As emoções do verão de 61



Aquele janeiro de 61 foi de muita emoção para quem nunca viajara além de Bom Jesus do Itabapoana. Estávamos há poucos dias em Marataízes. A emoção do primeiro contacto com o mar ainda estava presente quando se juntou a nós Zarife Feres, uma prima de Mamãe que adorava uma praia. Ela veio acompanhada do meu pai que retornara a São José do Calçado no caminhão que nos trouxera. Eles chegaram num fusquinha azul estalando de novo, modelo 61, propriedade de Zarife. Se não me engano ela teve apenas dois carros; este fusquinha 61 e um outro Fuscão de cor ocre que permaneceu com ela até a sua morte, em 2004. Quase todos os dias eu e o primo Zé Luiz, que também passava o verão com a gente, ajudávamos a Zarife lavar e limpar o fusquinha, condição imposta por ela para fazermos jus aos passeios de carro nos finais de tarde: íamos ao Porto da Barra do Itapemirim, ao centro de Marataízes e uma vez ,ao cinema numa cidade vizinha, a Vila do Itapemirim.

Não me lembro de ter encontrado alguém com tanto medo de baratas como Zarife. Uma das nossas brincadeiras prediletas era procurar uma barata, e sem que ela percebesse, colocá-la perto dos seus pés para ouvir os gritos pavorosos que dava quando se deparava com o inseto.

Além do mar e dos passeios de carro com a Zarife, conheci de perto mais duas grandes novidades naquele verão de 1961:o trem de ferro e o avião.

Havia naquela época uma linha de trem ligando Cachoeiro do Itapemirim a Marataízes. A velha locomotiva, modelo “Maria Fumaça”, passava por volta das 6 horas da manhã em frente à casa onde estávamos hospedado. Quando o trem apitava, anunciando a sua chegada, eu soltava da cama e corria até a porta da frente, para assistir fascinado àquele monstro de ferro “chiando” em cima dos trilhos e soltando uma fumaceira danada, oriunda da queima da madeira e do vapor produzido pela caldeira.

O trem de ferro sempre me fascinou, mas até hoje só fiz duas viagens. A primeira, de Ponte Nova a Viçosa, quando era estudante; a segunda, mais recente, quando levei minha filha numa viagem entre Vitória e Belo Horizonte. O interessante foi a inversão das expectativas. Minha filha acostumada com este mundo moderno e cibernético achou um “saco”, enquanto eu me senti uma criança curtindo aquelas belas paisagens e a nostalgia de uma viagem de trem.

Quanto aos aviões, eram velhos teco-tecos que pousavam em um pasto entre Marataízes e a Barra.

Quando ouvíamos aquele barulho característico dos pequenos aviões, eu, Zé Luiz e Carlota, minha irmã mais nova, saíamos em disparada na direção do aeroporto (pasto), para assistirmos ao pouso e a decolagem das pequenas aeronaves.

Dentre as histórias pitorescas daqueles teco-tecos eu me lembro de uma que aconteceu com minha mãe.

Mamãe, uma mulher de pele bem morena, com aquele sol de verão e sem o uso do protetor solar, que não era comum naquela época, viu a cor de sua pele acentuar-se ainda mais, ficando quase negra.

Certa manhã, quando caminhávamos lentamente em direção à praia, um avião voando em baixa velocidade e a poucos metros de altitude passou por cima do nosso grupo. O piloto botou a cabeça para fora da janela do avião e gritou para minha mãe: - Eta negrinha fogosa! Ela, não se fazendo de rogada, e apesar de toda a sua delicadeza, fez vazar por sua boca todos os impropérios que conhecia.

Foram muitas as emoções naquele verão de 61, afinal eu era um garoto de apenas 8 anos, e pela primeira vez havia saído daquele pequeno mundo que conhecia lá na Fazenda Velha.

Escrever as recordações da infância é a forma que encontro de não me desligar do passado, recebendo o combustível necessário para abastecer o espírito e a mente e enfrentar com alegria e bom-humor os desafios e as incertezas do futuro.


Oscar Rezende

roscar@uol.com.br

 



 

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