A animação na chácara do José Antônio
Pimentel, por conta de seu aniversário, já estava
consolidada e o pessoal se divertia a valer. Cheguei por volta
das duas horas da tarde e só consegui estacionar o carro
no topo de uma rua bem íngreme, junto ao meio-fio e no
meio de uma curva. Da entrada da rua situada ao lado do antigo
IBC, até a chácara, virou um estacionamento só,
parecia o movimento de quando a Exposição Agropecuária
de São José do Calçado era realizada nas
dependências desativadas do IBC.
Estacionei
o carro, desci a longa rua e entrei na chácara, subindo
uma pequena rampa. Uma multidão se espalhava por todos
os ambientes. Duas bandas e um telão, onde eram projetados
shows musicais, davam o tom da animação, e no
bar um caminhão de cervejas garantia a alegria. Da cozinha
saiam pratos típicos de um churrasco muito farto, de
forma que a ninguém seria dada possibilidade de passar
mal por beber de barriga vazia. Também da mesma cozinha
saiam bandejas repletas de doces, injetando glicose no organismo
para aplacar o efeito deletério do álcool. O fígado
trabalhando em dobro, dava conta do recado e eliminava as toxinas
para a bexiga que, por sua vez, retardava, até quando
não mais podia, a hora de ir ao banheiro. Poderia se
pensar que no quesito “banheiro” haveria algum tumulto,
mas uma bateria de banheiros químicos foi instala, além
dos banheiros normais existentes nas áreas da quadra
e da piscina. Um primor de organização!
A
primeira pessoa com quem encontrei foi o Maurinho ( Mauro Ferreira
de Rezende ) que, de cara, foi logo avisando que não
adiantava de nada eu falar mal do Lula no Broinha.com, pois
quanto mais eu o criticava, mais ele subia nas pesquisas. Aliás,
supersticioso como todo bom botafoguense, Maurinho achava até
bom eu continuar a criticar, pois assim a fatura se concretizaria
já no primeiro turno. Compreendo as superstições
do Maurinho e até tento entender suas angústias,
pois ele faz parte de uma corrente petista que, desde sempre,
desconjurou qualquer aliança com políticos ditos
de centro-direita e meia-esquerda. A coisa começou mal
para eles com a escolha do José Alencar para vice, um
político conservador e industrial, saído do seio
da elite que tanto os petistas criticavam. Depois da eleição,
para garantir certo equilíbrio no Congresso Nacional,
os petistas tiveram que aceitar o apoio e as pequenas exigências
dos senhores José Sarney e Renan Calheiros, para arrepio
dos petistas de primeira hora. Nem vou falar da desilusão
com o Delúbio Soares, com o Silvinho Pereira, com o companheiro
Genoíno e da eminência parda que era o José
Dirceu, porque ai seria tripudiar com a desgraça alheia.
Então,
são compreensíveis as angústias do Maurinho
e de muitos que, como ele, sofrem com esses neo-petistas de
última hora que lhes são empurrados goela abaixo.
Mas isto faz parte do jogo político, meu caro Maurinho,
e os petistas, agora no poder, estão começando
a aprender que governar não é um verbo que só
se conjuga na primeira pessoa do singular do presente do indicativo
( eu governo ). Não, na maioria absoluta das vezes a
governança democrática é exercida na primeira
pessoal do plural do presente do indicativo ( nós governamos
). Talvez este aprendizado tenha vindo tarde para José
Dirceu, ainda fã de carteirinha de Fidel Castro e sua
governança ditatorial, mas para os mais equilibrados
políticos do PT e de boa parte de seus filiados, a prática
da governança democrática foi o melhor aprendizado
nesses 3,5 anos de mandato do Lula.
Por
isso, é também compreensível a alegria
do Maurinho em ver que as pesquisas, até o momento, dão
vitória do Lula já no primeiro turno das eleições
presidenciais. Incompreensível para muitas pessoas, plenamente
justificado para o pessoal do PT, o certo é que, mesmo
o presidente Lula sendo enganado por todos os seus companheiros
mais chegados e não sabendo de nada que acontece às
suas costas, no seu lado direito, no seu lado esquerdo e na
sua frente, ainda assim o seu prestígio junto ao eleitorado
continua alto. Talvez estejamos diante de um exemplo de político
que acha que mais vale a intenção que a ação.
Aquele que, diante uma multidão, levanta a mão
direita aberta e diz: “Estas são as minhas 5 prioridades”.
O povo conta só 4, mas acredita na existência das
5, parecendo, até, que Rui Barbosa fora profético
quando disse: “De tanto ver triunfar as nulidades, de
tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça,
de tanto ver
agigantar-se o poder nas mãos dos maus, o “povo”
chega
a rir-se da honra, desanimar-se da justiça, e ter vergonha
de ser honesto”.
É
preciso que a classe política deste país, meu
caro Maurinho, caia na real, antes que o povo, por absoluta
falta de confiança e de esperança nos seus representantes,
descubra que está “sobrevivendo da caridade de
quem o detesta”, que as idéias “não
correspondem aos fatos”, que “o futuro repete o
passado”, e que não se tem “data para comemorar”.
Quando o povo se der conta de que empunhando uma “metralhadora
cheia de mágoas” pode eliminar os ladrões
que estão transformando “o pais inteiro num puteiro,
para ganhar mais dinheiro”, ai pode ser tarde demais para
nossa incipiente democracia, pois o “tempo não
pára, não pára, não, não
pára”. “Arnaldo Brandão/Cazuza”.
Finalizando
meu caro parente, amigo, botafoguense e supersticioso Maurinho,
eu vejo e entendo que a fórmula petista de governar é,
mais uma vez repetindo Cazuza, “um museu de grandes novidades”.
“Mas se você achar que estou “enganado”,
saiba que ainda estão rolando os dados. Pois o tempo,
o tempo não pára”.
Saudações
Botafoguenses!!!
GILBERTO VIEIRA DE REZENDE
calcadense@bol.com.br