Halcón de un ojo solo



O gavião estava pousado bem na entrada do portão. Quase que levou uma pisada. Isso ia ser demais para a cabeça do pobre, principalmente depois de ter levado uma pedrada de estilingue do filho da esteticista. Vida de passarinho não é mole. Inda mais de gavião, que come pinto e outras pequenas guloseimas vertebradas.
Discriminação pura. Comesse inseto, frutinha, essas coisas, não seria tão perseguindo pela molecada da rua. "Olha o Gavião!", e tome pedra para aprender a não cobiçar o calango do quintal alheio.

Coitado. Agora estava ali. A pedra tinha acertado bem no olho esquerdo e o tinha deixado grogue. Fugira dos pequenos caçadores o quanto pode e, já sem forças, pousara aleatoriamente. Aleatoriamente para ele, gavião. Para o Sinval, morador da casa e, consequentemente, dono do portão, não era mera coincidência. Que diabos aquele gavião fazia na sua porta? E o pior, de olho furado. Seria um sinal? Alguém estaria querendo lhe dizer alguma coisa? "Acho que é um trabalho de encosto", disse logo seu vizinho de muro.


"Encosto? Mas encosto de quem, madrecita?". A propósito, o Sinval sempre teve essa mania de meter umas palavras em espanhol em suas frases. Fazer o quê se ele acha chique? "Minha alma tem sangue espanhol", costuma dizer quando toma umas lá no bar do Hilário. Que seja então. Deve ser a alma mais sangüínea do outro plano. Onde estávamos? Ah, sim, no encosto. Era tudo o que o Sinval precisava. Já tinha perdido o emprego naquela semana. Aluguel atrasado. Pensão das crianças, idem. Santa Madre de Dios! Aquele gavião de olho furado no portão de sua casa parecia coisa encomendada.

E o pior não era isso. Ele tinha assistido ao tal documentário do MV Bill. E se não fosse um gavião, mas um... Falcão. Caracoles! Afinal gavião e falcão é tudo a mesma coisa. Tudo carcará sanguinolento. Será que os traficantes estavam querendo pegá-lo? Mas como assim se ele nunca tinha bebido maconha e achava que Coca tinha o mesmo cheiro de Pepsi? Quanta infâmia. "Melhor não arriscar", pensou. Cortar o mal pela raiz. O mano gavião/falcão ia ter que dançar. Afinal, gavião e falcão é tudo a mesma coisa, depois que corta a cabeça vira tudo frango. Pelo menos o tira-gosto da noite estava garantido. E o melhor é que dava até para tirar uma onda no boteco tipo: "que é isso? Uma iguaria espanhola: halcón de un ojo solo".

Luiz Fafau*
luizfafau@uol.com.br

*Luiz Fafau, 47 anos, goiano, autor dos livros Urbano, Fragmentos de Luz e A Lápide Gótica de Um Amor Impossível.



 

O broinha - www.broinha.com.br - todos os direitos reservados