“Como a casa da mãe Joana”



Quando criança sempre ouvia meu pai dizer “Esta casa está parecendo à casa da mãe Joana”. Bem que eu entendia, era uma casa onde todo mundo fazia o que queria, não havia respeito, nem voz de comando. Pois bem, não é tão assim, é uma casa onde a dona é até muito das mandonas, apesar de miudinha, tem um
senhor “topete”.

Mas, em matéria de liberdade, hospitalidade, amizade, bondade, e tudo mais de bom terminado em “ade”, sobra.

À mesa simples e farta, sempre cabe mais um. Parece até uma casa portuguesa.

Realmente te
m raízes em Portugal (Evaristo da Silva), mas em minha opinião, parece raízes italianas, herdadas da mãe.

De cães e gatos todos recebem carinho, cuidados. Já até cheguei á conclusão que numa outra “encadernação” se nascer gata (mais gata, ainda?) quero morar nesta casa.

Num desses encontros da vida, ela, a mandona, encontrou sua alma gêmea e juntos fizeram dessa casa, não “a casa da mãe Joana”, mas a casa da Guiomar e do Manoel do Tão. Acolhedora, ponto de encontro de toda a família. Ele, amigo, trabalhador, cordato. Ela, exigente, boa prosa, prendada, trabalhadeira.

Nos saudosos tempos de meus filhos pequenos, sempre, depois da missa à sua casa era servido um café fraquinho, no ponto para a criançada. Se fosse a missa da noite, ela servia uma canja, ou misturadinho que era uma delícia. Herdou da mãe o dom de repartir o pão, o que dava e sobrava. Tempos bons aqueles!

Rolava o papo, os primos brincando, nós pondo a conversa em dia. E o tempo passou, deixando saudosas lembranças.

Até hoje a casa da Guiomar (agora com a ausência do Manoel, que foi para o Céu) continua do mesmo jeito. Tanto faz ela estar ou não, chegamos, eu, Mariazinha, Tetê, Guimar, Aurélia, nos instalamos na sala e rola a prosa até ela chegar.

Vale dizer que a Tetê mora ao lado, dividindo a mesma porta da cozinha, mas é mais aconchegante a sala da Guiomar. Tomamos café, comemos “xamego” que nunca falta, desde os tempos do Manoel, que era uma formiga para doce.

Desfrutando de sua atenção e carinho, tem o sabiá, que emudeceu um pouco com a ausência do dono, que o criou desde filhotinho. Passa bem como ela só: mamão, goiaba, ração, água limpa... Liberdade, que nada, teria que cavar o sustento. Melhor assim.

Gata vira-lata que apareceu por lá, foi ficando, bajulada, bem tratada, como se fosse “hotel cinco estrelas” (isso porque ela nunca gostou de gato...). Pedinte á sua porta, não sai de mãos vazias. Por essas e outras muito tem recebido de Deus. É forte na adversidade, quando alguém da família adoece,ela toma a frente, dá expediente, resolve se agiganta.

É muito bajulada por todos, tanto por parte da família dela, como do Manoel.

Guiomar desce todas as manhãs, sempre leva ás mãos, sacola de plásticos vazia e até algum presente, para a Marlene do Jacá.

- Marlene do Jacá, quem é?

Marlene tem uma banca em frente ao Supermercado do Passaline.

Já foi loura, translumbrante, como só as louras conseguem ser (as morenas que me perdoem). Apareceu na telinha da TV, num desses momentos de glória (noticiário da TV Gazeta Sul) dando entrevista, metendo o malho no coitado do prefeito Jeffinho, pelas más condições da estrada de chão que liga Calçado á Jacá. Puseram fogo em mim para que me indispusesse com ela. Mas que nada, já bastava ela estar contra. Direito que lhe assistia, muito embora, fosse pau mandado.

Encontramos-nos no outro dia. Ela, em sua pequena banca de banana e taioba, trazidas com tanto sacrifício do Jacá, pelo ônibus do Cordeiro, ou até mesmo de carona. E aí, dava para queixar, eu que nada mais faço na vida?

Abracei-a com carinho, elogiei sua performance na telinha da TV e disse:


- Marlene, sua danada, precisava falar mal do meu filho na televisão pra todo mundo ficar sabendo?

Rimos juntas e ficou por isso mesmo.

Voltando a Guiomar. Ai ela entra na pequena Agência do Banco do Brasil, vai ao caixa eletrônico, tira o extrato. Saí de papel na mão, concentrada. Dali ruma para o Banestes, mesmo procedimento.

Mas, sabe cidadezinha do interior como é, deu para incomodar alguém que até comentou com Acácio Evaristo, seu tio:

- Por que Guiomar vai ao banco todo dia?

Acácio muito espirituoso e crítico, respondeu:

- Vai ver os rendimentos e fazer novas aplicações.

Ah! Coitada, como ela mesma diz: vou é ver se a conta estourou! É isso ai Guiozinha, você bem podia chamar Joana, não é? Ia dar tudo certo:”A casa da mãe Joana”, pois você é “mãezona” de muita gente. Nem precisava explicar.

E trate de não ficar brava quando confundirem você comigo. Continue assim, melhor estraga.




Verconda Espadarote Bullus
vespadarote@hotmail.com



O broinha - www.broinha.com.br - todos os direitos reservados