O Carro de Bois, Hotel da dona Tita e ...saudades!!!



Na década de 60 e até meados dos anos 70, havia em Calçado um movimento de forasteiros que demandava a existência de não mais que duas pensões. A pensão localizada na Ladeira da dona Dulce, de propriedade da dona Teresinha, mãe do Chiquinho Tira Máscara, era de porte pequeno e servia uma canjiquinha ou péla-égua, como queiram, de lamber os beiços.

Já a pensão da dona Tita, localizada na Praça Governador Bley, em frente ao campo de pelada do Grupo Escolar Manoel Franco, era bem maior que a pensão da dona Teresinha e, talvez pelo tamanho, era conhecida como Hotel da dona Tita.

Era no Hotel da dona Tita que se hospedava a maioria dos poucos viajantes que chegavam na cidade. A quase totalidade desses viajantes era formada de vendedores ou representantes comerciais, uns poucos eram jogadores de futebol que, na sua maioria, oriundos das usinas de açúcar do município de Campos dos Goytacazes, emprestavam seus talentos futebolísticos para defenderem os times do Americano ou Motorista.

Para oferecer café da manhã, almoço e jantar aos hóspedes, o fogão à lenha da cozinha do hotel tinha que funcionar a todo vapor. E haja lenha! Uma vez a cada quinze dias o “seu” Tiná, esposo da dona Tita, tinha que cangar as duplas de bois e alinhá-los no carro para, em seguida, sair a procura de lenha lá para os lados do Jaspe. Saia de manhã bem cedinho e no final de tarde já estava descarregando a lenha na calçada em frente ao hotel. Uma montanha de madeira se formava e, aos poucos, era jogada para dentro do corredor formado entre a casa de meus avós maternos e o hotel.

Estocada a lenha, era a vez da dupla dos irmãos mudos entrarem em ação. Lenhadores de primeira qualidade e exímios no trato com os machados, cunhas e marretas, em pouco tempo partiam as toras em pedaços que se encaixavam perfeitamente na boca do fogão. Era engraçado quando, por descuido, um pedaço ou outro de madeira ainda se encontrava verde, ou seja, não estava seco, e era lançado ao fogo. Para desespero da dona Tita, em pouco tempo o calor desidratava a madeira, expulsando o líquido de seu interior. Dizia-se que a madeira estava “suando” ou “chorando”. O contato do líquido, que saía da madeira verde, direto com o fogo ou quando caía por sobre o carvão em brasa, produzia um chiado contínuo, que a vizinhança toda ouvia perfeitamente. Era comum algum hóspede de primeira viagem ficar assustado com aquele chiado.

Mas o progresso, por mais irônico que possa parecer, não melhorou a situação do hotel da dona Tita e do “seu” Tiná. Ao contrário, piorou. Aliás, eu acredito que o progresso pegou a cidade no contrapé. Faltou, talvez, capital de giro para que o comércio implementasse as mudanças que o progresso estava a exigir. Não descarto, também, a falta de visão da maioria dos comerciantes locais, mas esse assunto eu deixo para os economistas de plantão, pois o assunto possui mais variáveis que coeficientes de segurança empregados no cálculo estrutural.

É bem verdade que os poderes executivo e judiciário local deram uma mãozinha, contribuindo para inviabilizar o negócio de hotelaria da cidade. A quase totalidade do carregamento de milho, arroz, café e lenha, era realizado por carros de bois, que trafegavam pelas ruas da cidade. Todas as duas padarias existentes utilizavam a lenha em seus fornos e muitas casas ainda possuíam fogão à lenha. O problema começou quando a prefeitura resolveu calçar as ruas da cidade com paralelepípedos. Os carros de bois, que tinham as rodas de madeira revestidas, nas bordas, por uma cinta de ferro, tiveram que melhorar o sistema de freio, pois descer as ladeiras calçadas com paralelepípedos era um perigo. Aumentaram, então, a quantidade de juntas de bois, para instalar algumas atrás dos carros, na tentativa de segurar o carro de boi na descida da ladeira.

Sem falar que os bois, calçando ferraduras, deslizavam nos paralelepípedos como se estivessem patinando no Central Park. Para completar, os estrumes dos bois se espalhavam por entre os paralelepípedos quentes, sob um sol de meio-dia, cozinhando e exalando um “perfume” que incomodava até as narinas menos exigentes. Alguns moradores até achavam que era implicância dos bois, pois eles sempre faziam as necessidades justamente em frente às suas casas. Por esses e outros motivos, o juiz da comarca determinou que os carros de bois só poderiam circular no período noturno. Havia aí certa lógica, pois se acontecesse um acidente com o carro de bois, não haveria ninguém para ser atropelado. Outra vantagem era que o serviço de limpeza pública recolheria os estrumes bem cedo, o que evitaria o cheiro desagradável.

Mas não demorou muito para que as reclamações voltassem a acontecer, pois os carros de bois faziam muito barulho descendo as ladeiras. Na realidade os carros de bois não faziam barulho, eles “cantavam” uma canção longa e triste, atrapalhando o sono dos moradores. Surgiu, então, uma solução que parecia ser a “salvação da lavoura”. Substituíram as rodas e o eixo de madeira, por eixo e rodas de caminhão, com isso os freios ficaram mais eficientes e os carros de bois não mais “cantavam”. Parecia que tinham descoberto a pólvora. Estava tudo perfeito. Será?

Em pouco tempo os carreiros perceberam que o volume de lenha transportado pelos modernos carros de bois, diminuiu. O problema era que os pneus não suportavam o peso do mesmo volume de lenha transportado pelos carros de bois com rodas de madeira, fazendo com que fosse necessária uma segunda ou terceira viagem. Outro problema era que os carros de bois ficaram mais caros, pois um eixo de caminhão e mais os pneus tinham um custo maior, além do custo de manutenção também ser maior. O resultado final foi que o custo da lenha aumentou muito.

Com a lenha cara e as distâncias para transportá-las cada vez maiores, dona Tita e “seu” Tiná se viram obrigados a trabalhar no regime de meia pensão, cortando o almoço e o jantar dos hóspedes, mantendo somente o café da manhã reforçado. Quem quisesse almoço e/ou jantar, pagaria à parte. Mesmo com todo esse corte de despesas, nem assim a diária pôde ficar menor, pois o custo do café da manhã aumentou, refletindo o aumento do custo da lenha que alimentava os fornos das padarias, o que encarecia o pão. O milho, que era transportado pelos carros de bois até a máquina de moagem do senhor Alciro Pimentel, lá na Vala, ficou mais caro e com isso o fubá, ingrediente principal do quitute mais famoso da cidade – a broa de fubá, encareceu, aumentando também o custo do mingau de fubá com taioba e do mingau doce, bem como a canjiquinha.

O arroz, que também eram transportados pelos carros de bois para serem beneficiados na máquina do senhor José Vieira e também na do senhor Alciro Pimentel, ficou mais caro, em função do encarecimento do frete dos carros de bois. Assim, o prato de resistência do calçadense e do brasileiro em geral – o arroz com feijão - encareceu, bem como o doce de arroz doce, uma sobremesa muito comum na cidade. O café também encareceu, tanto nos bares quanto nos lares. O café, depois de colhido, era deixado nos terreiros das fazendas para secar. Depois de seco, o caminhão do senhor José Alves, que carregava uma máquina de descascar café acoplada sobre a carroceria, entrava em ação e também ensacava o café. Era na torrefação que se dava o maior aumento no custo do café, pois a lenha, matéria-prima para torrar o café, havia ficado mais cara, devido ao aumento do custo do frete e, conseqüentemente, o preço do pó de café também encareceu. A tradicional média ( café com leite + pão com manteiga ) ficou mais cara, e a mistura que era perfeita, ficou fraca, mais parecendo leite com café.

Mas o tiro de misericórdia desferido contra o transporte de carros de bois veio de onde menos se esperava – da capital do Estado, mais precisamente do Palácio Domingos Martins, onde o Governador, Dr. Cristiano Dias Lopes Filho, resolvera bancar o asfaltamento da estrada Calçado – Bom Jesus. Essa obra, talvez, tenha sido a grande peça que o destino pregou à Calçado, por mais irônico que isso possa parecer. Com o asfalto vieram os carros e caminhões e com eles as mercadorias produzidas em grande escala, nas fronteiras agrícolas do país. O arroz, feijão, milho e café já vinham limpos, embalados e pesados e - incrível!, no final das contas tinha-se a sensação que estavam mais baratos, pela diminuição do trabalho e do tempo que se gastava em casa para, por exemplo, conseguir 1,0 Kg de pó de café. Na realidade as donas de casa ganharam foi tempo na cozinha para elaborar os pratos, economizando trabalho. Olha aí a velha máxima em ação: “Tempo é dinheiro”. Na vizinha Bom Jesus do Itabapoana que, com o asfalto, ficou mais vizinha ainda, não demorou para surgir o supermercado e com ele as comodidades para as donas de casa. Virou programa de família sair de Calçado para ir até Bom Jesus fazer compra no supermercado. O comércio local quase fechou as portas, pois o pouco dinheiro que circulava no município, estava sendo transferido para o comércio da cidade vizinha.

Dona Tita e “seu” Tiná conseguiram criar os filhos Arnaldo, Regina e Fátima, antes que a crise inviabilizasse o negócio. Os filhos já crescidos foram morar fora, o por lá casaram. O prédio do hotel foi vendido e depois demolido, erguendo em seu lugar uma bonita casa. Se não estou enganado, dona Tita e “seu” Tiná viveram seus últimos dias na cidade. Após a demolição do hotel, Calçado ficou sem ter como hospedar seus visitantes durante anos. A solução era pegar o asfalto e se hospedar em Bom Jesus.

Saudades de ouvir o canto dos carros de bois...
Saudades de ouvir os causos que a dona Tita contava... e lembrar que ela, de brincadeira, bocejava perto de todo mundo, só para ver todos bocejando. Que coisa engraçada era aquilo.
Saudades de moer café torrado no moinho fixado no portal da cozinha...
Saudades...que segundo o poeta, são rastros que a felicidade deixa.


GILBERTO VIEIRA DE REZENDE




 

O broinha - www.broinha.com.br - todos os direitos reservados