escura.Usava uma blusa toda abotoada,saia justa
até o joelho.Era morena de pele e devia estar nos últimos
anos da casa dos trinta.Fazia questão de pronunciar todos
os erres e esses finais das palavras. Gostava de caminhar enquanto
falava,com a graça de uma cadela dobermann vigiando a
rua pelas frestas do seu cercado,e o fazia de um lado para o
outro segurando uma régua de plástico duro nas
mãos.
Como a professora Madalena era diferente da Dona Merinha! ...
Dona Merinha era só doçura,jamais maltratava física
e moralmente um aluno seu.Tinha uma paciência comigo que
nem minha própria mãe tinha,eu,um débil
mental que deveria sim estar estudando na APAE.Mas Calçado,à
época,não tinha escola para excepcionais;e ainda
que tivesse,eu iria precisar de um reforço extra de professora
particular,daquelas que iam à casa da gente.
0 amor e o ódio são,ambos,tremendas potências
da alma e talvez equivalentes em intensidade; dizem até
que podem mudar um no outro, porém,acho que o menino
que fui jamais amaria a professora Madalena.É fácil,
portanto, lembra-me bem dela__ela fez de tudo para que eu a
odiasse.
E não era eu o único a odiá-la.O outro
burro da classe,o ruivo e sardento descendente de italianos
chamado Lucas Magnago,que já apresentei acima,vivia pensando
em matá-la.
Lucas,que de seu natural era vermelho de pele,ficava com as
orelhas em brasa,depois que a professora as torcia com seus
dedos longos e ossudos,armados de unhas de tatu.A mim,não
sei porquê,ela não puxava as orelhas.Torcia,sim,e
amarrotava bem amarrotado,jogando-o depois na lata de lixo,de
onde eu o tirava e o esfregava,tentando reanimá-lo,o
meu sentimento de amor próprio.Ela parecia saber que
isto me atingiria na parte mais sensível de mim mesmo.Com
efeito,eu sofria duplamente; primeiro, por ser objeto de troça
de todos,ao ser ridicularizado pela professora diante de meus
colegas de turma,sempre que era mandado ao quadro-negro, e falhava
em resolver as questões mais elementares; segundo,por
amar uma aluna chamada Valeska Miguez, a quem,como todo garoto,queria
que me visse com bons olhos.Para que isto se sucedesse,contudo,
meu conceito teria que ser muito melhor do que de fato era.Eu
achava essa possibilidade remotíssima,quase impossível__e
com isto sofria.Tudo parecia concorrer de maneira oposta a meus
desejos.Todos os meus colegas,com exceção do Lucas,me
desprezavam, rejeitavam com desdém a minha companhia,pelo
pecado de ser burro e jeca,um caipira nascido numa cidadezinha
que ninguém sabia em que buraco estava e cujo nome ninguém
falava da forma correta,por mais que o repetíssemos.
Cada dia me sentia afundar mais e mais no conceito de todos.Não
me atrevia nem mesmo a encarar os olhos de Valeska;só
o fazia furtivamente.Como me torturava a idéia de nunca
poder me dirigir a ela ... Sem dúvida,ela me repeliria.Era
uma das melhores alunas;eu,o pior,junto com o Lucas.
Mas o Lucas não dava a menor importância a esse
seu mau conceito perante a professora e os alunos.Sem dúvida
era mais sensato do que eu e muito menos susceptível.O
seu ódio à professora vinha única e exclusivamente
dos puxões de orelha.Eu,que convivia com ele, sabia que
ele não era nenhum imbecil.Era muito hábil em
construir gaiolas e outros artefatos de madeira.Seu pai era
dono de uma serraria e,deste modo,o que não lhe faltava
para dar livre curso às suas habilidades era a madeira.
Para dar um exemplo de sua perícia,basta dizer que uma
vez ele conseguiu fazer um pio para juriti que,ao menos no início
do canto,era tão bom quanto o fabricado por uma firma
especializada em Cachoeiro,a única na América
Latina,cujos donos eram os famosos Irmãos Coelho,que
gozavam de fama internacional. Muitos países solicitavam
sob encomenda pios para essa ou aquela ave,enviando fitas cassete.
Pois bem.Certo dia,o Lucas,que tinha a mania das apostas,meteu
na cabeça que ia fazer um pio igualzinho ao que os Irmãos
Coelho faziam.Como eu duvidasse,ele logo falou:
__Quer casar quanto?
Apostei uma quantia pequena.Fomos à loja dos apitos,examinamos
quase todos do farto mostruário e concordamos que devia
ser um não muito complicado,barato e que imitasse o canto
de um passarinho que nós dois conhecêssemos. Para
início de
conversa,excluímos um que era para grilo e muito fácil
de fazer,segundo a abalizada opinião do mestre mirim
que ali estava comigo.Lucas chegou até a brincar com
a atendente,dizendo-lhe que não sabia que grilo era passarinho,que
ele ia construir uma gaiola e botar um dentro,com direito a
poleiro, bebedouro,vasilha para banho e alpiste.Tinha um outro
que era para marrecão do sul.Excluímos também,por
desconhecermos a ave e não termos dinheiro para viajar
e ouvi-lo cantar no Rio
Grande do Sul,estado onde supúnhamos que o bicho tivesse
fixado domicílio.Tinha o de macuco;mas o excluímos,uma
vez que o Lucas conhecia o pio da ave mas eu não__e ainda
por cima tinha um bocal metálico,e o metal ficava fora
da especialização do Lucas.Por fim,chegamos a
um acordo e compramos um pio para juriti, passarinho bobo que
nós dois conhecíamos.E o pio era barato,pequeno
e nem muito difícil nem muito fácil de reproduzir.
Lucas pôs logo mãos à obra.Ferramenta é
que não faltava,pois a serraria de seu pai era muito
bem equipada.Ele próprio tinha um canivete suíço.Armou-se
de formão,lixas, paquímetro,que era utilizado
em medições,e mais talhadeira,verniz e, principalmente,muita
paciência. Partiu cuidadosamente o pio no sentido longitudinal,examinou
todos os detalhes interiores,os formatos e tamanhos das câmaras,os
tubinhos de passagem de ar, os chanfrados da madeira e outras
particularidades. E nisto consumiu uma semana inteira.E depois,vendo
que era bom o que fizera,descansou, como o Senhor.
Chamou-me então para dar um pulo até a serraria.
Fui. Ele me garantiu que não tinha ainda dado nenhuma
assoprada no pio.Realmente,ele cumpria as promessas.E estava
confiante.Tirou o pio em formato de garrafinha bojuda do bolso
do short,encostou o orifício por onde ia soprar nos lábios,encheu
de ar os pulmões e assoprou. Ouvimos a princípio
um lamento baixo,quase inaudível,e de brevíssima
duração,que bem podia passar pelo arrulhar nostálgico
de uma juruti. Porém, logo em seguida o som encorpava-se
e tomava a forma de um lamento altissonante,deveras plangente,e
a tal ponto triste que dois vira-latas que vagabundeavam por
perto,danaram de uivar,focinhos para o alto,como quem implora
para que uma tortura tivesse fim.A cara do Lucas ficou de um
vermelho carmesim,em sangue vivo.
Atraído pelo barulho,o pai de Lucas se aproximou da gente
e disse em tom de zombaria para o filho, e piscando um olho
matreiro para mim:
__0 Lucas já tem um canto;agora,é só procurar
um passarinho que aceite cantar desse jeito...
Lucas e eu falávamos naturalmente,quando marcávamos
um encontro:”depois do castigo” e não depois
da aula.Nos fundos do colégio havia uma grande mesa próxima
da cantina.Era sobre ela que os alunos que ficavam de castigo
copiavam extensos textos e faziam e refaziam contas de dividir
e multiplicar,cinqüenta,cem vezes,dependendo do humor da
professora. Lucas e eu ficávamos sempre de castigo.Tínhamos
cadeiras cativas.Por conta de todos esses trabalhos forçados
de caneta e lápis,minha caligrafia,ao invés de
melhorar,piorou a tal ponto que nem mesmo eu conseguia decifrar
meus garranchos.Fui obrigado então a escrever em letra
de forma e até hoje só escrevo assim.
Fiquei naquele inferno por dois longos anos de humilhações
diárias.
De Cachoeiro,a única coisa de valor que conservei comigo
foi o hino da cidade,cuja melodia é tão boa quanto
a letra.Ei-lo:
Eu
passo a vida recordando
De tudo quanto aí deixei.
Cachoeiro,Cachoeiro
Vim ao Rio de Janeiro
Pra voltar e não voltei.
Mas te confesso, na saudade
As dores que arranjei pra mim
Pois todo pranto destas mágoas
Inda irei juntar às águas do teu Itapemirim
Meu pequeno Cachoeiro
Vivo só pensando em ti
Ai que saudade dessas terras
Entre as serras
Doce terra onde eu nasci
Recordo a casa onde eu morava
0 muro alto, o laranjal
Meu flamboyant na primavera,que bonito que ele era
Dando sombra no quintal
A minha escola, a minha rua
Os meus primeiros madrigais
Ai como o pensamento voa
Ao lembrar da terra boa
Coisas que não voltam mais.
Teresópolis, 10 de julho de 2004
Carlos Rezende


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