Calçado e Teresópolis
 



Passados pouco mais de dez anos,agora percebo que,vindo para Teresópolis, inconscientemente busquei voltar à minha origem__Calçado.

Com efeito,há muitos pontos em comum entre as duas cidades,a começar pela tendência ao frio.Digo tendência porque acho um exagero alguém chamar de fria a qualquer cidade do Brasil,um país essencialmente tropical.Mas,se esquecermos por instantes esse fato geográfico que se vincula,por conseqüência,ao climático,e relativizarmos tudo,que é o que fazemos na prática,podemos considerar as duas cidades como sendo frias.Que os calçadenses mais novos não riam de mim...

Nasci e morei numa época em que Calçado era muito mais fria.Em maio,durante a comemoração da festa máxima da cidade,usávamos o que na época chamávamos de japona,isto é,um paletó reforçado.E tome quentão!O frio era tanto que dava pra fazer "bafo",ou seja,aquela “fumaça” que sai de nossa boca quando a diferença de temperatura entre o ar que está dentro de nós é muito grande em relação ao que está fora de nós. Entretanto,que me desculpem os calçadenses mais exaltados__ e não se esqueçam que também o sou__considero Calçado uma Teresópolis em ponto pequeno.Não vejo nisso nenhum desdouro para a nossa cidade.Afinal,uma mulher baixinha pode ser tão bonita e graciosa quanto uma mais alta, e não raro a primeira é alvo de maior ternura por acharmos,equivocadamente, que ela é mais frágil.E Teresópolis é,tomando-se a altitude média das duas,cerca de três vezes mais alta que Calçado.E isso concorre sobremaneira para acentuar as belezas da primeira,dar-lhe mais imponência e grandiosidade.

Outro ponto de semelhança entre as duas cidades é o espírito gozador de seus cidadãos.Agora,por exemplo, remodelaram uma calçada daqui,promovendo-a a calçadão de pedestre, e havia a intenção de a chamar de rua da Fama.Como este logradouro fica próximo ao rio Paquequer,que corta a cidade, e é um dos primeiros a ser atingido quando o rio transborda,os gaiatos a estão chamando de rua da Lama.Ainda no terreno da gaiatice,existe outra brincadeira,essa mais antiga,que consiste em perguntar a um forasteiro com quem se tenta estabelecer camaradagem: “O que está dizendo o Dedo de Deus pro pessoal daqui?" Naturalmente o sujeito pensa em várias alternativas,se for do tipo imaginativo,mas como quer ser gentil,diz que não sabe e ouve a resposta:"Vá pro Rio,seu idiota!"

Já o humor dos habitantes das cidades serranas vizinhas difere do de Teresópolis,e isto talvez se deva ao fato da maciça colonização alemã e suíça em Petrópolis e Friburgo, respectivamente.Teresópo1is possui apenas traços desses imigrantes,o grosso sendo mesmo de portugueses e espanhóis e uma migalha de italianos,sírio-libaneses,judeus.Os Turl,os Mangia,os Jahara daqui equivalem aos Ragggi,aos Junger,aos Bolelli de Calçado.

A cidade, majestosamente encravada numa parte do Serra do Mar,localmente denominada Serra dos órgãos, nasceu dos esforços em estabelecer caminhos mais curtos entre os estados do Rio e Minas.O primeiro, rasgou-o o inglês George March. Através dele um sujeito penava um dia e meio para vencer a distancia que separa Magé do atual Soberbo,final da subida da serra,isso aí por volta de 1826.Bem mais tarde,a partir de 1908,construiu-se uma estrada de ferro.O passageiro tomava uma barca na Praça 15,centro do Rio,e se deslocava até o cais de Piedade(Magé), onde o trem o aguardava.De Piedade até à Raiz da Serra o trajeto era feito em locomotiva comum,para trajetos planos.Da Raiz ao Soberbo a locomotiva era de cremalheira, isto é,sistema de trilho dentado para subidas muito íngremes. Chegando ao Soberbo o passageiro novamente pegava uma locomotiva para terreno plano e nela entrava na cidade,indo apear na atual Praça Higino da Silveira. É uma pena que esse meio de transporte tenha sido abandonado.É muito mais seguro e inquestionavelmente mais pitoresco,duas qualidades que atraem turista.Quem já ouviu falar de trem descarrilando nos Alpes suíços?E dizem os viajantes que Teresópolis lembra muito as cidades alpinas da Suíça.Mas o diabo é que aqui no Brasil os técnicos a serviço do governo sofrem de monoideísmo rodoviário. Enquanto que em todo mundo os trens se modernizam e transportam mais e mais passageiros,dentro do maior conforto e sempre em maior velocidade,aqui,os poucos que existem,são um inferno para os passageiros, pouco mais confortáveis que os comboios nazistas que levavam judeus para os campos de extermínio.Aliás,é exatamente isso o que o povão significa para os que mandam: montes de carne de difícil acondicionamento nos péssimos meios de transporte de massa.O povão um pouco menos povão,que se arrebente nas crateras e nos monumentais calombos das pistas de asfalto,que ela,a classe que manda,segue seu rumo em jatinhos com combustível pago de nossos bolsos.

Para quem gosta de esportes de montanha,desde a simples caminhada até à ascensão em paredões graníticos com ângulo,pela perpendicular, muito próximo de zero,Teresópolis é uma boa pedida.É a Meca do alpinismo no Brasil.As pedras mais procuradas são: Escalavrado(l. 400m), Morro do Açu(2.100m),Dedo de Nossa Senhora (1. 320m), Dedo de Deus (l. 692m), Nariz do Frade (1. 920m) e a Pedra do Sino(2.263m), ponto culminante da Serra dos Órgãos.

Para minha sorte,a Pedra do Sino é considerada de moderada dificuldade pelos experts,exigindo mais resistência física,que possuo em razoável quantidade,do que habilidade no escalar,que não possuo em nenhum grau.Outra característica que a torna acessível a um maior número de pessoas é a sua localização.Tal como a Floresta da Tijuca,no Rio,a caminhada pela trilha se dá quase,senão toda,dentro do perímetro urbano.Isto significa que podemos encontrar animais silvestres dentro da cidade,o que não é nada comum,nem aqui no Brasil e muito menos fora,pelo que pude averiguar.Pode ser atingida também por uma caminhada de três dias,com paradas para dormir,a partir de Petrópolis,sendo todo o percurso feito através de trilhas em capoeiras e terreno rochoso,quase todo ele em altitude superior a 1.800 metros.Há pequenos trechos um tanto perigosos.E no inverno,não é raro encontrarmos nossa barraca salpicada de gelo nas primeiras horas da manhã.

Logo que aqui cheguei,fiz duas tentativas de a conquistar,sempre sozinho,mas pelo caminho mais curto.Na segunda,obtive êxito.Como não tinha barraca,tive que fazer todo o trajeto de ida e volta num mesmo dia.Andei então 11 horas,no total,com 37 minutos para engolir uns bocados de comida e beber líquidos e o restante na contemplação mais demorada das paisagens. Já com hora e meia de caminhada,deparei-me com espécimes da fauna local.Transcrevo de meu diário: "6:40-Ao penetrar na trilha,vejo um tamanduá.Parece possuir apenas um comprido focinho e felpuda cauda amarelada.Não me dá muita importância e eu o acho tão ridículo que quase dou uma gargalhada.Aparência desajeitada de bicho de pelúcia movimentado por corda de relógio,talvez um filhote em seu primeiro passeio desmontado das costas maternas,sempre a mexer a quilométrica língua,com a qual fisga formiga e cupim,sua dieta predileta. 7:19-Avisto um bando de macacos nos galhos finos de uma árvore alta.Amedrontados mas mordidos de curiosidade eles pulavam de um galho a outro,emitindo um som estridente de alerta enquanto me observavam. Deviam ter uns 50 centímetros,afora o rabo,e a cor de seu pelo tinha as várias tonalidades do marrom,desde o mais claro ao mais escuro,com barras e rodelas de branco encardido.Fiquei impressionado com a agilidade e rapidez de seus movimentos,sem falar na precisão com que executavam as mais incríveis cabriolas.Esses animais,ariscos como são,creio que só trafegam por sobre a trilha nas primeiras horas do dia,aos primeiros raios do sol".

"11:02- Em toda a jornada,um único trecho me deixou algo temeroso.Estava a duas horas do ponto máximo,quando num platô meus pés dão de afundar num terreno pantanoso.Como se aquilo não fosse o bastante,um "ruço" começa a surgir em volteios pelo chão,coleante como uma serpente, parecendo guiado por malévola consciência invisível, partindo-se em dois,três, e me assaltando por todos os lados, e a me envolver de tal maneira que mal distingo meus braços estendidos,em busca de equilíbrio.Mas,felizmente, paro de afundar e sigo em frente.O nevoeiro era tão denso que parecia algodão-doce em certos pontos.E a umidade gelada me fazia bater os queixos.Instintivamente busquei o sol__ e ele me pareceu um longínquo abajur. Passados, porém, uns quinze minutos,o "ruço" começa a se dissipar e avisto, longe,uma ponta de rocha contra o azul profundo do céu.Ali seria o ponto final de minha caminhada,ali estava o ponto culminante da Serra dos órgãos."

Mas,deixando meu diário de lado,digo que o panorama que se descortina dali de cima é sem dúvida de grande beleza e as canseiras da caminhada valem a pena.Contudo,o que se vê não é muito diferente daquilo que podemos ver mais facilmente parando o carro que sobe a serra e nos dirigindo para alguns mirantes que margeiam a estrada,à direita.Basta então olhar a Baía da Guanabara e veremos mais da metade do que se vê da Pedra do Sino.Então,a 2.263 metros de altura,executei um movimento que talvez os outros andarilhos tenham achado,no mínimo,absurdo.Dei as costas para a Baía e fiquei a observar cenários para mim realmente inéditos.Pude ver esquisitas formações de rocha e mais ainda esquisitas formações de nuvens.E mais uma vez me veio à cabeça compará-las com algodão-doce,desta feita com maior propriedade.Só que eu as via abaixo de mim.Tinham todos os formatos imagináveis e durante o tempo que ali passei elas não se moveram, parecendo ancoradas ali para que eu as pudesse desfrutar.Enfiavam-se ao comprido por entre as rochas,descendo abismos em torno de 600 metros,planavam à altura de minha cabeça,assumindo a forma de um prato invertido, metiam-se umas nas outras desenhando uma roda gigante colossal mas imóvel.Formavam sem dúvida um belo espetáculo.Pude também observar que um alpinista experiente poderia atingir outras pedras dali de cima.Fiquei mesmo tentado a pelo menos iniciar uma travessia;contudo,olhando para o relógio,vi que era mais prudente retornar antes que anoitecesse,pois não levara lanterna.Assim,dei meia volta e retornei.

Para quem não sabe,nasceu aqui o alpinista que primeiro fincou a bandeira do Brasil no topo do Everest,juntamente com o paranaense Waldemar Niclevicz,em 1995.Três anos mais tarde,escalando a face sul do Aconcágua,Mozart Catão,que já se tornara herói teresopolitano pelo seu feito anterior,encontrou a morte.Dizem que ele morreu tragicamente. Não penso assim.Para mim morre tragicamente quem termina seus dias sem haver jamais vencido um desafio sequer que a vida lhe impôs.Pois só sentimos que crescemos espiritualmente,que ganhamos mais poder,que somos mais do que éramos,quando removemos uma barreira que nos metia medo,que nos parecia intransponível,que nos desafiava.E Mozart Catão,afinal,teve o seu momento de glória e júbilo no Everest.Pouco importa qual seja o desafio.Pode ser uma montanha,um vício que nos degrada,um filho que envereda por mau caminho e que a duras penas conseguimos faze-lo voltar atrás__pouco importa. Nascemos para nos superarmos;a evolução não é um conceito vazio,ela é uma força que nos impulsiona para frente a despeito de nossos esforços para nos mantermos estacionados. Basta observar uma criança nova.Mesmo que não a estimulemos,ainda assim ela,por si mesma,se é sadia,fará tudo o que lhe for possível fazer para engatinhar.E não ficará nisso.Depois que já estiver engatinhando,irá querer andar e certamente o fará,se não for impedida.
E talvez a nossa caminhada não tenha fim.

Teresópolis,abril de 2004.


Carlos Rezende

 



 

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