CELEBRAÇÕES

Desde que me entendo por gente, a Igreja Católica faz parte de minha vida religiosa. Éramos convencidos por nossa mãe a participar das celebrações na Igreja Matriz de São José, uma tradição de família.

Sob o comando de Padre Amando as Missas eram longas, inócuas e maçantes, quase um monólogo surdo, onde o sacerdote falava, falava e não era entendido. Ranzinza, mal humorado, e com uma dicção sofrível, fruto do sotaque holandês, seus sermões se perdiam nos ecos que a bela matriz reproduzia, e nunca fora encontrado, a não ser por meia dúzia de carolas da paróquia.

Continuo Católico e realmente acredito num Deus, no entanto, reconheço: Minha fé é muito pequena. Admiro e comovo-me com a fé do povo. No íntimo almejo a fé de milhares de fiéis anônimos que empunham a bandeira da solidariedade e distribuem remédios, roupas, comidas e palavras de conforto aos seus pares. Eu não faço nada disso, eu não pratico a fé. Sinceramente queria tê-la num grau mais elevado e por fim compartilhar com o próximo.

Voltando a 1968, vejo-me inocentemente exercitando a fé, no meio de outros meninos e meninas com idade entre oito e dez anos, preparando para a primeira comunhão. O Catecismo foi uma bela educação religiosamente que me trouxe muitos ensinamentos, o qual carrega comigo até hoje. Sem dúvida um marco importante em minha vida cristã.

Como já disse a preparação para primeira comunhão foi marcante, no entanto ao chegarmos perante o Sacerdote para receber a Hóstia Sagrada, passamos antes por uma prova de fogo – Confessar nossos pecados. A primeira vez que fiquei diante do Padre Amando, separado apenas por uma pequena portinhola de treliça e confessei meus primeiros e cotidianos pecados, senti um misto de frio na espinha com dor de barriga, sem contar que as pernas tremiam igual vara verde. Aquela voz pastosa e grave, proferindo palavras fortes, e a penitência imposta para me livrar dos pecados, ecoa ainda naqueles ladrilhos quadriculados e frios da velha Matriz, e que hoje estão assentados debaixo do assoalho lá de minha casa, reproduzindo um labirinto, onde pode estar escondida minha fé.

Na grandiosa e festiva Missa realizada na minha primeira comunhão, o coração de menino assustado e tímido, aguardava temeroso pelo momento crucial – Receber Jesus através da Hóstia consagrada. É chegada à hora. Diante de mim, surge a figura temida de Padre Amando, vestindo uma surrada batina preta e sobre ela um manto branco.

Na longa fila as pernas não obedeciam aos comandos e teimava em tremer, minha boca seca ensaiava baixinho as palavras a serem ditas, ao ouvir: “Corpo de Cristo”. O momento que ansiava e ao mesmo tempo temia havia chegado. Diante de mim uma mão, cujas unhas amareladas pela nicotina, seguravam a hóstia com firmeza e que com movimentos quase hostil me oferecia, enquanto balbuciava entre os dentes: Corpo de Cristo. Instalou-se dentro do coração o medo. O Amém saiu fraco e trêmulo, porem, no instante em que recebi a hóstia - O Corpo de Cristo, a emoção tomou conta, e o medo e os tremores deram lugar à leveza e, a partir daí fiquei absorto remoendo meus pensamentos, alheio a tudo ao meu redor.

E o tempo passou, dos oito há meus 19 anos freqüentei as missas dominicais. Freqüentar é a palavra mais certa, pois não participei das celebrações, ficava invariavelmente na porta da igreja discutindo futebol com os amigos, aguardando ansiosamente a benção final para descer ladeira e gastar sapato na Praça Pedro Vieira.

Aos vintes seis anos, casei-me com Jania, companheira de todas as horas. Ela, Católica e de muita fé, me fez voltar à igreja, depois de um vácuo de mais de seis anos. A mesma que as meus bisavós, avós e minha mãe me ensinaram a seguir, e que, repito: Acredito, apesar da minha parca fé.

Porem, para mostrar um caminho que me ensinaram no passado, volto a freqüentar com minha família (Jania, Amanda, Fernando) o Santuário de Vila Velha e participo das celebrações com redobrada atenção nos sermões do Frei Ladir Antoniazzi, profundo conhecedor da Palavra e grande motivador da fé.

Agora em 2006, novamente sou surpreendido de forma positiva noutra celebração, ao encontrar com o primo Juliano, filho de Tarcisio e Luzia, padre recém ordenado, esbanjando otimismo com os rumos da Igreja, celebrando com o coração uma missa de ritos tradicionais, porem com uma linguagem jovem e atual. Com raciocínio rápido e comentários pertinentes sobre temas atuais inseridos na celebração, retrata a fé na sua forma mais contundente. Foi emoção pura, não tão forte quando fiz a primeira eucaristia, mas foi uma celebração que não deixou espaço para dispersar meus pensamentos. Naquele instante somente à vontade de abrir o coração e receber a benção que aquela celebração trazia, e compartilhar com Madrinha Maria a felicidade e a conquista história de um século de vida, baseada na fé.

 

Vila Velha, 29/07/2006.

Domingos Fernando Ribeiro de Rezende
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