CARRO DE BOI


...”Fasta” Monte Azul, vem cá Rouxinol. Aííííí! Ohhhhh! - “fasta, fasta, fasta”, vem cá boi. Aíí boi! Houvem-se os gritos de comando do carreiro e o tilintar do seu afiado garruchão, que ora açoita impiedosamente as juntas de bois e pouco depois afaga, com palavras e gestos.

Trintrin. Trintrin , Aíí!, era o que se ouvia na calmaria do sertão. Os gritos do homem e o mugir dos animais eram sinais claro do conflito. Apesar do bucolismo da cena de carros de bois pelo interior, não raro existia também o estresse, quando o comandado não respondia ao comando. E a pleno pulmões, o carreiro ensandecido gesticulava e gritava: “Fasta capeta, vem cá corisco”. Execrando suas preciosas juntas de bois (seu ganha pão) com apelidos cabeludos. Havia porem, momentos de calmaria, onde o carreiro se dava ao luxo de confortavelmente sentado sobre o cabeçalho, ruminar seus pensamentos, enquanto enrolava seu cigarro de palha e, em ato continuo dava saborosas tragadas. Por instantes os bois seguiam resignados pela estrada, puxando sobre os lombos pesadas cangas, cumprindo uma dolorosa sina: Labutar de sol a sol a troco de nada. E para chegar a lugar nenhum. Vida de gado! Vida “marvada”. Trabalhar para morrer.

Lá vai o Carro de Boi! Lá vem o carro de boi, gemendo pelas estradas poeirentas, levando as sementes ao agricultor e trazendo de volta a colheita para cidade. Rivalizando com as tropas de burros, os carros de bois eram responsáveis pelo transporte em grande escala pelo interior deste país. Lenha, mudanças, frutas, cana, milho, arroz, café, feijão. etc. eram transportados diariamente. Neste vai e vem suas grandes rodas de madeira envolta por um aro de ferro iam marcando o chão de terra batida, formando linhas paralelas infinitas, num desenho de beleza singular.

Correndo pelas minhas veias, ouço o seu canto, padeço com o mugido dorido do gado, desperto com os gritos do carreiro e o tilintar do garruchão. O carro de boi está dentro de mim. Esta em nosso passado. Hoje nos sonhos ainda percorre tortuosos caminhos, levantando poeira vermelha e ecoando o seu lamento triste pelas vilas, vales, cidades e plantações. De longe a sua cantiga estridente e triste, fruto do azeite de mamona e do atrito entre os eixos e o cocão anuncia a sua esperada e festiva chegada. Lá vem o carro de Bois. É festa na cidade. É festa nos corações.

Domingos Fernando Ribeiro de Rezende
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