Xerxes Augusto Monteverde Gusmão Gonçalves ou,
simplesmente, Coronel X, militar aposentado da rigidez da caserna,
continua curtindo a vida mansa na cidade do Rio de Janeiro.
Mesmo com toda a violência da cidade, Coronel X sabe,
como poucos, onde curtir as boas coisas da vida, sem se sentir
ameaçado por qualquer desses grupos que se dizem representantes
dos excluídos da nação.
No
verão, Coronel X encontra-se indisponível para
qualquer convite onde a indumentária exigida não
permita que se vá de sandália ou tênis,
bermudão e camisa tipo regata. Isso se o convite for
para uma solenidade diurna. Para o período noturno só
há duas possibilidades para alguém encontrar com
o Coronel X: nos ensaios nas quadras das escolas de samba ou
nos bares localizados na Boulevard 28 de Setembro, na zona norte
do Rio, apreciando as beldades morenas e mulatas que por ali
desfilavam, exemplares vivos dessa miscigenação
que encanta a todos, e ao Coronel X de forma muito especial.
Foi na Boulevard 28 de Setembro que Coronel X passou as últimas
noites do verão de 2006, tentando esquecer a mulata Matilda,
por quem nutria um amor platônico totalmente não
correspondido. Entre uma música de Noel e outra de Martinho
da Vila, pedia mais uma cerveja, que era posta, geladinha, sobre
a mesa já repleta de garrafas esvaziadas com prazer.
Terminado
o período de verão, Coronel X volta ao cotidiano
de luta para conseguir compatibilizar o soldo que recebe com
militar da reserva, com as despesas de água, luz, telefone
fixo, celular, combustível, cotas atrasadas do IPTU,
do IPVA e as sempre crescentes das taxas condominiais de sua
cobertura em Copacabana. Aliás, graças ao período
da ditadura militar, não tinha prestações
a pagar de seu apartamento de cobertura. Antes de lhe pertencer,
a cobertura era um “aparelho” onde se reunia um
grupo revolucionário. Devido a uma denúncia anônima,
o grupo foi totalmente desarticulado e seus integrantes ganharam
passagem de ida para um sobrevôo sobre o Atlântico.
Por influência do pai, General Libório, a cobertura
fora confiscada e, por vias ainda não devidamente esclarecidas,
apossou-se dele o Coronel Xerxes Augusto Monteverde Gusmão
Gonçalves.
No
período compreendido entre o início do outono
e o final da primavera, Coronel X trabalha, em média,
12 horas por dia. Não é um trabalho que exigi
força nem muito esforço físico, coisas
que detestava. Também não é um trabalho
formal, desses de carteira assinada e etc. A bem da verdade,
o Coronel X, relativamente a essa segunda fonte de renda, engordava
as estatísticas da economia informal, ou seja, não
tinha carteira assinada, não recolhia os impostos e ignorava,
por completo, a voracidade do leão do imposto de renda.
Pode-se dizer que esse trabalho, às margens da economia,
lhe rende módicos proventos, que lhe permite passar todo
o verão de papo para o ar. A parte visível de
seus rendimentos era o parco soldo, que recebia, via banco,
porque era obrigado, mas nem talão de cheque possuía.
Sacava tudo de uma vez só, utilizando um cartão
magnético do tipo conta-salário.
A
segunda fonte de renda do Coronel X exigia dele algum sacrifício.
Saía de sua cobertura, em Copacabana, pontualmente às
6:00h da manhã, confortavelmente acomodado dentro de
um possante Dodge Dart Lê Baron, ano 1979, com calotas
cromadas de desenho clássico, bancos acolchoados, rádio
toca-fitas com antena elétrica e câmbio manual
de 3 marchas posicionado junto à coluna de direção.
O motor rivalizava, nas bebedeiras de verão, com o motorista
– bebia 1 litro a cada 5,5Km percorrido. Na saída
da garagem, acionava o portão eletrônico com um
controle remoto e encarava o trânsito caótico da
Rua Toneleros. Até chegar em Seropédica, distante
aproximadamente 60 km, o percurso era feito quase que totalmente
pela via Dutra. Em Seropédica, cidade-dormitório
e em cujo município está a Universidade Federal
Rural do Rio de Janeiro – UFRRJ, Coronel X guarda seu
Dodge Dart Lê Baron nos fundos de um Ferro Velho. Na verdade,
o ferro velho não passava de um desmonte clandestino,
especializado em “adquirir” carros sinistrados com
perda total, cujo dono era um colega de pijama, que também
estava na luta para recompor o poder de compra de seu soldo,
e que teve como sócio, durante alguns anos, o próprio
Coronel X.
Antes
de sair das dependências do Ferro Velho, Coronel X e o
colega de pijama sempre conversam a respeito da situação
atual deles e da tropa. Não perdiam a oportunidade de
mal dizer a hora que os militares da ativa deixaram criar o
Ministério da Defesa e aceitaram um civil como ministro.
- “E agora, como falar duro e mostrar autoridade diante
da tropa se, muito provavelmente, o ministro foi um dos que,
direta ou indiretamente, sofreram com as ações
de 64? Decididamente não se deve cuspir para cima!”
Lamentavam, ambos, a situação.
Coronel
X saía dos fundos do Ferro Velho montado num legítimo
Jeep americano da Segunda Grande Guerra, adquirido no Rio Grande
do Norte, numa oficina mecânica situada nas proximidades
do aeroporto de Natal, a capital potiguar. Gostava muito da
cidade, pois tinha boas recordações de lá.
Ainda criança, nos anos 60, e levado pelo pai, o General
Libório, visitou a cidade para conhecer as belas praias
de Ponta Negra, Areia Preta, dos Artistas, do Meio, do Forte
, Via Costeira e Rendinha, onde comeu ginga (peixe frito com
tapioca) no mercado municipal. De Natal foi, também,
até a cidade de Parnamirim, distante apenas 15 Km, onde
conheceu, na praia de Piragi do Norte, o maior cajueiro do mundo,
cuja copa ocupava uma área de 8.500m2. Também
em Parnamirim ficou conhecendo a base aérea montada pelos
americanos, em 1942, de onde os aviões partiam para a
Europa e África para combater na Grande Guerra. A base
levou o nome de Parnamirim Field, e foi nela que, numa das festas
realizadas pelos soldados americanos e abertas ao público
(For All), o povo potiguar provou um refrigerante diferente
– era uma Coca-Cola. Aliás, os natalenses sentem-se
orgulhosos (?), até hoje, por terem sido os primeiros
sul-americanos a consumir Coca-Cola.
O
Jeep usado pelo Coronal X não mais mantinha as características
de um veículo de guerra, nem a pintura era original,
pois deu lugar a uma sobre pintura de coloração
avermelhada desbotada. Os faróis perderam as grades de
proteção e o reservatório extra de combustível
deu lugar a um banco, cujo acento encontrava-se rasgado e por
onde uma mola saliente ameaçava quem nele atrevesse sentar.
Talvez só a antena, enorme, arqueada e presa na ponta
do pára-choque traseiro, dava uma vaga lembrança
da origem daquele Jeep.
De
segunda a sexta-feira, com chuva ou com sol, Coronel X desfila
com seu velho brinquedo de guerra pelas ruas de Seropédica,
a caminho do Templo da Purificação das Mazelas
de Verão, mais conhecido como TPM Bronzeado, do qual
foi o idealizador e fundador. Já na saída da cidade,
o Jeep seguia por uma estrada vicinal tortuosa, na direção
aos distritos de Fonte Limpa e Águas Lindas. Seguia fazendo
ziguezague até as proximidades de uma imensa área
de crateras, surgidas devido à extração
de areia para uso na construção civil, principal
atividade econômica do município. Existem muitas
crateras iguais no município, pois à medida que
findava o veio de areia, a extração era desativada,
restando somente as crateras abertas e, em muitas dessas crateras,
o lençol freático formava lagos saturados de sedimentos
minerais, deixando suas águas com uma coloração
verde-esmeralda e sem abrigar qualquer forma de vida. Era uma
visão de filme de ficção científica.
Numa
dessas crateras cheias de água esverdeada, foi erguido
o TPM Bronzeado. Devido a formação do solo, a
extração de areia no local preservou um istmo
que liga a borda ao centro da cratera, formando quase uma ilha.
Quando a atividade de extração de areia não
mais se fazia viável economicamente, a empresa que explorava
o serviço abandonou o local, deixando, intacto, no centro
da cratera, um galpão que abrigava os caminhões
e também uma oficina mecânica. Foi neste galpão
que, após reformado e adaptado, foi concebido e dado
forma ao primeiro e único, por enquanto, TPM Bronzeado.
Nesse templo, os excessos e as mazelas do verão são
purificados em sessões de descarrego à base de
folhas, realizadas no outono; de descarrego a base de friagem,
realizadas no inverno; e de descarrego a base de flores, realizadas
na primavera. Na região todos conhecem os cultos tri-fês,
como são conhecidas as sessões de purificação
no TPM Bronzeado.
GILBERTO VIEIRA DE REZENDE