Calçado em Junho


I
Os Eucaliptos do Hospital

Do mirante do Hospital vejo bem que os janelões do Grupo Escolar estão escancarados.
Dia nublado e mormacento de 2004. Início de junho.
Caminho em direção ao Cemitério e,à direita,tomo a rua Padre Amando Geerts para dar uma espiada na Pedra do Jaspe.Mais se parece um caminho de roça que uma rua.O Padre,ao contrário da opinião de muitos,creio que não recebeu uma homenagem aquém de seu merecimento. Pelo menos é o que penso.Embora o calçamento haja terminado nem bem principiara,a rua está sob o feitiço do Jaspe e,atraída por ele,irá se desenvolver como todas as suas irmãs da cidade fizeram.
E nem por separar-se do Cemitério apenas pela grossura de um muro,isso constitui defeito: é,sim,garantia de silêncio e paz por muitos e muitos anos.E depois,cada rua tem sua personalidade própria.
A Capela que construíram frente ao Cemitério não terá o teto baixo demais?Não será muito fechada?Está certo que defunto não sente calor__mas,e os vivos?
E eis que a Cadeia Pública está maior!Terá saído do zero o número de ocorrências criminais desde que a vi pela última vez há uns quatro anos?Confesso que ao por os olhos nela,o primeiro pensamento que me veio foi que ali agora funcionava um restaurante de larga freguesia. Como,de outra maneira, explicar um estacionamento tão vasto? Só ao ver as duas viaturas na garagem me convenci que estava enganado.
Por curiosidade me perguntei: quantas seriam as celas?Do lado de fora via duas,ambas penduradas em pregos,sendo uma de um canário da terra, que naturalmente se envolvera em brigas,disputando uma fêmea,e na outra via-se um contumaz invasor e saqueador de várzeas de arroz__um coleiro gravatinha de má catadura,embora cantador mavioso.
Mas todos esses desvios para não encarar o problema que ali em cima encontrei:os eucaliptos,ou melhor,a ausência deles.
A música dos eucaliptos se foi... E com ela,aquela sua fragrância tão agradável quanto esquisita, presente que nos veio das distantes terras australianas.Árvores não têm pátria.Já ouvi gente dizer que não gosta de árvore a não ser que seja brasileira de berço.Pode haver patriotismo mais tolo?
Custa crer que árvores ciclópicas tais tenham sido abatidas.Mas agora que se foram, vítimas da volubilidade humana,que ora quer uma coisa,ora outra,suas raízes se cravam no terreno infértil de minha mente, ressurgindo na forma de devaneios.E neles vejo-as se arremessarem aos céus,desafiadoras,indiferentes a qualquer lei senão a de superarem-se a si próprias,de subirem cada vez mais alto,nem que para isso tenham de conjurar toda e qualquer molécula d'água em derredor, que por acaso tivesse a veleidade de tomar outra direção que não a de suas raízes.
Não está nos planos de vida do eucalipto o de importar-se com pragas nem com a esterilidade de solos.Uma e outra não lhe metem medo.A esse respeito ele tem a frieza dos postes de cimento.
Já sei por que os puseram abaixo. Derrubaram-nos porque eles tinham crescido demais e podiam cair,por efeito dos ventos e raios,causando um grande dano às casas próximas,a seus moradores e a eventuais transeuntes.Além de drenarem todo o terreno adjacente a eles,ao ponto de não permitirem que outras árvores cresçam.
Tudo bem.Eucalipto não serve para ser plantado em cidade;é árvore campestre,por excelência.Do mesmo modo que não fica bem um sujeito criar elefante como animal de estimação em seu quintal.De qualquer maneira,sempre dói constatar que mataram vários e magníficos elefantes.



II
Sol de Urubu


Há uns três dias seguidos que a temperatura vem se mostrando naquele nível em que o sol é bem-vindo em nossa pele.Isso me trouxe uma recordação cômica ao passar por detrás do Grupo Escolar,nas minhas últimas férias: quando moleque,nesta mesma quadra do ano,gostava de observar uma fileira de quinze a vinte urubus esquentando sol no vértice do telhado da casa geminada do Seu Gastão,à direita de quem desce a ladeira da Dona Candinha.Talvez fosse a única construção em Calçado a comportar uma tal quantidade de carniceiros em seu traje macabro,num mesmo nível de telhado.Todos tentavam abrir as asas,expondo a maior parte de seus corpos aos raios do sol. Era daí,aliás,que surgiam as causas mais evidentes para as brigas.Os que queriam sossego apenas olhavam para aqueles membros irritadiços com um olhar em que eu via franca reprovação__movimento rápido de pescoço,como fazem os lagartos.Aliás, raramente brigavam.Alguns até aproveitavam o lugar,o tempo e o ajuntamento inusitado para um flerte.
Flerte de urubu sim senhor! Eles formam casais inseparáveis como os cisnes.Nós é que idealizamos os pares amorosos ao absurdo e excluímos das uniões ideais os gordos,os feios e os desajeitados,agora falando dos humanos.Não há como fugir ao nosso antropocentrismo radical,com todas as falaciosas idéias a que essa perspectiva nos sujeita.
Penso na feiúra das cidades grandes que conheço e na correlata feiúra dos urubus que elas atraem.Não há como não pensar que foram feitos um para o outro.Com efeito,existem urubus belos.O urubu-rei é branco com finíssimas penugens douradas sobre essa brancura,a cabeça é de um negro tão escuro que chega a ter reflexos azuis.Em torno das narinas uma mancha vermelho púrpura e na ponta do bico a mesma cor.No entanto,nunca serão vistos nas cidades;gostam das matas e descampados.Não são como seus parentes citadinos que freqüentam os horrendos lixões da periferia das grandes cidades,que se deliciam com carne putrefata, e que chegam a comer excremento,para os quais desenvolveram um suco gástrico tão potente que liquida com todas as toxinas que ingerem.São crias das feias e infectas cidades.O feio pare o feio.Há sempre uma tarja preta pairando sobre a pobreza e a podridão das grandes cidades.
Sejamos justos, porém,com os urubus de Calçado,que não freqüentam lixões,ou pelo menos no meu tempo não.E o urubu__
sejamos justos agora com todos eles,tanto com os das grandes cidades quanto com os das pequenas__só come carniça porque é nesse estado que a carne morta fica depois que todos os outros animais mais fortes já se serviram dela.Garanto que,por ele,só comia carne de primeira,filet mignon de madame.
Mas eu,moleque que era,catava no chão uma pedra,observava bem se alguém da casa do Seu Gastão por acaso não estava olhando,fazia mira e__zás!__jogava uma.Felizmente errava todas.O medo de ser apanhado em flagrante torcia minha mira. Só o sol desconhece preconceitos e partidarismos__aquece tanto os corpos dos urubus quanto os dos cisnes.Como sabiamente se diz e se pode comprovar todos os dias,o sol nasceu para todos.

III
Os óculos

0 garoto acaba de bater a porta de sua casa,em frente ao antigo Armazém do IBC,na Vala,na outra margem da estrada,e ainda ouviu a recomendação de sua avó para que tomasse cuidado com os carros e que,agora que tinha óculos,não se esquecesse de usá-los.Mas ele tinha pensamentos mais importantes.Os óculos estavam dentro do bolso de sua camisa.
Olhou atentamente ao longo do acostamento até onde seus olhos podiam enxergar.Ela ainda não saíra de casa.Ele,então, parou e ficou a olhar uma galinha de pescoço pelado num quintal, a ciscar o chão enquanto seus pintinhos a rodeavam,atentos todos ao bico da mãe.Alguns se punham na pontinha dos pés e batiam as asas,cujas penas cresciam mais fortes,não a penugem que lhes confere a aparência de uma bola sedosa mas sim aquela mais forte,que parece crescer sem direção,como se o ato de brotar apenas lhe fosse suficiente.
Novamente olhou para a estrada,para notar agora que ela a trilhava também. Apressou os passos e uma onda de alegria lhe percorria todo o corpo só de ver aquela menina de andar tão decidido e ao mesmo tempo já tão feminina,tão diferente dos outros andares.Ele a poderia distinguir à distancia,mesmo que ela estivesse no meio de cem outras meninas.
Pronunciou seu nome bem baixinho,saboreando cada sílaba.Alguém lhe dissera que era um sobrenome espanhol.Isto não lhe interessava tanto,embora tudo que dissesse respeito a ela fizesse seu ouvido ficar atento, parecendo que as suas orelhas se moviam como as de um cachorro,se ouvia seu nome ser pronunciado.Em seus cadernos,lá estava o nome dela,repetido tantas e tantas vezes que poderia ser tomado como um castigo escolar por alguém que não conhecesse seu interesse primeiro e mais profundo.
Aproximava-se agora do terminal rodoviário,onde um punhadinho de gente comprava passagens e discutia os assuntos do dia.Margeava o rio. Faltava subir agora uma ladeira das mais íngremes da cidade.Era das tais que tinham que ser trepadas.Ela forçava todos que a assaltavam a dobrar o corpo.Muitos não só faziam isso como também a subiam em ziguezague,mãos pouco acima dos joelhos e fazendo paradinhas de dois em dois minutos para tomar fôlego.Mas o garoto a venceu quase em linha reta.
Já lá em cima,de frente para o muro traseiro do Grupo Escolar,apressou as passadas pela ala esquerda. Mantinha-se na calçada do Grupo,com o muro alto,imponente a seguir-lhe os passos.Lembrou que seu pai lhe dissera que aquele terreno lá dentro do Grupo já fora baldio e que antes disso fora um cemitério.Que ele jogara muitas peladas ali com os seus camaradas,agora espalhados por este mundo e a eles se referia como os Meninos da Governador Bley.Talvez o pai estivesse mentindo.Além do mais,bebia,e muito.O que não dera certo com seu pai?
Mais adiante,contornou o prédio à direita e viu muitos meninos e meninas a entrarem no Grupo e outros a conversarem em rodinhas de bate-papo.Como sempre fez,sentou-se na beirada da calçada e ficou a observar.Aquela a quem os seus olhares ávidos buscavam não demoraria a aparecer. Enquanto ela não aparecia,quedou-se em muda admiração ante a beleza do jardim,que vinha desde a Igreja até a seus pés,o verde carregado das árvores e a imponência não agressiva da pedra do Jaspe.Parecia tudo uma pintura.Céu de um azul profundo a competir com a beleza terrena dos jardins e da linha do casario.Só para os lados do Jaspe,notara agora que nuvens surgiam,nuvens brancas inofensivas que brincavam de mudar de forma,ora assumindo o feitio de um rosto humano disforme,ora uma complicada figura para a qual ele procurava em vão algum sentido.Uma fresca aragem balançava a copa das palmeiras imperiais,dando o sinal de que uma onda de frio se aproximava.
De repente algo pareceu magnetizar seus olhos,puxá-los para outra direção, e rapidamente percebeu a única coisa que tinha tal poder.Ela despontara da principal e mais movimentada ladeira e caminhava em direção ao Grupo.Sob o impacto de sua visão,toda a paisagem se transfigurara em algo que se mantinha a meio caminho entre o sonho e a realidade.Era estranho como tudo mudava.O imenso jardim,tanto a metade aos pés da Igreja quanto a outra aos pés do Grupo Escolar,agora parecia subitamente cintilar de verde marchetado aqui e ali de vermelho,amarelo e uma profusão de outras cores.
0 garoto sentia a vida em si multiplicar-se muitas vezes.O coração estava fora de compasso e lhe batia alvoroçado,fremente porque ela agora estava a poucos metros da entrada do Grupo.Tão feliz estava que se levantou e se aproximou dela;ela,parou e olhou espantada para ele;e ele, ao mesmo tempo assentou os óculos no cavalete do nariz,achando que maior seria a sua felicidade se mais nitidamente pudesse ver o objeto de sua paixão.Sim,ele a via.Lá estava a pele morena, porém, não ao ponto de impedir o rubor do rosto.Cabelo castanho partido ao meio e caindo-lhe até os ombros,deixando à mostra as orelhas pequeninas e bem conformadas.Mas os olhos__aqui,seu coração esqueceu-se de dar duas batidas__os olhos,agora que o garoto pusera os óculos,eram os mais vesgos que já vira,grandes e ridículos,talvez rogando misericórdia para a dona deles.
E depois que ela entrou no Grupo o garoto entrou também__só que,desta feita,sem pressa,apatetado, movimentos maquinais,sentindo-se ludibriado no mais profundo de seu ser.


Carlos Rezende

 



 

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