O meu Baile no Montanha Clube em 2006



Estou em falta com São José do Calçado. Tenho sentido isso desde que estive aí, na Festa de Emancipação do Município. Bonito esse nome, né? Pomposo... Mas quando eu ia mais amiúde a Calçado, a gente chamava de Festa de Maio e todos entendiam que era "O" evento da Cidade. Eu via e continuo vendo assim. São os olhos de quem está fora da mesmice que acontece nas cidades, no dia-a-dia. Acho que me senti devendo muito a Calçado desde essa última Festa de Maio (que aconteceu em junho), por conta de estar, encontrando amigos, revendo pessoas queridas e vivendo um momento de muita magia. Sabe aquelas magias que a gente só sente quando vive descobertas? Pois é, nessa altura da vida, a gente não tem mais tanto o que descobrir. Não que cada dia não seja um novo começo, mas a magia da descoberta requer penumbra, mistério, fruto proibido. Meio que uma 2a. vida, sendo que nessa complexidade da 2a. vida acho que se precisa um pouquinho de estórias secretas. E como eu vivenciei, de forma nostálgica, o meu "reentre" (será que é assim que se escreve?) no Baile que aconteceu no Montanha Clube, em 02/06, desse ano. Parecia uma volta no passado infantil e adolescente que viveu nas ladeiras, nos bailes de Carnaval, nos bailes das Festas que eram sempre certos de acontecer em Calçado, caso não chovesse... E que medo que eu tinha que chovesse e faltasse luz, atrapalhando o baile. Era o máximo entrar naquele salão que sempre imaginei tão graannde e, dessa feita, estava tão pequeninho... Eu mesma via meu filho adolescente de quinze anos, "namorando escondido" uma mocinha, para que o pai dela não ficasse bravo. Claro que o pai da mocinha estava vendo, o clube inteiro via todo mundo, porque é tão pequenininho e nem tão escuro como eu pensava... Mas aquele pedacinho de salão dos meus bailes, tanto nos carnavais quanto nas festas, sempre teve gostinho de "escondido", de "proibido", de "segunda vida ou vida secreta", como se fosse possível algo secreto no salão de baile do Montanha Clube. Como se eu fosse detentora dessa segunda vida ou vida secreta, sei lá. Qual é o nome a gente dá pra sentimentos antigos em novas descobertas? Teria algum?

Não sei se as pessoas se sentiram assim quando do retorno dos Bailes do Montanha. Se vislumbraram um pedacinho de passado doce que nem o gostinho do primeiro beijo. Mas eu me senti assim. Apesar de estar acompanhada da minha família, pais, tios, marido e, desta vez, cuidando do meu filho, ao invés de ser cuidada. Mas depois de vinte e dois anos sem adentrar naquele salão de baile, eu senti essa magia de novo, de ter dezessete anos outra vez. E foi uma delícia! Foi mais que delícia, foi memorável. Tanto que custei muito a dividir esse sentimento com alguém mais que eu mesma. Agora, ele está aí. Talvez as pessoas mais jovens não entendam muito do que está sendo dito aqui. Acho que quem viu os eucaliptos do Hospital, antes de serem cortados, vai entender. Mas só quem viu e sentiu o cheirinho dos eucaliptos naquele bosque miúdo antes do Hospital, certamente, vai me entender. Mas essa vida burguesa superficial é mortal porque é visível demais; vê-se o final e todos os atos que levam até lá demasiadamente claro. É meio louco, mas a impressão que fica é que a 2a. vida é uma vida a mais, como se fosse aberta por ela a promessa de um tempinho de vida a mais estendido. Nessa ampulheta da gente, que é depressa demais, esse tempinho estendido é essencial para vivenciar o "novo velho". Digo o "novo velho" porque eu já me senti assim antes e parece que esse tempinho ficou suspenso, requerendo agora um espaço que nem imaginava que existia em mim.

É, o Baile do Montanha aconteceu de novo na minha vida. E nesse momento, eu vi que o tempo come, come não, devora mesmo as possibilidades da vidinha superficial e, paralelamente a isso, parece que na 2a. vida ou na vida secreta, as tais possibilidades são inesgotáveis, intensas e mágicas. Até porque carecem de muita explicação.

Tenho sentido muita saudade de você, São José do Calçado (leia-se pessoas queridas de São José do Calçado), revejo cada minutinho seu/meu e parece tão nítido que dá até pra tocar. Parece...

Eu acho que todos precisam e merecem se sentir assim. Mesmo que em segredo. E, em segredo, é mais gostoso pensar que ainda tem mais, muito mais por vir por aí. Quem sabe? Talvez no próximo Baile do Montanha Clube que eu puder ir...

SP.,agosto/06.

Anna Paula Medina de Moraes
annademoraes@terra.com.br

 





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