Estou
em falta com São José do Calçado. Tenho
sentido isso desde que estive aí, na Festa de Emancipação
do Município. Bonito esse nome, né? Pomposo...
Mas quando eu ia mais amiúde a Calçado, a gente
chamava de Festa de Maio e todos entendiam que era "O"
evento da Cidade. Eu via e continuo vendo assim. São
os olhos de quem está fora da mesmice que acontece nas
cidades, no dia-a-dia. Acho que me senti devendo muito a Calçado
desde essa última Festa de Maio (que aconteceu em junho),
por conta de estar, encontrando amigos, revendo pessoas queridas
e vivendo um momento de muita magia. Sabe aquelas magias que
a gente só sente quando vive descobertas? Pois é,
nessa altura da vida, a gente não tem mais tanto o que
descobrir. Não que cada dia não seja um novo começo,
mas a magia da descoberta requer penumbra, mistério,
fruto proibido. Meio que uma 2a. vida, sendo que nessa complexidade
da 2a. vida acho que se precisa um pouquinho de estórias
secretas. E como eu vivenciei, de forma nostálgica, o
meu "reentre" (será que é assim que
se escreve?) no Baile que aconteceu no Montanha Clube, em 02/06,
desse ano. Parecia uma volta no passado infantil e adolescente
que viveu nas ladeiras, nos bailes de Carnaval, nos bailes das
Festas que eram sempre certos de acontecer em Calçado,
caso não chovesse... E que medo que eu tinha que chovesse
e faltasse luz, atrapalhando o baile. Era o máximo entrar
naquele salão que sempre imaginei tão graannde
e, dessa feita, estava tão pequeninho... Eu mesma via
meu filho adolescente de quinze anos, "namorando escondido"
uma mocinha, para que o pai dela não ficasse bravo. Claro
que o pai da mocinha estava vendo, o clube inteiro via todo
mundo, porque é tão pequenininho e nem tão
escuro como eu pensava... Mas aquele pedacinho de salão
dos meus bailes, tanto nos carnavais quanto nas festas, sempre
teve gostinho de "escondido", de "proibido",
de "segunda vida ou vida secreta", como se fosse possível
algo secreto no salão de baile do Montanha Clube. Como
se eu fosse detentora dessa segunda vida ou vida secreta, sei
lá. Qual é o nome a gente dá pra sentimentos
antigos em novas descobertas? Teria algum?
Não
sei se as pessoas se sentiram assim quando do retorno dos Bailes
do Montanha. Se vislumbraram um pedacinho de passado doce que
nem o gostinho do primeiro beijo. Mas eu me senti assim. Apesar
de estar acompanhada da minha família, pais, tios, marido
e, desta vez, cuidando do meu filho, ao invés de ser
cuidada. Mas depois de vinte e dois anos sem adentrar naquele
salão de baile, eu senti essa magia de novo, de ter dezessete
anos outra vez. E foi uma delícia! Foi mais que delícia,
foi memorável. Tanto que custei muito a dividir esse
sentimento com alguém mais que eu mesma. Agora, ele está
aí. Talvez as pessoas mais jovens não entendam
muito do que está sendo dito aqui. Acho que quem viu
os eucaliptos do Hospital, antes de serem cortados, vai entender.
Mas só quem viu e sentiu o cheirinho dos eucaliptos naquele
bosque miúdo antes do Hospital, certamente, vai me entender.
Mas essa vida burguesa superficial é mortal porque é
visível demais; vê-se o final e todos os atos que
levam até lá demasiadamente claro. É meio
louco, mas a impressão que fica é que a 2a. vida
é uma vida a mais, como se fosse aberta por ela a promessa
de um tempinho de vida a mais estendido. Nessa ampulheta da
gente, que é depressa demais, esse tempinho estendido
é essencial para vivenciar o "novo velho".
Digo o "novo velho" porque eu já me senti assim
antes e parece que esse tempinho ficou suspenso, requerendo
agora um espaço que nem imaginava que existia em mim.
É,
o Baile do Montanha aconteceu de novo na minha vida. E nesse
momento, eu vi que o tempo come, come não, devora mesmo
as possibilidades da vidinha superficial e, paralelamente a
isso, parece que na 2a. vida ou na vida secreta, as tais possibilidades
são inesgotáveis, intensas e mágicas. Até
porque carecem de muita explicação.
Tenho
sentido muita saudade de você, São José
do Calçado (leia-se pessoas queridas de São José
do Calçado), revejo cada minutinho seu/meu e parece tão
nítido que dá até pra tocar. Parece...
Eu
acho que todos precisam e merecem se sentir assim. Mesmo que
em segredo. E, em segredo, é mais gostoso pensar que
ainda tem mais, muito mais por vir por aí. Quem sabe?
Talvez no próximo Baile do Montanha Clube que eu puder
ir...
SP.,agosto/06.
Anna
Paula Medina de Moraes
annademoraes@terra.com.br