CARNAVAL

Era domingo de carnaval, de uma noite quente, igual a tantas noites de verão. No Montanha Clube estava para encerrar a matinê. Já se passava das 19h00, e da Praça Pedro Vieira ouvia-se os últimos acordes da banda do Maestro Elpídio Sá Viana. -... Mamãe eu quero, mamãe eu quero... Ao som desta marchinha finalizava mais um inesquecível grito de carnaval, cuja matinê era freqüentada por toda família Calçadense.

O burburinho na porta do clube confirmava o fim da matinê. Num entre sai frenético, jovens e adolescentes suando em bicas se acotovelam. Esbanjando saúde, alegria e disposição trocavam beijos fortuitos e apaixonados. Entre juras de amor eterno, atores canastrões de ocasião faziam promessas vis, porem não enganavam ninguém, por outro lado perfeitas e belas atrizes praticava o exercício de ludibriar, aproveitando aquele momento mágico e ao sabor do descompromisso fingia acreditar na juras. Amor de carnaval é tão frágil que muitas vezes não dura nem até a próxima matinê, que dirá para sempre, conforme suspiravam nos ouvidos.

Nas ladeiras o cheiro de lóló espalhado no ar, entorpecia os jovens, cujos pais monitoravam à distância - Fingindo ver o que não via, ao mesmo tempo fazendo vistas grossas ao que via.

Na contramão da lenda sobre a fragilidade do “amor de carnaval” surgiam sim grandes e verdadeiros amores, e em plena festa de momo novos pares se formavam e desfilavam pela praça, esperando o baile noturno, ao som da algazarra que os blocos promoviam subindo e descendo ladeiras, ascendendo à cidade, que teimava em não dormir.

Meninas suspiravam, enquanto exibiam-se para supostos pretendentes e os rapazes mais afoitos e desinibidos pelo efeito do álcool declaravam-se sem pudor, não medindo as conseqüências, afinal era carnaval, onde tudo é permitido, até a dizer a verdade.

O traje despojado, era a fantasia que velhos, adultos, jovens e criança desfilavam pelas ruas e praças, num sobre desce sem fim, na busca incessante pela felicidade e confraternização entre velhos e novos amigos.

Destoando da multidão, surge na praça um jovem - o verdadeiro jeca da cidade, desfilando em pleno carnaval com roupa de missa: Calça jeans US TOP, camisa branca de mangas cumpridas num puro, bota bico fino.

Ele só queria chamar atenção para si. Buscava no meio da multidão o seu amor recôndito e como todo apaixonado expunha-se ao mais completo ridículo. Rodou a Praça Pedro Vieira uma centena de vezes e nada. Se achou quem procurava, ninguém ficou sabendo, e do mesmo modo surpreendente que surgiu, desapareceu entre os foliões.

Passou o carnaval, vieram outros e outros carnavais e o que ficou naquela cena patética foi à ilusão de um grande amor, amor não correspondido, sem beijos, sem encontros e sem despedida.

11.08.1979

Domingos Fernando Ribeiro de Rezende
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