LADRÃO SOBRE DUAS RODAS NO BAIRRO AEROPORTO


Os barulhos das motos de Itaperuna já não me deixam em paz depois do acontecimento real que irei relatar. Para mim, Itaperuna ainda era considerada uma cidade pacata como as outras interioranas, mas, em um determinado final de tarde mudei totalmente meu conceito, afinal, não é em qualquer lugar que existem ladrões equilibristas.

Aconteceu que fiquei a tarde toda fazendo prova de fotojornalismo na cidade de Itaperuna, sob orientação do professor Alexandre Mury, junto com meus colegas de classe. Foi no final do ano de 2005, estava cursando o sexto período de jornalismo nas Faculdades Integradas Padre Humberto. A atividade nas ruas da cidade fazia parte de uma prova prática da disciplina.

Iniciamos às duas da tarde. Nos encontramos na praça principal da cidade e ali mesmo começamos a fazer as fotos. O primeiro a fotografar fui eu. Aproveitei o senhor que estava fazendo caldo de cana. Ele ficou todo cheio quando fui pedir para tirar uma fotografia dele, queria fazer até pose, mas tive de pedir que ficasse natural, como se estivesse simplesmente trabalhando, afinal, não era concurso de modelo fotográfico, mas sim fotos jornalísticas para um trabalho acadêmico.
E assim, com máquinas fotográficas nas mãos, rodeamos toda a Itaperuna. Não podia aparecer uma figura exótica, que logo mirávamos a lente na cara do sujeito e... flash. As fotos eram feitas em todos os pontos que parávamos.

Numa sorveteria próximo à prefeitura, apareceu um senhor todo fantasiado. Carregava na cabeça um chapéu verde e amarelo, e dizia a todo momento que o rei Roberto Carlos já teria gravado uma música de autoria dele. Aí, meus amigos, não deu outra: todos da turma viramos a máquina em direção a ele e a luz branca dos flashs não paravam de bater contra seu corpo.

E assim foi indo a nossa tarde de repórteres fotográficos. Fotos aqui, paradas ali, flagras de lá e tudo sendo registrado.

Como moro em São José do Calçado, no Espírito Santo, pedi ao professor se poderia sair uma hora mais cedo para pegar o buzão de volta para casa, e, para minha infelicidade, ele me liberou.

Estava no ponto. Ônibus passando sem parar, até que chegou o carro da Brasil rumo a Bom Jesus. Fiz sinal, o motorista parou e entrei procurando um melhor lugar para sentar-me. Tanta escolha para sentar na poltrona da revolta, teria de ter sentado do outro lado do ônibus. Mas também, como vou adivinhar, não é mesmo? Não ando com nenhuma bola de cristal.

Ao passar frente à prefeitura, avisto meus colegas com o professor ainda em atividade, gritei para eles e... clique, fiz a última foto da minha máquina fotográfica. No ônibus mesmo comecei a ver as fotos do nosso trabalho, agora tudo é mais fácil, né? Máquina digital! Quando o sinal de trânsito do bairro Aeroporto fechou, percebi da janela do micro-ônibus que havia um senhor puxando uma charrete toda decorada a uns cem metros à frente do carro. Logo pensei em fazer uma foto ainda para a avaliação, a cena estava perfeita.

Apoiei então a mão que segurava a máquina na janela do carro, procurei o melhor enquadramento, analisei todos os detalhes. Perfeito! Agora só precisava esperar o sinal abrir para que o ônibus prosseguisse e eu registrasse a cena do dia.

Não olhei para trás, mas pela barulhada podia-se perceber que havia outros veículos parados atrás do meu ônibus. Finalmente é dada a largada. Parecia que Rubinho Barrichello é quem estava dirigindo o ônibus. Ô motorista lerdo, sô! Nunca de alcançar o senhor da charrete.

E ta chegando, é agora, vou clicar, contagem regressiva...um...dois...e...pam... num toque de mágica a máquina some da minha mão. Fui roubado?! Não acredito!

Não vi que atrás do ônibus havia uma moto carregando duas pessoas. Muito menos que o que estava na garupa iria se equilibrar na moto em pé para puxar a máquina da minha mão. E o puxão foi tão forte que rebentou a cordinha de segurança da câmara que estava entrelaçada no meu punho.

Fiquei meio abobado, não sabia o que fazer, não deu tempo de nada, nem de ver a cor da moto e muito menos se eles usavam capacetes, parecia que eu tinha ficado cego naquele momento. Mas de repente me veio uma luz, mas logo ela se apagou, pensei em acertar a cabeça dele com o celular. Ah, sim! Lembrei-me. Usavam capacetes, sim, e seu eu jogasse o celular contra ele, o infeliz não sentiria nada e eu acabaria perdendo também o meu telefone. Mandar o motorista seguir a moto seria impossível, até porque a moto entraria em qualquer beco e era mais veloz, já o ônibus, hum, só se o Ayrton Senna incorporasse naquele motorista de “roda presa”. Descer para registrar queixa, para quê? Não saberia descrever nada, cor de moto, placa, nadinha de nada. É! O jeito seria aceitar o fato ocorrido.

Por toda a viagem fiquei calado, em choque, xingando em pensamento o ladrão e a mãe dele de tudo quanto é nome, ruim é claro. Ah! Como eu queria que ele caísse da moto e que um caminhão passasse por cima da cabecinha dele! Não perderia o enterro por nada, certamente daria dezenas de fotos boas para minha prova!
Nunca tinha passado pela minha cabeça que eu correria o risco de sofrer um assalto relâmpago na cidade do interior, ainda mais da maneira como fui abordado, eu do lado de dentro do ônibus, e o filho da mãe do ladrão, para não dizer filho de outra coisa, se equilibrando na moto preparando para dar o bote.

A indignação tomou conta de mim. Estava tão “P” da vida que nem esperei chegar em casa. De Bom Jesus mesmo liguei para casa e disse: “Fui assaltado, roubaram minha máquina”. Mas ninguém acreditava na minha história. Mas quando viram que eu carregava a apenas a bolsa da câmara vazia, tiveram de acreditar.

Hoje, toda vez que vejo uma moto em Itaperuna, ou passo pelo bairro Aeroporto, não me sinto bem. Traumas.

Quando fui comprar minha nova câmara, segurei a sacola firme ao passar pelas ruas de Itaperuna, afinal, eu já tinha provas o suficiente de que hoje ladrões existem em todos os lugares e que ultimamente eles vêm treinando novas formas de surpreenderam a vítima. Uma coisa eu aprendi: nunca mais farei foto do lado de fora da janela de ônibus, mesmo que na rua esteja uma charrete sendo guiada por uma formiga acenando para as pessoas e distribuindo beijinhos.

Addison Viana
addison@broinha.com.br



 

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